PCP exige Serviço Público de Cultura
O 2.º Encontro Nacional de Cultura do PCP decorreu, domingo, 15 de Maio, no Seixal, sob o lema «Democratização, Liberdade Cultural. Por um Serviço Público de Cultura».
Lutar por uma política patriótica e de esquerda
Os trabalhos realizaram-se na Sociedade Filarmónica Democrática Timbre Seixalense – com 174 anos de existência – e neles participaram cerca de duas centenas de pessoas, vindas de vários pontos do País.
Na mesa estiveram Margarida Botelho, Jorge Pires, respectivamente do Secretariado e da Comissão Política do Comité Central (CC), e Alma Rivera, do CC e deputada na Assembleia da República (AR). A estes juntaram-se Miguel Soares, Rui Lopes, Filipa Malva, Ana Mesquita, Inês Gregório, Daniel Figueiredo, da Comissão Nacional do Partido para as questões da Cultura, e Nuno Coimbra, da Direcção Nacional da JCP.
No arranque, foi também apresentada a Comissão de Redacção do Projecto de Resolução Política, composta por Ana Mesquita, António Gavela, Filipa Malva, José Carlos Faria, Filipe Dinis, Manuel Augusto Araújo, Miguel Soares e Pedro Penilo.
O documento – aprovado, no final dos trabalhos, por maioria, com uma abstenção – faz um balanço entre os dois encontros e aborda «A Cultura como campo de luta e jogo de forças», a «Intervenção própria do Partido», «O Movimento Associativo Popular», «As várias áreas da Cultura» e «Outro rumo para a Cultura».
Proposta de viragem
Miguel Soares, do CC e do Executivo da Direcção da Organização Regional de Lisboa, fez a intervenção de abertura do Encontro, tendo referido que o Serviço Público de Cultura que o PCP propõe, «mais do que a agregação e funcionamento articulado e sustentado de um conjunto de estruturas, instituições, entidades, recursos e meios, é uma proposta de viragem nas políticas para a Cultura». «É o caminho para o desenvolvimento cultural, para a sua democratização, para a criação de amplas condições para a criação e fruição culturais em todo o território nacional» e «para a afirmação de uma Cultura viva, rica e diversa, de promoção de um País de progresso, independente e soberano», reforçou.
Nas cerca de 30 intervenções, artistas, músicos, produtores, técnicos e investigadores, trabalhadores das diversas profissões da Cultura, abordaram temas como «A Cultura no quadro actual do capitalismo», «Artes Plásticas», «Ensino Artístico»,«Luta na Cultura» ou «Trabalho cultural nas câmaras de maioria CDU». Sobre a intervenção do PCP na AR, Alma Rivera elencou as propostas (ver páginas 13, 14 e 15) para o sector da Cultura que o Partido apresentou no âmbito da discussão na especialidade do Orçamento do Estado (OE), como a duplicação da dotação inicial do Orçamento da Cultura, tendo como objectivo alcançar num futuro próximo o patamar mínimo de 1% do OE para a Cultura. «Sabemos que um movimento reivindicativo cada vez mais forte pode obrigar a uma mudança. Este Encontro é parte dessa luta», salientou a deputada comunista.
Unir esforços
A encerrar o momento, Jorge Pires salientou que a Resolução aprovada «constitui um importante contributo» para a intervenção do Partido, «capaz de mobilizar todos aqueles que estão dispostos a unir esforços com o objectivo de mudar o rumo de desvalorização da Cultura que tem sido seguido em Portugal» e, assim, «construirmos soluções capazes de levar por diante a democratização do acesso, da criação e da fruição culturais».
O dirigente comunista frisou, ainda, que «o acesso aos bens e serviços culturais, a participação da vida cultural e o desenvolvimento de actividades culturais no País, particularmente mediante a promoção da criatividade e da criação, representam hoje em dia uma exigência fundamental», que está reflectida no Programa do PCP «Uma democracia avançada. Os valores de Abril no futuro de Portugal». Uma das suas quatro vertentes é a democracia cultural, «entendida como um factor da democracia política cujas potencialidades só se podem desenvolver com o alargamento e a elevação da formação e da vida cultural das populações», reforçou.
Depois de acusar os sucessivos governos de sacrificara Cultura portuguesa «ante a avassaladora colonização cultural vinda dos países imperialistas», Jorge Pires referiu outros problemas do País que diariamente atingem o povo, «como as desigualdades e as injustiças sociais, os atrasos e défices estruturais, o aumento do custo de vida, a degradação dos serviços públicos, a dependência externa, a falta de aposta na produção nacional», que «exigem soluções políticas que o Governo não tem e se recusa a assumir».
