O negócio do «imobiliário» e a luta pelo direito à cidade

No mesmo dia em que, a Norte, Jerónimo de Sousa reafirmava a premência da luta pelo direito à habitação, em Lisboa os deputados do PCP no Parlamento Europeu promoviam uma sessão pública sobre o mesmo assunto.

No Largo do Intendente, debateu-se «O direito à habitação – experiências e lutas em Lisboa e noutras cidades europeias», com a participação de representantes de três forças políticas que integram o Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/ Esquerda Verde Nórdica: Françoise de Smedt, do Partido do Trabalho da Bélgica; Artom Korjagim, do Partido Comunista da Boémia e Morávia; e Carlos Vasquez, do Partido Comunista de Espanha. Somaram-se os contributos dos dirigentes do PCP João Dias Coelho, João Ferreira e João Pimenta Lopes e de alguns activistas que, em Lisboa, se dedicam à luta pelo direito à cidade.

A transformação da habitação num «activo financeiro» e a apropriação de parte considerável do edificado urbano pelo capital financeiro, situações comuns à generalidade dos países europeus, está a ter como consequências a expulsão de populações e a alteração profunda da composição social de bairros históricos e centrais, cada vez mais vocacionados exclusivamente para a hotelaria, o turismo e a habitação de luxo.

Este processo de gentrificação foi facilitado (para dizer o mínimo) pelas opções políticas de sucessivos governos e executivos municipais: o abandono do parque habitacional público e consequente venda a preço de saldo ao grande capital, a criação dos Vistos Gold ou a famigerada lei dos despejos foram determinantes neste processo.

Assumindo a habitação como aquilo que ela é, um direito fundamental consagrado no artigo 65.º da Constituição, o PCP exige a revogação da lei dos despejos, a mobilização do património habitacional público para programas de renda apoiada ou condicionada e o reforço da capacidade do Estado intervir ao nível das políticas de solos, edificabilidade, regeneração e arrendamento.

A política e o «mercado»

Antes da sessão, realizou-se um «roteiro da gentrificação», que culminou no próprio Largo do Intendente, onde proliferam hotéis e alojamento local e a antiga sede de um clube desportivo popular, vendida e revendida a um fundo imobiliário, dará em breve lugar a mais um condomínio inacessível à esmagadora maioria da população.

O percurso iniciou-se no Campo dos Mártires da Pátria, que para o arquitecto Tiago Saraiva (que guiou a visita) será a «próxima área de grande especulação» em Lisboa: dos quatro hospitais ali existentes, um já encerrou e outro deverá ser transferido para zonas periféricas, deixando assim «vagas» enormes áreas no coração da cidade; o mesmo se passa com outros edifícios públicos, nomeadamente um palácio e um antigo quartel da polícia, a que acresce o elevado número de fogos habitacionais públicos que estão a ser entregues a fundos imobiliários.

Como sublinhou a vereadora do PCP Ana Jara, aquela que era (e de certo modo ainda é) uma zona popular da cidade encontra-se ameaçada nesta sua característica fundamental. João Ferreira, igualmente vereador e candidato à presidência da Câmara Municipal da capital, denunciou o papel da maioria PS/BE no favorecimento da especulação, nomeadamente devido às condições em que é feita a reabilitação urbana. O eleito comunista destacou a necessidade de outra política e deu como exemplo o Programa de Arrendamento a Custos Acessíveis, aprovado por proposta do PCP, que ainda está muito longe de esgotar as suas potencialidades.

Os representantes do PTB, do PCBM e do PCE seguiram o percurso com interesse e realçaram as semelhanças com o que se passa nas principais cidades dos seus países.

 

Factos e números

  • Em média, os portugueses gastam 60% dos rendimentos mensais com habitação, o dobro do que é recomendado internacionalmente.
  • Entre 2007 e 2018, o valor do arrendamento aumentou 67% em Portugal, a maior subida da União Europeia.
  • Só na freguesia de Santa Maria Maior (em Alfama, Lisboa) foram despejadas perto de 2000 famílias entre 2014 e 2018. Em Espanha, desde 2008, quase um milhão de famílias perdeu a sua habitação.
  • Em 2018, na União Europeia, 17,2% das pessoas viviam em habitações sobrelotadas e 28,5% dos jovens entre os 25 e os 34 anos ainda vivem com os pais.
  • Há apenas 2% de habitação social em Portugal, face aos 29% na Holanda, 24% na Áustria e 16% em França.

 



Mais artigos de: Em Foco

Habitação é direito fundamental que tem de ser efectivado

Jerónimo de Sousa realizou, no dia 9, um périplo pelo distrito do Porto, no qual esteve em destaque o tema da habitação, central na acção da CDU no concelho. Numa da iniciativas do dia, na Junta de Freguesia de Bonfim, mesmo no coração da cidade invicta, uma tribuna pública foi inteiramente dedicada a essa questão.

Festa, alegria, confiança no futuro

A 45.ª edição da Festa do Avante! já foi há mais de uma semana – e foi extraordinária: os concertos, os debates, os filmes, os espectáculos, as actividades desportivas, as refeições e o convívio que sempre as acompanha, a exposição evocativa do Centenário do Partido, o içar das 100 bandeiras,...