Paulo de Carvalho assinala 60 anos de carreira e homenageia Carlos do Carmo e Ary dos Santos

No ano em que comemora 60 anos de Carreira, Paulo de Carvalho, nome incontornável na música portuguesa, vai homenagear, com um concerto único e exclusivo, Carlos do Carmo e Ary dos Santos. Consigo actuarão Mafalda Sachetti, filha do cantor que se notabiliza no jazz, bluese soul, e Marco Rodrigues, um importante fadista da nova geração. «Nini», «Mãe Negra», «Os meninos de Huambo», «Lisboa Menina e Moça», «Os Putos» e «E Depois do Adeus», canção que serviu de primeira senha à Revolução de 25 de Abril, poderão ser alguns dos temas apresentados.

Este concerto tem um pouco de tudo

Homenageado pela Casa da Imprensa na Grande Noite do Fado em 1992, Paulo de Carvalho foi condecorado com o grau de Oficial da Ordem da Liberdade em 2009, sendo nesse mesmo ano considerado uma das melhores vozes portuguesas de sempre pela revista Blitz. Em Maio de 2020 foi premiado pela Sociedade Portuguesa de Autores pela sua carreira.

Com a sua voz arrancou a Revolução que daria a Portugal uma democracia, com as suas baquetas nos Sheiks deu ao rock português dos anos 60 (do século passado) o sonho da internacionalização e, com a sua caneta, de onde já saíram mais de 300 canções, deu brilho a muitos cantores.

Paulo de Carvalho é um artista completo que escreveu para Carlos do Carmo, Simone de Oliveira, Sara Tavares, Martinho da Vila, Anabela, Vasco Rafael, Lena D’Água ou Mariza.

Como intérprete ganhou dois festivais RTP da Canção.

 

Qual a «arquitectura»do espectáculo que será apresentado na Festa?

O critério de escolha do repertório para este meu concerto na Festa do Avante! tem, naturalmente, a ver o facto de estar a assinalar 60 anos de carreira, o que é muito tempo. Portanto, há cantigas que o público conhece e quer ouvir, muitas delas serão respeitadas, mas há, também, canções novas, porque o tempo faz-se a andar para a frente. Basicamente é isso. Depois há que intercalar os meus dois convidados, e é isso que se vai fazer.

 

Há algum género musical mais privilegiado neste espectáculo?

Este concerto tem um pouco de tudo em relação à música que vou fazendo e que, às vezes, até pode confundir o público que gosta de mim. Sou assim, gosto de experiências e não tenho medo de as fazer. Portanto, não há nenhum género musical mais privilegiado neste espectáculo. O que há é uma homenagem ao Carlos do Carmo, com cantigas cuja música eu escrevi, fados por exemplo, e ao José Carlos Ary dos Santos, que escreveu os textos. Para todos os efeitos e para quem não sabe, eu e o Fernando Tordo fomos quem mais escreveu para o Carlos do Carmo.

É lógico que há cantigas que eu e o Marco Rodrigues vamos ter de cantar, sei lá: «Os Putos», «O Homem das Castanhas», «Lisboa Menina e Moça», por aí fora.

 

Ficaram de fora algumas canções que gostaria de poder ter incluído?

Claro que sim. Ficam sempre de fora algumas cantigas que eu gostaria de cantar e, provavelmente, mais ainda que o público gostaria de ouvir. Mas, em 60 anos de carreira, isso é muito complicado. Se fizesse um concerto só com as músicas que o público gostaria de ouvir estaríamos ali umas boas horas.


Vai estar no palco 25 de Abril num espectáculo com Mafalda Sacchetti e Marco Rodrigues, seus convidados. Quer explicar-nos a razão destas escolhas?

Para já um enorme agradecimento à Direcção da Festa do Avante! pela brilhante ideia de podermos convidar companheiros de cantigas. A Mafalda Sacchetti é minha filha, canta maravilhosamente - claro que sou suspeito em falar assim. Tem um disco e acho que anda a tratar de outro. O Marco Rodrigues é um dos novos e grandes fadistas desta nova geração. É com eles que vou fazer este concerto.

