Verdes Anos: tudo começou com um filme e depois foi o que se (ou)viu

Nuno Gomes dos Santos

Verdes Anos é um tema in­con­tor­nável do re­por­tório de Carlos Pa­redes e da pró­pria mú­sica por­tu­guesa

Em 1963, o filme Os Verdes Anos marca, de forma ou­sada, o nas­ci­mento do mo­vi­mento cha­mado «Ci­nema Novo Por­tu­guês». A fita juntou, na sua fei­tura e no seu pro­lon­ga­mento nou­tras an­danças, um nú­mero as­si­na­lável de gente da nossa cul­tura e tem, hoje, um valor his­tó­rico/​sim­bó­lico por ser ino­vador, atre­vido e, tendo em conta a época e os meios dis­po­ní­veis, bem feito já que, po­dendo ser clas­si­fi­cado como uma obra naif, para usarmos a re­tro­versão da pa­lavra in­génuo para francês, que era de França que nos che­gavam, se fa­lamos de sé­tima arte, in­fluên­cias e ter­mi­no­lo­gias, foi um salto e um rom­pi­mento com as «re­gras» e os «moldes» que le­varam, nos anos 60, em quase todo o mundo e com re­flexos em Por­tugal, um abanão in­con­tor­nável.

Como exemplo desse su­per­la­tivo nú­mero de fi­guras da nossa cul­tura li­gadas aos Verdes Anos temos, desde logo, o re­a­li­zador do filme, Paulo Rocha que, jun­ta­mente com An­tónio da Cunha Teles, pro­dutor deste tra­balho, foi con­si­de­rado um dos fun­da­dores do novo ci­nema por­tu­guês. De­pois, um nunca mais acabar de gente no­tória, como os prin­ci­pais ac­tores - Isabel Ruth, que co­meçou pelo ballet antes de se de­dicar à re­pre­sen­tação e chegou a ser con­si­de­rada «uma das me­lhores ac­trizes do ci­nema por­tu­guês» e Rui Gomes – e os res­tantes in­tér­pretes do filme, como Paulo Re­nato, Óscar Acúrcio, Júlio Cleto, Rui Fur­tado, Ma­noel de Oli­veira e Carlos José Tei­xeira, entre ou­tros.

O guião de Verdes Anos foi es­crito por Paulo Rocha e pelo es­critor Nuno Bra­gança (autor de, por exemplo, A Noite e O Riso). E a di­recção mu­sical es­teve a cargo, nem menos, de Carlos Pa­redes.

Verdes Anos: a mú­sica

A mú­sica do filme é de Carlos Pa­redes. E o tema prin­cipal, Verdes Anos, é uma das com­po­si­ções mais em­ble­má­ticas do ge­nial gui­tar­rista/​com­po­sitor. O filme de Paulo Rocha teve, por isso, ra­mi­fi­ca­ções mu­si­cais que con­tri­buírem para que, à volta dele, se fossem jun­tando ou­tros nomes de peso da nossa cul­tura.

Assim, o poeta Pedro Tamen es­creveu a letra para a com­po­sição de Pa­redes, ini­ci­al­mente can­tada por Te­resa Paula Brito e de­pois in­ter­pre­tada por Dulce Pontes, Te­resa Sal­gueiro, Ma­riana Abru­nheiro e Amália Ro­dri­gues. Uma canção pouco ou­vida, mas sempre bem can­tada, uma com­po­sição mil vezes es­cu­tada e ou­tras tantas aplau­dida em Por­tugal e por esse mundo fora.

O filme passou, teve a sua ine­gável im­por­tância mas, ao con­trário da com­po­sição com o mesmo nome é, apenas, His­tória. Porém, Verdes Anos, a mú­sica, foi, é e será sempre ac­tual, nada per­dendo com o passar dos anos, antes ga­nhando mais e mais ou­vintes atentos ve­ne­ra­dores e obri­gados. Tema obri­ga­tório no re­por­tório de Pa­redes, foi ou­vida nas quatro partes do mundo, sendo me­mo­rá­veis os con­certos de Frank­furt e de Tou­louse, com pú­blicos exi­gentes e com­ple­ta­mente ca­ti­vados.

Carlos Pa­redes (Coimbra, 1925 - Lisboa 2004), que aprendeu a tocar com seu pai, Artur Pa­redes, mestre da gui­tarra de Coimbra, tocou com Charlie Haden, Paul Mc­Cartney, Vic­to­rino de Al­meida, Ma­nuel Alegre, Mário La­ginha, Rui Ve­loso, Adriano Cor­reia de Oli­veira, Carlos do Carmo e ou­tros, já que es­tava sempre dis­po­nível, nos con­certos po­pu­lares em que par­ti­cipou – e foram muitos! – a acom­pa­nhar (ele, que foi acom­pa­nhado à viola por Fer­nando Alvim ou Luísa Amaro, o mais das vezes) um cantor ou, mais fre­quen­te­mente, um de­cla­mador, co­lo­cando-se, com hu­mil­dade, em se­gundo plano e, ima­gine-se, agra­de­cendo «a opor­tu­ni­dade» de tocar ali, na­quele palco, com aquelas pes­soas...

Foi mi­li­tante do Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês e a PIDE prendeu-o por isso. Para a po­lícia po­lí­tica fas­cista, Pa­redes era um fun­ci­o­nário ad­mi­nis­tra­tivo do Hos­pital de S. José que to­cava umas coisas e par­ti­ci­pava em actos sub­ver­sivos. Mas nós sa­bemos que era – e é! – muito mais do que isso. Desde muito novo. Desde os seus pró­prios verdes anos.




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