PCP iniciou comemorações do centenário de José Saramago
Numa sessão cultural em Lisboa, no dia 30 de Outubro, foi lançado o programa de iniciativas com que o Partido vai comemorar, até Dezembro de 2022, os cem anos do nascimento de José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, sob o lema «Escritor universal, intelectual de Abril, militante comunista».
«Escritor universal, intelectual de Abril, militante comunista»
Ao assinalar o centenário de José Saramago, o PCP «pretende contribuir para a divulgação e para o debate em torno da obra literária de um dos maiores escritores da língua portuguesa e um dos mais destacados intelectuais do Portugal de Abril, bem como contribuir para dar a conhecer o seu papel na luta contra o fascismo, em defesa de Abril e o militante comunista que foi até ao fim da sua vida», explicou Jerónimo de Sousa.
A intervenção do Secretário-geral do Partido encerrou a sessão, que teve lugar, durante a tarde de sábado, no Fórum Lisboa.
Com apresentação de Raquel Bulha, realizadora de rádio e locutora, subiram ao palco os actores Carmen Santos e João Grosso, que em dois momentos apresentaram trechos de obras de José Saramago; o cantautor Marco Oliveira, que no seu primeiro álbum, em 2008, incluiu versos de Saramago e, aqui, cantou mais palavras do autor homenageado que o continua a inspirar; Manuel Freire, acompanhado ao piano por Ricardo Dias, que antes de cantar começou por contar como compôs, nos dois dias seguintes à atribuição do Nobel a José Saramago, dez canções com poemas deste seu amigo, as quais completariam o álbum «As Canções Possíveis», editado para os 25 anos do 25 de Abril.
Como não pôde corresponder ao convite para intervir na sessão, Pilar del Rio dirigiu aos presentes uma saudação gravada em vídeo.
Raquel Bulha leu uma carta enviada por Amélia Muge, evocando Saramago «como homem, escritor e pessoa inspiradora».
Programa a começar
Na primeira intervenção da tarde, em nome da comissão organizadora das comemorações do centenário de José Saramago, António Modesto Navarro apresentou um programa de «iniciativas que são nossas e de todos», começando por observar: «Nós sabemos que a prática da luta diária se alia à experiência e à herança dos que nos antecederam, aos passos decisivos de resistência e de mudança, ao conhecimento e à cultura, de que não prescindimos». Assim, «acumulamos os exemplos e as obras de dezenas e dezenas» de escritores, artistas plásticos, actores, músicos, compositores, um «património vivo», e «aqui estamos a saudar, em José Saramago, todos os intelectuais, camaradas e companheiros de luta», muitos dos quais Modesto Navarro nomeou.
Entre as iniciativas a realizar até Dezembro do próximo ano, foram referidas:
– a edição de uma publicação que dê expressão à participação de José Saramago na vida do Partido, a lançar até à Festa do Avante! de 2022;
– a expressão, na próxima Festa do Avante!, de diversos domínios da obra de Saramago bem como do seu percurso;
– o tratamento da vida e da obra de José Saramago no Avante! e n’O Militante;
– o lançamento, pela JCP, de um concurso literário com o tema «O que seria de nós se não sonhássemos?», interrogação suscitada por Saramago;
– uma iniciativa na Azinhaga (Golegã, Santarém), terra natal de José Saramago, a assinalar as origens do escritor e a sua profunda ligação popular e ao Partido;
– iniciativas que assinalem as datas da atribuição do Prémio Nobel (8 de Outubro de 1998) e do centenário do nascimento de José Saramago (16 de Novembro de 1922);
– a realização de uma conferência com o título «Uma visão universal e progressista da História – A actualidade da obra de José Saramago», em Outubro de 2022, em Lisboa,;
– a realização em todo o País, por parte das organizações regionais do PCP e da JCP, de sessões, debates e outras iniciativas e intervenções culturais , com base em temas levantados pelas obras do autor, que se pretende trazer para a actualidade;
A concluir a apresentação do programa, Modesto Navarro acrescentaria: «Os livros de ficção e de poesia de José Saramago poderão ser excelentes pontos de partida para a realização de sessões em espaços culturais e em locais ligados às suas obras, textos, ideias e acontecimentos. Falamos da organização de roteiros literários e sociais, de intervenções artísticas e políticas que tornem mais conhecidas a obra e a vida de José Saramago junto dos trabalhadores, da juventude, das populações, em espaços públicos, em instituições e organizações associativas, sob as formas que forem entendidas como mais estimulantes para se conseguir avançar onde for possível; onde valer a pena trabalhar e insistir para que a democratização da cultura e o acesso às diversas expressões possam ser os mais amplos e populares, na plena afirmação do escritor universal, do intelectual de Abril e escritor comunista de que nos orgulhamos e que assumimos.»
Jerónimo de Sousa enalteceu Saramago militante
«(…) Ao assinalar o centenário de José Saramago, o PCP pretende contribuir para a divulgação e para o debate em torno da obra literária de um dos maiores escritores da língua portuguesa e um dos mais destacados intelectuais do Portugal de Abril, bem como contribuir para dar a conhecer o seu papel na luta contra o fascismo, em defesa de Abril e o militante comunista que foi até ao fim da sua vida.
