1983 – A balada de Narayama

O romance A Balada de Narayama, de Shichirō Fukuzawa, publicado em 1957, foi adaptado ao cinema em 1958, por Keisuke Kinoshita, e em 1983 por Shohei Imamura.Apesar de Kinoshita ser, a par de Akira Kurosawa, um dos principais nomes do cinema japonês das décadas de 40 e 50, foi a segunda versão da obra que se consagrou a nível internacional, com a conquista da Palma de Ouro do Festival de Cannes. Shôhei Imamura é de resto um dos poucos cineastas, e o único japonês, a ter ganho duas palmas de ouro (a segunda foi com A Enguia, em 1997). A Balada assenta na tradição, real ou imaginária?, de descartar os velhos aos 70 anos. Retrato de uma sociedade individualista em que a sobrevivência deixou de ser uma questão colectiva, a história leva-nos numa reflexão sobre a humanidade e a bestialidade do ser humano. Cumprir o ritual de levar a mãe ao cimo do monte onde a abandonará para morrer, confronta o filho com sentimentos que não pode expressar: manda a tradição que tudo se passe em silêncio, «obriga» a vida que em casa só fiquem os aptos. Hoje, os caminhos da velhice já não levam a Narayama; levam a lares, por mais confortáveis que sejam, onde os velhos esperam a morte para sempre separados da sociedade. Também por isso, é obrigatório (re)ver.