Na noite de sábado, 3 de Setembro, no Auditório 1.º de Maio

Rave Avante! evoca as mulheres e as suas lutas

Inês Coutinho – Violet

- A origem eminentemente de esquerda do movimento da música de dança, DJing e música electrónica.

O movimento #DJsforPalestine reflecte esta posição mais politizada

A Rave Avante! é uma estreia na Festa, mas ambas têm como catalizador histórico a luta contra a opressão. Techno e a house são porventura os géneros que marcam o despontar da música electrónica de dança.

Esta música surge como expressão de resistência nos anos 80 em Chicago, Detroit e Nova Iorque, cidades onde comunidades marginalizadas pela sua classe, sexualidade, por serem imigrantes e pela sua raça se juntavam em clubes como The Warehouse (cujo nome deu origem ao termo house music) ou Paradise Garage (um nome muito replicado pelo seu valor simbólico – até em Lisboa já houve um clube com esse nome) para se refugiarem do sistema, para se expressarem e serem quem são, longe do escrutínio e exploração hegemónicos.

Isto já acontecia com géneros irmãos como o hip-hop, funk ou disco – e toda esta linhagem de música (sobretudo feita e promovida por pessoas negras, LGBTQI+, mulheres e a classe trabalhadora) foi alvo de tentativas sucessivas de estrangulamento por governos conservadores (Thatcher fê-lo com a cultura Rave inglesa, de onde surgem géneros como o drum n’ bass e o hardcore), que criaram leis quase ad-hominem, dedicadas a acabar com estes «perigosos» encontros culturais e sociais (raves, festas, discotecas) que têm no seu ADN um lastro de esquerda e revolucionário, solidário com as pessoas oprimidas e frontalmente contra a manutenção do privilégio.

Esta música era, na verdade, filha da luta de classes ainda antes de existir em qualquer gravação. O acid house, um dos sub-géneros chave da música de dança, é inventado com recurso a um equipamento que na época se considerava obsoleto, sendo por isso o seu preço muito reduzido e tornando-o em um dos poucos sintetizadores acessíveis para a classes marginalizadas. Esse equipamento é a Roland TB 303, um emulador de guitarra-baixo feito para acompanhar guitarristas que nunca viu sucesso comercial e cujo som metálico e desorientante se tornou numa das marcas sónicas da música de dança como a conhecemos.

Hoje em dia, feminismo, anti-racismo, ou mesmo socialismo (o verdadeiro), marxismo e comunismo são palavras de ordem para uma grande comunidade dentro da música de dança. Existem hoje dezenas de compositores e DJs que expressam esse engajamento político através das redes sociais; de contratos que promovam a diversidade; de iniciativas como a participação nas marchas antifascistas, anti-racistas, feministas e pela habitação justa; a cooperação com associações e partidos de esquerda, ou a adesão a projectos como a PACBI/BDS. Um exemplo disto é o movimento #DJsforPalestine que surge em 2018 e reflecte bem a posição mais politizada que há nos últimos anos na comunidade da música de dança – uma politização marcadamente de esquerda, que defende os oprimidos e atende a várias lutas que são projectos e ideias desde sempre da esquerda.

Em paralelo, e com o advento da Internet, começaram a criar-se laços internacionais – é hoje bastante natural os músicos de esquerda terem um espírito de entreajuda e elevação mútua comunal, discussão política e projectos conjuntos de cariz político. Existem colectivos pautados pelas suas políticas emancipatórias, inclusivas e pela paz em Portugal, na China, na Índia, no Brasil, no Reino Unido, Uganda ou no West Bank Palestino. Em todo o mundo, artistas e organizadores juntam-se para tornar os seus espaços de criação e fruição musical em lugares mais inclusivos, pedagógicos, operando sob a lente da ajuda mútua como resistência a um sistema incapaz de suprir as necessidades da comunidade artística.

Yazzus e Renata são as convidadas de Violet nesta primeira Rave Avante!, que este ano tem como mote as Mulheres e as suas lutas. Aqui estão duas mulheres, uma nascida no Gana, outra no Líbano, que enfrentaram um conjunto de obstáculos impostos pelo status quo para se cumprirem enquanto artistas: classe, nacionalidade, género são exemplos. Mas é também exemplo o rasgo artístico a que se propõem ao dar continuidade a uma linhagem histórica de pessoas que embora privadas de recursos se superaram apoiadas nas suas crenças políticas e nas suas comunidades.

 

Violet

Inês Coutinho, nome artístico Violet, é uma compositora e DJ nascida em Lisboa, fundadora das editoras independentes naive e naivety e co-fundadora dos colectivos mina, A.M.O.R. e Rádio Quântica. Actuou ao vivo a solo em reputados festivais internacionais como Berlin Atonal, Unsound (Polónia), Magnetic Fields (Índia), Sugar Mountain (Australia), Dekmantel Selectors (Croácia) e mais, em tournées por todos os continentes.

Compôs música para a peça de teatro Jângal no Teatro São Luiz, para o espectáculo de dança 20 18, no Palácio Foz – ambas produções do Teatro Praga – e ainda bandas sonoras para desfiles das semanas da moda de Lisboa, Porto Milão e Paris, bem como o filme Super Natural, estreado este ano na Berlinale. Radialista desde 2009, passou pela Antena 3, continuando presentemente na Rinse FM (Londres) e na sua Rádio Quântica, mensalmente.

Enquanto produtora musical, a sua discografia remonta a 2006, e inclui vários EP e três álbuns – o primeiro na editora americana Dark Entries, denominado Bed Of Roses foi considerado um dos álbuns do ano de 2019 pela Fact Magazine e pela DJ Mag –, o segundo Archives 2012-2020 foi editado em 2021 na sua própria editora naivety e em 2022 saiu Transparências. É ainda responsável por dezenas de remisturas (para a banda brasileira Teto Preto, a artista americana Kim-Ann Foxman, o artista chileno Matias Aguayo e muitas outras).

 

Yazzus (Gana)

Nascida no Gana, criada em Londres e agora sediada em Berlim, Yazzus é uma DJ e produtora apaixonada por música electrónica vibrante e de alta energia, abraçando na sua prática diferentes texturas e ritmos. Parte de um movimento underground que eleva o papel artístico emancipatório da mulher, Yazzus é a personificação moderna da cultura rave, influenciada pela cena rave hardcore dos anos 90 que celebrava ideias como a paz e aceitação entre os povos e identidades, actuando como uma força para a renovação destas ideias, juntando nos seus sets uma mistura de hard techno, gabber, ghettotech e electro. O seu estilo é um dispositivo para transcender todas as dimensões na pista de dança usando melodias exuberantes, linhas de baixo hipnóticas e energia rítmica contagiante.

 

Renata (Líbano)

O som da artista libanesa Renata foi moldado ao longo de anos de experimentação com batidas, explorando os limites dos decks e caixas de ritmo sob uma óptica de desconstrução/reconstrução.

A sua música bebe inspiração nas franjas mais obscuras do techno experimental - e toma forma como uma manifestação de dissidência através do seu modus operandi em permanente mutação. Durante o tempo em que trocou Beirute por Londres, afinou a sua prática com residências de DJ e a sua própria série de eventos sob o nome The Calling. Em 2016 retorna à sua Beirute natal, integrou o colectivo Frequent Defects com o qual trabalha de forma multidisciplinar para abordar questões sociais e políticas com arte radical. Nesta veia, este ano Renata fez parte do alinhamento do festival palestino Exist Festival que junta artistas emergentes da Palestina a artistas internacionais alinhados ética e sonicamente com os curadores.