Pete Seeger: um homem para cantar e lembrar
Pete Seeger denunciou injustiças, cantou sonhos e lutas
Fomos conhecendo muitas das suas canções, ao longo dos anos, porque delas se «apropriaram» outros intérpretes. Ouvimos Where Have All the Flowers Gone? nas vozes de Marlene Dietrich, Johnny Rivers e dos Peter, Paul and Mary, tendo este conhecido trio popularizado, como o fez Trini Lopez, If I Had a Hammer e os The Byrds divulgado Turn, Turn, Turn. Só mais tarde, neste país «orgulhosamente só», viemos a saber que o autor e compositor destas cantigas era Pete Seeger (1919-2014).
E foi bom sabê-lo porque andávamos cantando We Shall Overcome desde os anos 60, assim nos afirmando solidários com quem era, por qualquer razão e em qualquer parte do mundo, vítima do desrespeito pelo direitos humanos, mesmo não sabendo (nem todos, diga-se) que se tratava de uma canção nascida nos primeiros anos do século XX (primeiro chamava-se I’ll Overcome) e cuja «arte final» se ficou a dever a gente ligada à música folk e de protesto, como Zilphia Holter, Guy Carawan, Frank Hamilton e Pete Seeger, sendo este último o grande divulgador da cantiga, que também foi interpretada por Joan Baez, Bruce Springsteen e Mahalia Jackson e depois por muitos cantores progressistas em todo o mundo.
Pete Seeger escreveu centenas de canções que falam dos sonhos, da injustiça e das lutas do povo norte-americano no século XX, ultrapassando, no seu propósito e em larga escala, as fronteiras dos EUA.
Filho de um musicólogo e de uma violinista, foi educado pelo pai e pela madrasta, Ruth Crawford, também compositora e que tocava, com o pai Seeger, velhas canções folk. Pete Seeger quis ser jornalista, estudou em Harvard, mas desistiu. Em Nova York conheceu, através de Alan Lomax, estudioso da música tradicional norte-americana, o autor de blues Leadbelly e, depois, Woody Guthrie, num concerto para trabalhadores migrantes. Fundou o grupo Almanac Singers, que tocava canções pacifistas e apoiava a luta contra o nazismo. Foram perseguidos pelo FBI, acusados de serem comunistas ou simpatizantes de ideias de esquerda e tiveram que deixar de actuar.
Com Lee Hayer (dos Almanac Singers) fundou os Weavers, que gravaram para a Decca. São desse tempo Kisses Sweeter Than Wine ou So Long e os grandes êxitos If I Had a Hammer ou Good Night Irene.
Já a solo, Seeger, acompanhando-se à viola ou ao banjo, tocou em cafés, universidades e igrejas e conseguiu grande fama nos meios boémios e activistas de Greenwich Village (zona de grande actividade cultural e de vanguarda, onde «poisaram» personalidades como Henry Miller, Jack Kerouac, John Lennon, Allen Ginsberg, Astor Piazolla, Bob Dylan ou Eugene O’Neill e onde se localiza a Universidade de Nova York). Era o tempo de re-acordar a música folk, influenciando, por exemplo Dylan ou Joan Baez. E era também o tempo de ser perseguido pelo senador McCarthy, na célebre «caça às bruxas» que tinha como alvo todos os que, por incomodarem o sistema, eram acusados de ser comunistas…
Nos anos 60 Pete Seeger opôs-se frontalmente à guerra do Vietname, ofereceu o dinheiro que recebeu pela canção We Shall Overcome às organizações que apoiavam as populações negras e dedicou um disco às Brigadas Internacionais da Guerra Civil de Espanha.
Contra a corrente, foi-lhe concedida a Medalha Nacional das Artes pelo seu contributo para a cultura americana. O seu 90.º aniversário foi comemorado no Madison Square Garden, com Bruce Springsteen, Emylou Harris, Joan Baez e Roger McGunn (dos The Byrds), entre outros.
Para além das canções já referidas ao longo desta prosa, lembremos outras, como Solidarity Forever, Last Train To Nuremberg, ou as suas interpretações de This Land Is Your Land, de Woody Guthrie, ou de Down By the Riverside (espiritual negro tradicional a cuja música os intérpretes adaptavam as suas letras).
Em Portugal
Pete Seeger actuou em Portugal, no então Pavilhão dos Desportos de Lisboa, no dia 2 de Dezembro de 1993. Um dos promotores desse concerto foi Ruben de Carvalho que, anos mais tarde (5 de Março de 2014), lembrou esse espectáculo e falou de Seeger quando subiu ao palco do S. Jorge, em Lisboa, durante um tributo ao cantautor organizado por um grupo de músicos e admiradores de um homem que marcou grande parte de um século da música do seu país e do mundo e no qual participaram uma mão cheia de artistas unidos por uma enorme canção na qual se afirma, com convicção, que havemos de vencer. Cantámos e cantamos, com Pete Seeger, We Shall Overcome.