Lutas mobilizam milhares de trabalhadores
Por melhores salários, em defesa de postos de trabalho ameaçados, pelo cumprimento de direitos reconhecidos, pela valorização das profissões e carreiras e por outras matérias inscritas em cadernos reivindicativos, entraram em greve e manifestaram-se nas ruas milhares de trabalhadores de empresas da indústria, da banca, do comércio e serviços e da hotelaria.
Em período de férias, mantém-se o alerta e não abranda a mobilização
Uma semana depois da grande jornada de 21 de Julho, as organizações representativas dos trabalhadores da Altice decidiram «continuar a dar toda a visibilidade possível a esta “criminosa” gestão», classificando o despedimento colectivo como «o mais atroz de todos os ataques desferidos».
Dia 29, num comunicado da frente sindical que tem conduzido a luta, foram anunciadas novas concentrações para ontem, dia 4, junto ao Ministério da Economia, e para dia 13, junto da residência oficial do primeiro-ministro.
Os sindicatos revelaram ainda que a MEO (principal empresa da Altice Portugal) foi notificada para garantir ocupação efectiva aos trabalhadores que incluiu no despedimento colectivo, até este ter uma decisão final.
Na CP (Comboios de Portugal) e na IP (Infra-estruturas de Portugal), começou no dia 1 uma greve ao trabalho suplementar, em dias feriados e dias de descanso semanal, que se prolonga até ao fim do mês. Convocada pelas estruturas da CGTP-IN (Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário e Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais), a greve insere-se na luta por aumentos salariais, contra o recurso sistemático a trabalho extra e pela aplicação da contratação colectiva sem discriminações.
Está marcado para hoje, dia 5, um plenário na STCP, mas o STRUN já convocou greves para dias 13, 20, 26 e 27. Na exigência de aumentos salariais, o sindicato da Fectrans/CGTP-IN salienta a grande redução da diferença entre o salário da maioria dos trabalhadores e o valor do salário mínimo nacional.
Com uma tribuna pública sobre teletrabalho, no dia 27 de Julho, frente ao Ministério do Trabalho, o SNTCT culminou uma série de acções, realizadas desde dia 6 em Faro, Beja, Évora, Santo Tirso, Porto, Coimbra e Castelo Branco, envolvendo trabalhadores de call-centers de empresas de comunicações. A luta visa exigir que estes, em regra contratados através de prestadoras de serviços, passem a ter vínculo directo às empresas para que efectivamente trabalham: Altice (MEO), NOS e Vodafone.
Trabalhadores dos hotéis, restaurantes, cafés e similares do Norte e do Centro, organizados nos sindicatos da Fesaht/CGTP-IN, manifestaram-se a 30 de Julho no centro histórico do Porto. Tal como numa acção similar, realizada no dia 28, em Viana do Castelo, foram reafirmadas as exigências de: reabertura imediata de todas as empresas e estabelecimentos; reposição de todos os direitos retirados desde o início da pandemia; pagamento dos salários em atraso; integração nos quadros de todos os trabalhadores despedidos; respeito pelos direitos dos trabalhadores (em especial, quanto a horários de trabalho e retribuição); negociação da contratação colectiva (recusada pelas associações patronais desde 2019); aumento salarial mínimo de 90 euros para todos os trabalhadores; anulação de todas as restrições e condicionalismos desnecessários, impostos ao funcionamento das empresas e estabelecimentos.
Uma moção, a fundamentar estas reivindicações, foi entregue às entidades patronais «visitadas» nas duas cidades e, dia 30, também na Ahresp e na Aphort.
Contra o bloqueio da negociação colectiva e por aumentos salariais no sector, a Fesaht marcou para dia 10 uma jornada nacional de luta, com concentração à porta da sede da Ahresp, em Lisboa.