Mostrar o engano
Por tudo isto, «este é já o tempo de agir para mostrar o engano e desenganar os muitos que tomaram como certas e sérias» as «promessas eleitorais» do PS. «Mostrar e repudiar a mentira e o preconceito anticomunista que, na base de uma caricatura da posição do PCP sobre a guerra, se difunde e manipula. É tempo de mostrar quem ganha e quem perde com a guerra e com as sanções que em seu nome se decretam e que estão a servir para intensificar a exploração, agravando as condições de vida, aumentando as injustiças, garantindo aos grupos económicos lucros amassados à custa da perda de poder de compra dos trabalhadores e do povo», reforçou Jorge Pires.
«O Partido diz ao artista que descubra e use a sua própria linguagem. Apenas um justo desejo: que a sua obra, além da emoção estética, inspire sentimentos conformes à luta pela cultura, à luta pela liberdade, à luta pela democracia, em que o povo português está empenhado. E contribua para criar determinação e confiança». Álvaro Cunhal
«A aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas no quádruplo ponto de vista físico, moral, artístico; significa, numa palavra, a conquista da liberdade». Bento de Jesus Caraça
Testemunhos
Filipe Dinis: «Para o capitalismo a forma de intervir na cultura é instrumentalizar. Para nós é libertá-la dessa instrumentalização».
Ana Mesquita: «A proposta do PCP de um Serviço Público de Cultura é uma ruptura com o instituído. (…) É a garantia de independência, de ampla autonomia, de livre criação, efectiva fruição que hoje se encontra cerceada, porque continuamos sem sair do zero virgula qualquer coisa no OE».
Augusto Flor: «O nosso Partido, para além de uma política própria e distintiva que dirige, tem apresentado muitas propostas na AR, quer no respeito à legislação que abrange a actividade cultural associativa, quer em medidas e políticas concretas no âmbito da discussão dos orçamentos do Estado».
João Queirós: «A maioria da população está excluída das produções do OPART (organismo que gere o Teatro Nacional de São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado), seja pelo custo do bilhete, seja pela ausência do ensino artístico no percurso educativo da maioria da população».
José Carlos Faria: «O desenvolvimento do teatro é uma necessidade imperiosa (…), este é um dever do Estado, um seu ónus e um dever moral, porém, falta coragem e vontade política e sobra desinteresse e desdém».
Pedro Jorge Marques: «A Casa da Música é conhecida internacionalmente pela qualidade dos seus agrupamentos e staff, pena é que esse reconhecimento não seja, na maioria das vezes, traduzido em boas condições de trabalho. (…) O PCP tem estado e estará sempre ao lado dos trabalhadores da Casa da Música».
Pedro Duarte: «O sector do cinema em Portugal continua a sofrer da ausência de uma política pública – que nenhum governo procurou implementar. Falta-nos uma estratégia para garantir que os trabalhadores do sector tenham estabilidade e dignidade».
Maria Santana: «Uma política cultural descentralizada é o caminho para que seja promovida e efectivada uma necessária e urgente democratização da cultura e recusada a submissão da cultura à estrita lógica do mercado. Urge um projecto de discussão democrático, aberto e amplamente participado para apurar as realidades existentes e as suas potencialidades, simultaneamente ao nível nacional e regional».
Nuno Coimbra: «Cabe à juventude, enquanto elemento decisivo no processo de transformação da realidade, afirmar a cultura universal, alargando o seu espaço e possibilitando que cada indivíduo se consolide como criador, possuidor de espírito crítico e não apenas consumidor passivo da mercadoria cultural que o grande capital nos procura vender».
Inês Gregório: «Quando em Março de 2020 fomos – estruturas de criação, programação e os trabalhadores do sector cultural – confrontados com os primeiros cancelamentos e o primeiro confinamento, as fragilidades deste sector ficaram expostas de forma dramática. O subfinanciamento, a precariedade, os baixos salários, as desigualdades territoriais, a forte informalidade laboral, tornaram-se ainda mais evidentes e tiveram consequências desastrosas para os trabalhadores da Cultura».
Fausto Neves: «A música e a cultura são instrumentos de emancipação das populações, factores de evolução cognitiva, estética e espiritual. Também aqui, só a luta nos pode assegurar o usufruto das práticas performativa e criadora em toda a liberdade e na plenitude do amplo espectro de estilos, épocas, formas. Só pela luta poderemos conquistar um Serviço Público de Cultura. Só pela luta poderemos ter música de todos e para todos».
Miguel Januário: «A situação pandémica que vivemos acentuou e tornou clara a precariedade e instabilidade no trabalho nas artes visuais. As condições de trabalho dos artistas são estabelecidas a prazo. Os rendimentos dos trabalhadores deste sector são fundamentalmente ditados pelas candidaturas e resultados aos múltiplos concursos para financiamento da produção de projectos».