Sim, de hoje até Dezembro de 2022, celebraremos o escritor de uma vasta e singular obra de valor universal, a sua inteligência criadora, esse inventor de um inovador ritmo oral na escrita, que não se limitou a narrar para os que liam, mas para participar activamente na narração, desenvolvendo a história a todos aqueles que a fazendo não a escrevem.
Uma escrita e toda uma obra onde está presente o seu penetrante olhar sensível e arguto e profundamente humano sobre os “males do mundo”, que dificilmente se encontra noutros autores contemporâneos com a profundidade de análise de José Saramago.
Celebraremos esse escritor que nasceu em Azinhaga (Golegã) em 16 de Novembro de 1922, de uma família de gente pobre e que cedo vai para Lisboa. Que antes de ser editor, tradutor e jornalista, foi metalúrgico, desenhador e administrativo.
Sim, até ao final do ano que há-de vir, celebraremos o intelectual de Abril que foi Saramago que, muito jovem, iniciou a sua actividade antifascista, participando nas actividades da Resistência à ditadura, tendo sido apoiante e participante activo na candidatura de Norton de Matos e presente em muitas das actividades nos anos seguintes. O intelectual que fez crítica literária na Seara Nova, traduz Tolstoi, Hegel, Baudelaire. Que dirige o Suplemento Cultural do Diário de Lisboa e será Director-adjunto do Diário de Notícias. O intelectual que deu um inestimável contributo para a afirmação da literatura portuguesa no mundo e para o reconhecimento do português como língua de referência importante na cultura mundial. Que percorreu o planeta, levando a outros povos e outras gentes a sua reflexão sobre a situação no mundo. O intelectual e escritor que falando dos seus livros disse um dia: “Creio que nada ou quase nada que fiz depois do 25 de Abril, poderia ter sido feito antes”, palavras que confirmam que a sua obra é também ela, uma conquista de Abril.
Sim, celebraremos o militante comunista que em nenhuma circunstância escondeu ou iludiu essa sua condição de membro do PCP. Condição que com orgulho patenteava. Vimo-lo a afirmar após o anúncio do Prémio Nobel: “Eu hoje com o prémio posso dizer que, para ganhar o prémio, não precisei de deixar de ser comunista”.
Não, nunca escondeu a sua militância comunista e a sua notável e reconhecida obra, expressão de um sensível e humano olhar sobre os problemas do homem e da humanidade, seria outra, temos isso por convicção, sem a visão do mundo que resultava dessa sua condição. Dizemo-lo sem que isso signifique a apologia de uma inexistente estética partidária, mas tão só para afirmar que, sem a visão que brota dessa condição, a massa humana de muitos dos seus livros não se moveria com o mesmo fulgor (…).
Foi este homem, cujo centenário celebramos, que aquando do banquete realizado em Estocolmo, comemorativo do Nobel da Literatura, não se coibiu de afirmar: «Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante. Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia».
Esse poder que tem contado com a conivência daqueles que no ensaio de José Saramago “A verdade e a ilusão democrática” e tão válido na realidade do mundo que aí está: “Efectivamente, dizer hoje ’governo socialista’, ou ’social-democrata’, ou ’democrata-cristão’, ou ’conservador’, ou ’liberal’ e chamar-lhe ’poder’, é como uma operação de cosmética, é pretender nomear algo que não se encontra onde se nos quer fazer crer, mas sim em outro e inalcançável lugar - o do poder económico -, esses cujos contornos podemos perceber em filigrana por detrás das tramas e das malhas institucionais”.
Uma realidade que neste retângulo mais ocidental da jangada se tornou norma décadas a fio, expressa nesse rotativismo de pura alternância sem alternativa entre PS e PSD com o CDS à ilharga, ora com um, ora com outro, numa governação onde apenas o secundário mudava para manter o essencial intocável, servindo os senhores do dinheiro e do mando.
É para assegurar esse mesmo essencial que querem eternizar para fazer prevalecer o domínio e os interesses do grande capital sobre a vida do País e do povo, que o poder político da governação de hoje que se diz socialista e de esquerda, usando e abusando da mesma cosmética rotuladora, auto-intitulando-se a si e à sua política do que não são, resistem a qualquer mudança que rompa com tais interesses.
Uma evidência que nos diz quanto trabalho tem este Partido em mãos para afirmar e dar urgência à construção da alternativa que não seja expressão dos que vivem da agiotagem e da exploração, mas expressão dos interesses dos trabalhadores, do povo e País.
Alternativa que reclama, para lhe dar vida, a presença e o fortalecimento deste Partido que é o de Saramago, é nosso e de todos os trabalhadores.
Garanti-lo continua a ser a tarefa central dos dias de hoje!
Saramago foi um escritor que veio do povo trabalhador, a quem amou e foi fiel.
Um homem comprometido com os explorados, injustiçados e humilhados da terra, que assumiu valores éticos e um ideal político do qual não abdicou até ao fim da sua vida!
Termino, dizendo o mesmo que dissemos quando de Saramago nos despedimos pela última vez.
Podia ter sido só um escritor maior da literatura portuguesa. Foi mais do que isso. Foi um homem que acreditou nos homens, mesmo quando os questionava, que deu expressão concreta à afirmação de Bento de Jesus Caraça da aquisição da cultura como um factor de conquista da liberdade.
José Saramago sabia que a sua obra e a sua luta seriam sempre algo inacabado. Mas que valia a pena. E valeu, por isso o celebramos e celebraremos!