Que desporto temos? Que desporto queremos?

A. Melo de Carvalho

Em 2017, 68% dos portugueses afirmavam não praticar qualquer desporto

Afinal quais são esses problemas, tão graves, que exigem uma reflexão aprofundada sobre o desporto como prática social e cultural, capaz de fornecer pistas para responder às diferentes necessidades da população? Temos de voltar à questão das definições para tentar esclarecer a gravidade daquilo que se está a passar.

Se considerarmos o desporto do exclusivo ponto de vista do rendimento, ou seja, dando predominância à definição defendida pelas organizações que promovem exclusivamente a prática selectiva, competitiva e segregativa, visando a formação do atleta de alta competição, o problema diz respeito a um processo organizativo capaz de colocar Portugal ao nível dos países europeus com quem pode competir. A questão, como bem se sabe, é referida sobretudo ao número de medalhas ganhas nas competições internacionais, em especial nos Jogos Olímpicos.

A gravidade da situação pode verificar-se quando compaginamos o número de medalhas ganhas até agora (28), com as que o foram no caso da Noruega (528), Finlândia (472), Suécia (621), Dinamarca (206), Bélgica (161), Suíça, (358), Grécia (121), Áustria (326), Hungria (518), Bulgária (230). Inclusive, países que competiram muito menos vezes e que possuem uma população inferior em número, como é o caso da Eslováquia (40), Croácia (92), Eslovénia (45), Estónia (43), Letónia (30) apresentam-se com valores superiores e até muito superiores.

Dirão os «teóricos» do costume, que se trata de países mais desenvolvidos, na verdade, de «um outro mundo», e que não há dinheiro, que são os argumentos costumeiros de quem não quer ver a realidade, considerá-la como uma fatalidade e não se preocupar mais com o assunto.

Todavia, bem longe deste panorama, perfila-se um outro que reveste uma enorme gravidade, dizendo respeito ao sedentarismo crónico dos portugueses e às consequências que dele decorrem. Muitos dirão que se trata de uma questão referida à actividade física que nada tem que ver com o desporto.

Caímos, de novo, no problema da definição desta curiosa actividade.

Eis como a UE define a questão. A Carta Europeia do Desporto define-o do seguinte modo: «Entende-se por desporto todas as formas de actividade física que, através de uma participação organizada ou não, têm por objectivo a expressão ou o melhoramento da condição física e psíquica, o desenvolvimento das relações sociais ou a obtenção de resultados na competição a todos os níveis.» Não se vai perder mais tempo e espaço com o problema das definições. Está bem patente que, em Portugal, cada um puxa por aquela que lhe dá mais jeito.

O problema é este: a revista norte-americana Lancet, uma das mais cotadas à escala mundial em termos científicos, deu noticia recente da investigação da Avaliação Métrica da Saúde realizada pela Universidade de Washington em cerca de 188 países, acerca da pandemia da obesidade. Nos resultados obtidos Portugal aparece como o 3.º país da Europa Ocidental com os piores valores, e todas as taxas surgem completamente como negativos em relação à média. Um dos mais reveladores da situação, mostra que cerca de 63% dos homens adultos portugueses sofrem de excesso de peso, e as mulheres 54%.

Ora, a obesidade é responsável pelo surgimento no indivíduo de um vasto conjunto de doenças não transmissíveis, que provocam graves consequências na vida de cada um. Ao contrário daquilo que tem sido difundido permanentemente pelas autoridades, ela não é provocada exclusivamente pela falta de movimento, pois a alimentação, mas também as características do trabalho, da utilização dos transportes, das formas urbanas de vida, do usufruto dos tempos livres, etc., constituem factores decisivos. Contudo, a falta de prática desportiva sob diversas formas, deve desempenhar um papel decisivo no combate a esta pandemia.

Também aqui se depara com uma realidade chocante: o Eurobarómetro Especial de 2009, revela que cerca de 55% dos portugueses afirmam nunca praticarem, o de 2013 apontava para 64% e o de 2017, refere 68%. Ou seja, em oito anos verificou-se um agravamento de cerca de 13%. O leitor retirará as suas próprias conclusões, não se devendo esquecer dos possíveis efeitos do confinamento.




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