José António Gomes (intervenção lida por Alexandra Paz): «Estudos recentes e credíveis mostram que os portugueses lêem cada vez menos, encontrando-se na cauda da Europa em termos de índices de leitura. A utilização acrítica, quase acéfala, da Internet e das suas virtualidades é uma realidade gritante. É clara, por isso, a necessidade de reforço da dotação orçamental do Plano Nacional de Leitura e de reformulação do seu plano e acções com vista à criação de uma linha de novos apoios às bibliotecas escolares».
Artur José Sequeira: «A acção do PCP tem-se afirmado como um decisivo contributo para a consciencialização da classe trabalhadora da Cultura. Como consequência, assistimos ao reforço da mobilização dos trabalhadores deste sector ao longo dos anos. Hoje reafirmamos que a luta é o caminho».
Joana Tomé: «As mulheres trabalhadoras do sector da Cultura encontram-se, de facto, nas posições mais precárias, mas também na rua, presentes, efectivamente, em condições de maioria, nas acções de massa, nas reivindicações nos locais de trabalho, na luta organizada no plano sindical e na criação artística comprometida com a transformação social, reivindicando políticas públicas que garantam a sustentabilidade e a diversidade cultural do País».
Tiago Santos: «Desde o seu início, o Manifesto (em Defesa da Cultura) afirmou a importância central da Cultura, do seu imenso potencial de criação, liberdade, transformação, dialogo e resistência, como fundamental para a democracia».
Manuel Gusmão (intervenção lida por Rui Mota): «Na tradição marxista, para que possam ser projecto, em acto e em antecipação de emancipação, para que possam contribuir para multiplicar e transformar as formas do mundo e da vida, as artes têm de ser entendidas, como dotadas, de uma autonomia relativa. Essa autonomia, em relação às determinações económicas e sociais que se exercem sempre, mesmo que de forma mais ou menos indirecta e mediata, não pode, contudo, pensar-se como absoluta. Seria o abandono ou a perda de caminhos possíveis para relacionar a esfera da arte com as da vida vivida ou a viver».
Mónica Mendonça: «Cabe também à juventude contribuir e impulsionar a luta, para que se garantam os apoios necessários ao movimento associativo popular e pelo direito a termos tempo para viver e envolvermo-nos nas várias dimensões que o movimento associativo popular oferece».
Pedro Penilo: «Os ganhos alcançados com a análise das decisões, o trabalho e a luta dos comunistas, dos democratas, dos trabalhadores e do povo são incomensuráveis. (...)ganhou primazia a luta organizada e militante; reforçámos as organizações; politizou-se a luta de massas com o estabelecimento de eixos de um programa democrático para a Cultura».
Filipa Malva: «Este novo estatuto (dos Profissionais da Cultura) é apenas o prolongamento de anteriores peças legais que têm vindo a isolar cada sector nas suas próprias especificidades, tentando impedir a solidariedade na luta de todos os trabalhadores».
Rui Galveias: «Hoje, os trabalhadores da Cultura têm uma maior consciência colectiva e dão mais importância à luta organizada, e o CENA-STE tem um papel decisivo no futuro da Cultura e dos seus trabalhadores».
Dina Duque: «O Movimento Cineclubista enfrenta enormes dificuldades, com o financiamento do Instituto do Cinema e do Audiovisual irregular e deficiente». Por outro lado, está «dependente do interesse e da boa vontade das câmaras municipais, quer na cedência de espaços, quer em apoios financeiros».
Eduardo Pereira Marques: «A Democracia Cultural é que nos vai trazer identidade, consciência e vontade de trabalhar e lutar por uma sociedade diferente».
Vanessa Borges: «Reforça-se a necessidade de um Serviço Público de Cultura que carece de planificação e estratégia» e que não pode «esquecer a participação das crianças, pois estas não são o futuro, são já o presente».
Ana Cruz: «Pugnamos pela regulamentação da carreira de arqueólogo e da respectiva tabela salarial, acabando com a exploração dos jovens licenciados, em muitos casos com vencimentos e salários iguais ou inferiores ao salário mínimo nacional».
António Gavela: «O Poder Local recebe cada vez menos e são-lhe transferidas cada vez mais competências, sem os recursos necessários. (…) O agravamento da situação do movimento associativo cultural, muito acentuado pela pandemia, exigia uma resposta decidida do Governo PS (…), mas o que houve foi um fechar de olhos, uma realidade de mãos atadas, sem perspectiva de luz ao fim de um túnel que parece não ter fim. (…) As populações sabem que é na CDU que encontram esperança e confiança na luta por uma vida melhor».