Vitória Foronda, do Partido Comunista da Bolívia

«Golpistas na Bolívia não contaram com a força da consciência popular»

Vitória Foronda, do Partido Comunista da Bolívia, participou na Festa do Avante!, em Setembro, e aborda nesta entrevista o processo político no seu país. Lembra que «os yankees nunca dormem e continuam a conspirar e a pensar como nos vão submeter», mas enfatiza que «não só na Bolívia como em toda a América Latina os povos estão a despertar, a aprender a viver com dignidade».

«Os povos da América Latina estão a despertar, a aprender a viver com dignidade»

Como vai a Bolívia após a eleição do presidente Luis Arce e a vitória nas urnas do Movimento Ao Socialismo (MAS), em Outubro de 2020?

Os êxitos do Estado Plurinacional da Bolívia começaram a ser construídos há vários anos nos governos dirigidos por Evo Morales, com a nacionalização das nossas riquezas naturais. Contra as conquistas alcançadas, foi organizado um golpe fascista, racista, sangrento. Os seus autores apostavam em ficar no poder durante muitos anos, como fizeram nos anos 70 com o Plano Condor na América Latina. Voltaram a alimentar esta perspectiva mas não contaram que no tempo em que Morales governou juntamente com o povo se criou uma consciência de defesa do povo.

Eles não contaram com a força dessa consciência popular. Deu-se o golpe de Estado, em 2019, com o objectivo de, inclusivamente, assassinar Morales. Não o conseguiram, nessa altura, graças à solidariedade do presidente do México, López Obrador, que lhe salvou a vida. A direita, a oligarquia, os seus golpistas, que tanto haviam roubado e empurrado o povo para a miséria, não se deram conta que também nos tinham roubado o medo.

Perdemos o medo de enfrentar o fascismo, dirigido pelos yankees. Deu-se o golpe, o povo saiu às ruas. Já não se tratava de Evo Morales, não se tratava de um diferendo político com o MAS, que aglutinava o povo. Nessa altura, tratou-se da reacção de todo um povo, no seu conjunto, em defesa do país e suas riquezas naturais.

E como foi essa resistência ao golpe de Estado de 2019?

No período em que se viveu este processo de luta popular contra o golpe, notou-se bem a diferença entre o que tínhamos no tempo dos neoliberais e ladrões das nossas riquezas, serventuários dos yankees, e o que alcançámos com um governo anti-imperialista, que expulsou os yankees, que recuperou os recursos naturais do país. Reforçou-se a consciência do povo.

Em pleno golpe, nem a pandemia, nem os confrontos com a polícia, nem as perseguições, nem os assassinatos, pararam o povo na defesa da democracia e do Estado Plurinacional. Ninguém travou o povo. E, apesar da repressão sobre o movimento popular, os golpistas não conseguiram impedir a convocação de eleições.

Com Morales fora do país e impedido de participar, o MAS avançou com Luis Arce…

Sim, o movimento popular apresentou como candidato Luis Arce, actual presidente da República, que tinha sido ministro da Economia durante os governos de Morales e desempenhado um papel decisivo nas políticas económicas desses anos. A direcção do MAS e Morales propuseram ao povo a candidatura presidencial de Arce. Homem saído do povo, que tem uma enorme capacidade de incorporar as camadas sociais mais esquecidas, mais desvalorizadas, mais exploradas, Morales foi capaz de as unir e às suas organizações.

E depois da vitória eleitoral de há um ano, do MAS e aliados?

A rejeição do golpe de Estado e a defesa do voto democrático para a vitória um governo democrático na Bolívia foi um trabalho longo que deu frutos. Por isso, hoje mais do que antes, todos os quadros partidários que se identificam com o povo trabalham com as bases, com as massas, para continuar a fortalecer o verdadeiro poder que é a consciência do nosso povo. Hoje, tomámos o governo, mas não o poder. Empenhamo-nos nesse trabalho de consolidar o poder democrático no Estado Plurinacional, com grandes potencialidades.

Neste quadro novo, qual o papel dos comunistas bolivianos?

Quem te fala é uma comunista convicta que quer servir o povo. Isso é ser comunista – não servir-se do povo, mas servir o povo. Esta é a posição e o trabalho do Partido, que se orientou e continua a orientar-se no sentido de trabalhar nas bases, com as massas, num processo político de defesa das nossas riquezas naturais.

Que justiça para os golpistas, uns detidos, outros em fuga?

Não vamos fazer uma perseguição, para não se vitimizarem, para não lhes dar a possibilidade de dizerem que são perseguidos políticos e, assim, poderem escapar da justiça. Nesta questão, a posição do Partido Comunista da Bolívia é exigir justiça. Foi um golpe de Estado sanguinário, é preciso fazer justiça. Justiça e não vingança. Não podem escapar, a justiça tem de lhes cair em cima com toda a força, sobre os golpistas e os criminosos, um a um. Contra o golpe, não há perseguição mas sim justiça. É esta a justiça que o Estado Plurinacional, lento mas seguro, está a aplicar.

E quanto ao futuro?...

Sabemos que os yankees nunca dormem e continuam a conspirar e a pensar como nos vão submeter. Mas não só na Bolívia como em toda a América Latina os povos estão a despertar, a aprender a viver com dignidade.