- Nº 2525 (2022/04/21)

Tempos difíceis também em África

Internacional

A África atravessa tempos difíceis, apesar dos avanços históricos alcançados ao longo das décadas após as independências.

De Norte a Sul do diverso continente crescem tensões, voltam os golpes de Estado, persistem guerras, a maior parte delas instigadas do exterior ou mesmo com intervenção de forças estrangeiras – do Saara Ocidental à Líbia, do Mali e Níger ao Sudão do Sul, da Nigéria à Etiópia e Somália, da República Centro-Africana ao leste da República Democrática do Congo. Tudo isso a provocar destruição, a atrasar o desenvolvimento, a alastrar a pobreza, a aprofundar desigualdades.

Agravando a situação dos povos, sucedem-se os desastres naturais: das cheias, como as que ocorreram agora na África do Sul, às secas, de que são exemplos as que atingem países e regiões, de Cabo Verde ao Corno de África.

Saídos de dois anos de luta contra a COVID-19, evidenciando inesperada resiliência, apesar da discriminação a que foram votados pelas potências ocidentais, e ainda não recuperados dos impactos económicos e sociais da pandemia, os países africanos são agora confrontados com os efeitos da guerra no Leste da Europa e das sanções impostas à Rússia pelos EUA e aliados.

As perspectivas são más.

O Programa Mundial de Alimentos admite que a continuação da seca no Corno de África (sobretudo na Somália, mas também no Quénia e na Etiópia), aliada à insuficiente ajuda humanitária, aumentará os milhões de pessoas atingidas pela fome.

Outra agência, a Organização para a Alimentação e a Agricultura, alertou para os impactos da pandemia e da guerra na segurança alimentar no continente.

Em Nova Iorque, a secretária-geral adjunta da ONU, Amina Mohammed, avisou que a crise ucraniana ameaça lançar 1700 milhões de pessoas – mais de um quinto da humanidade – na pobreza e fome. Lembrou que a Federação Russa e a Ucrânia abastecem, a nível mundial, 30 por cento do trigo e da cevada, um quinto do milho e mais de metade do óleo de girassol. Os seus cereais proporcionam mais de um terço do trigo importado por 45 países africanos e menos desenvolvidos. Segundo a responsável, o aumento dos preços do petróleo e do gás e a inflação generalizada agravarão os problemas causados pela pandemia em muitos países. Desde o início de 2022, os preços do trigo e do milho aumentaram 30 por cento, os do petróleo subiram 60 por cento num ano e os do gás natural e dos fertilizantes duplicaram.

No meio desta situação grave, uma notícia animadora chega do Burkina Faso.

Quase 35 anos depois do assassinato do presidente Thomas Sankara (1949-1987), fez-se alguma justiça. Em resultado do julgamento, num tribunal militar de Uagadugu, foram condenados a prisão perpétua três responsáveis pelo crime: Blaise Compaoré, chefe do Estado entre 1987 e 2014 (hoje escondido na Costa do Marfim), o seu chefe da segurança, Hyacinthe Kafando, e o ex-general Gilbert Dienderé, os dois primeiros à revelia.

Ficou provado que Sankara, que mudou o nome do seu país de Alto Volta para Burkina Faso (terra de homens dignos), foi morto no quadro de uma conjura internacional para o afastar do poder. Não perdoaram ao jovem revolucionário desafiar a ordem mundial estabelecida, denunciar a dívida externa que oprime os Estados africanos, criticar a ex-metrópole colonial, a França.

 

Carlos Lopes Pereira