 

Os seus convidados vão cantar a solo, canções do Paulo de Carvalho, do repertório deles ou uma mistura destas várias situações?

Vão cantar cantigas que eu escrevi. Um (Marco Rodrigues) prestando uma homenagem e a outra (Mafalda Sacchetti) cantando cantigas que gosta e que chegou a gravar comigo.

 

Na intervenção que fez em Maio na Sociedade Portuguesa de Autores, ao receber o Prémio Consagração de Carreira, falou das dificuldades que os músicos passam neste momento e disse uma frase curiosa: «Eu não digo a luta continua, para mim a luta é contínua, sempre foi». Porque é que, então, «a luta é contínua»?

As expressões «a luta continua» ou a «luta é contínua» podem parecer a mesma coisa, mas não são. Para mim, «a luta continua» aplica-se a questões político-partidárias, enquanto que «A luta é contínua» é uma luta do dia-a-dia, pela decência e, sobretudo, pelo nosso semelhante e pela solidariedade. É também isso que se vai assistir na Festa do Avante!.

 

A Festa do Avante! realiza-se pela segunda vez num contexto de epidemia, permitindo a alguns artistas exercerem a sua profissão em condições de segurança, quer para eles, quer para o público. O exemplo dado o ano passado, provando que era possível organizar eventos de grande dimensão em segurança, aparentemente não foi muito seguido ou raras vezes foi replicado pelos vários promotores de espectáculos. Encontra alguma explicação para isso?

A informação está nas mãos de quem tem o dinheiro e o poder. Portanto, é natural que tirem partido disso e façam acusações que não são verdadeiras, como aconteceu ao longo destes quase dois anos de epidemia. Está-se mais seguro na Festa do que na rua, num bairro qualquer, a beber copos e sem máscara.

 

A organização da Festa do Avante! pediu aos artistas que fizessem uma interpretação de uma das canções incluídas no álbum «Cantigas de Maio», de José Afonso, lançado há 50 anos. Aceitou este desafio?

O que posso dizer é que tenho uma enorme admiração pelo José Afonso. E isso faz com que possa cantar uma ou outra cantiga do seu repertório.

 

É especial ir ao Palco 25 de Abril?

É sempre especial estar na Festa. Melhor ainda é poder actuar no Palco 25 de Abril. Mas o mais importante é participar e estar solidário com os outros. Aliás, a solidariedade é o que para mim impera nesta Festa.


Lisboa,menina e moça

Com poema de Ary dos Santos e música de Paulo de Carvalho, «Lisboa, menina e moça» tornou-se num dos maiores êxitos da música portuguesa. O fado, eternizado na voz de Carlos do Carmo, passou a ser canção oficial da cidade de Lisboa.

 

No castelo, ponho um cotovelo

Em Alfama, descanso o olhar

E assim desfaço o novelo

De azul e mar

À Ribeira encosto a cabeça

Almofada, da cama do Tejo

Com lençóis bordados à pressa

Na cambraia de um beijo

 

Lisboa menina e moça, menina

Da luz que meus olhos vêem tão pura

Teus seios são as colinas, varina

Pregão que me traz à porta, ternura

Cidade a ponto luz bordada

Toalha à beira mar estendida

Lisboa menina e moça, amada

Cidade mulher da minha vida

 

No terreiro eu passo por ti

Mas da Graça eu vejo-te nua

Quando um pombo te olha, sorri

És mulher da rua

E no bairro mais alto do sonho

Ponho o fado que soube inventar

Aguardente de vida e medronho

Que me faz cantar

 

Lisboa menina e moça, menina

Da luz que meus olhos vêem tão pura

Teus seios são as colinas, varina

Pregão que me traz à porta, ternura

Cidade a ponto luz bordada

Toalha à beira mar estendida

Lisboa menina e moça, amada

Cidade mulher da minha vida

 

Lisboa no meu amor, deitada

Cidade por minhas mãos despida

Lisboa menina e moça, amada

Cidade mulher da minha vida




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