- Nº 2531 (2022/06/2)

Gesto de solidariedade com a vontade de mudança do povo colombiano – Sandra Pereira deslocou-se à Colômbia

Internacional

Em que contexto se deu a tua deslocação à Colômbia?

No âmbito da realização das eleições presidenciais na Colômbia, no passado dia 29 de Maio, o Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/ Esquerda Verde Nórdica – A Esquerda no Parlamento Europeu promoveu uma iniciativa de acompanhamento deste acto soberano do povo colombiano. Integraram a delegação cinco deputados oriundos de Espanha, incluindo um do País Basco, França, Grécia e Portugal, com o objectivo de expressarmos a nossa solidariedade para com as forças progressistas colombianas, cuja longa e persistente luta muito valorizamos.

 

Que contactos efectuaste durante a tua estada na Colômbia? Qual a tua impressão?

Nos dois dias anteriores às eleições tivemos encontros com diferentes partidos políticos, como os Comuns – partido formado por ex-membros da Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC) –, o Partido Comunista Colombiano e o partido Colômbia Humana, que integram o Pacto Histórico.

Destaco a importância destas eleições, o momento histórico que representam, a esperança e o optimismo que se verificam na possibilidade de uma efectiva mudança neste país. Nunca nenhuma candidatura da esquerda tinha chegado tão longe, mobilizado tanta gente e criado tal movimento de vontade de mudança.

Desde as grandes greves e mobilizações populares de Abril de 2021, perante uma prolongada e grave crise social e económica, os trabalhadores e povo colombiano têm-se mobilizado para derrotar o governo de extrema-direita de Ivan Duque e para conquistar uma efectiva mudança de política na Colômbia. O governo do actual Presidente Ivan Duque termina o seu mandato muito descredibilizado, sobre o qual persistem acusações de corrupção, por falta de resposta aos problemas sociais e económicos, que foram agravados com a pandemia, pela sua aposta na continuidade do conflito e da violência, pela não implementação e claro desrespeito dos acordos de paz.

A candidatura do Pacto Histórico, protagonizada por Gustavo Petro e Francia Márquez, respectivamente candidatos à Presidência e Vice-presidência da Colômbia, comporta uma vontade de mudança e um sentimento de esperança num futuro comprometido com o fim das desigualdades e da violência, com a paz, a justiça social e a prosperidade.

Independentemente dos resultados da segunda volta, que terá lugar no próximo dia 19 de Junho, as forças políticas que se reúnem no Pacto Histórico, caracterizaram o momento actual como um ponto de não retorno, por sentirem na mobilização popular uma vontade de mudança de política, que defenda os interesses dos trabalhadores e do povo colombiano e que enfrente a extrema-direita uribista, corrupta e violenta, que levou o país à actual situação.

 

Os resultados eleitorais do passado Domingo confirmaram as expectativas?

A candidatura do Pacto Histórico era dada como favorita em todas as sondagens – algumas até lhe atribuíam a possibilidade de alcançar a vitória na primeira volta – e a mobilização durante a campanha eleitoral já augurava um bom resultado. Havia, obviamente, riscos que pairavam sobre os resultados.

Em primeiro lugar, as ameaças à integridade física e à vida dos candidatos do Pacto Histórico, sendo que estes corriam cada vez maiores riscos à medida que iam subindo nas sondagens. Em segundo lugar, a ameaça de fraude eleitoral era real, com a possibilidade de compra de votos, irregularidades na contagem, ameaças e atentados à vida de activistas e eleitores. Paira ainda outro risco que é, em caso de vitória do Pacto Histórico, a eventual tentativa de impossibilitar a tomada de posse dos seus candidatos ou a sua acção governativa.

A oligarquia colombiana tudo tem feito para se perpetuar no poder. Ainda na noite das eleições, a extrema-direita uribista derrotada anunciou o seu apoio a Rodolfo Hernández, candidato que ficou em segundo lugar. No entanto, esse apoio político da extrema-direita a Rodolfo Hernández na segunda volta das eleições presidenciais, pode jogar a favor da candidatura do Pacto Histórico já que muitos dos eleitores que votaram Hernández fizeram-no por se oporem ao actual governo. O optimismo da mobilização em torno das candidaturas do Pacto Histórico é grande e corresponde a uma possibilidade real de êxito.

 

Que consequências poderá ter no plano da América Latina uma vitória das forças progressistas na segunda volta das eleições presidenciais na Colômbia?

Uma mudança de política na Colômbia reflectir-se-á em toda a América Latina, desde logo, quanto à questão da paz. A completa implementação dos acordos de paz contribuirá indubitavelmente para a desmilitarização nas relações com outros países da região e para relações baseadas no respeito pelos princípios da soberania, da não ingerência, da cooperação.

Com a recente eleição de candidatos progressistas no Peru – com a eleição de Pedro Castillo –, nas Honduras – com a eleição de Xiomara Castro – ou no Chile – com a eleição de Gabriel Boric – e a possibilidade de Lula da Silva voltar a ser eleito Presidente do Brasil, a eventual vitória de Gustavo Petro na Colômbia constituirá um importante contributo para que os povos da América Latina afirmem a sua soberania e independência perante o imperialismo norte-americano e o seu domínio. Venham de lá esses bons ventos!