Enquanto se realizava, no Ministério do Trabalho, a reunião requerida pela Fesaht/CGTP-IN com a CP, a concessionária cessante e a nova concessionária do serviço de refeições e bar nos comboios Alfa e Intercidades, na manhã de dia 29, os trabalhadores concentraram-se junto do Ministério das Infra-estruturas e, em seguida, na Praça de Londres, numa situação de grande preocupação, pela forma como foi conduzida a transmissão de estabelecimento. Numa segunda reunião, dia 30, a nova concessionária (Apeadeiro 2020) informou que assume os 111 trabalhadores efectivos da Ristorail, cancelando esta os contratos de oito trabalhadores com contratos temporários. Para os sindicatos e a Fesaht, trata-se de uma grande vitória dos trabalhadores, embora mantenha a crítica à redução de serviço e de postos de trabalho (e da qualidade do serviço), exigindo solução para o pagamento das férias e subsídios de férias e de Natal.
Por aumentos salariais e outras matérias da carta reivindicativa, os trabalhadores da Sumol-Compal, na fábrica em Pombal (Leiria), fizeram greve no dia 28 de Julho e concentraram-se, ao fim da manhã, junto à portaria.
Por aumentos salariais para todos, em consonância com a distribuição de dividendos, que atingiu os valores mais altos de sempre, os trabalhadores da Super Bock iniciam hoje uma série de greves de duas horas, em todos os horários, que se prolonga até dia 10, terça-feira. Como informou o Sintab, a administração tardou a responder às reivindicações apresentadas em Novembro e começou por negar qualquer aumento salarial. Em Julho apresentou uma proposta «ligeiramente acima da inicial», mas depois «não respeitou a lógica negocial».
Para darem força às suas exigências, os trabalhadores fizeram greve em Dezembro, Março e Junho. O sindicato da Fesaht/CGTP-IN assinalou que foram distribuídos dividendos de 55 milhões de euros, em 2020, e de 44 milhões, já em 2021, pelos accionistas Violas e Carlsberg.
Em greve, trabalhadores do comércio a retalho do Distrito de Braga concentraram-se no dia 30 de Julho, frente à Associação Comercial de Braga, reclamando a actualização do contrato colectivo de trabalho. Como referiu o CESP, as tabelas salariais foram absorvidas pelo salário mínimo nacional e é preciso garantir direitos hoje não contemplados, como a regulação dos horários regulados, o subsídio de turno, o pagamento do trabalho prestado ao domingo.
Pela valorização dos salários e do seu empenho na resposta à epidemia de COVID-19, os trabalhadores da União das Misericórdias Portuguesas fizeram greves parciais, nos dias 18 e 19 de Julho. Neste último dia, em Fátima (Leiria), o CESP promoveu uma concentração de trabalhadores da UMP, com participação destacada do pessoal do Centro de Apoio a Deficientes João Paulo II.
Os trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim, em luta por aumento dos salários, valorização das carreiras e categorias, admissão de mais pessoal, pagamento do trabalho extra prestado durante a epidemia, pagamento em dobro do trabalho em dia feriado e fim da pressão e repressão por parte do patronato, fizeram greve no dia 30 de Julho. Durante a concentração, no exterior da instituição, receberam a solidariedade da CDU, numa breve saudação de Jorge Machado, candidato à presidência da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.
No dia 2, segunda-feira, estiveram em greve trabalhadores da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, em Vila do Conde, exigindo melhores salários e pagamento das horas em atraso, informou ainda o CESP.
Na entrada do parque industrial Bluebiz, em Setúbal, concentraram-se na manhã de 29 de Julho trabalhadores da Mecahers e da Aerosphere, exigindo a melhoria das condições de transferência da produção para Évora. No dia 27, o SITE Sul e o Sitava anunciaram que a Lauak, também da indústria aeronáutica, recuou na intenção de transferir toda a produção para Grândola.
Com a participação da Secretária-geral da CGTP-IN, tinha-se ali realizado, a 16 de Julho, uma concentração do pessoal destas empresas. Estava em causa a transferência de cerca de 500 trabalhadores.
Ou há resposta patronal, ou volta a haver luta na Thyssenkrupp Elevadores, assegurou a Fiequimetal/CGTP-IN, ao dar conta de que a greve de 30 de Julho teve forte adesão, com perturbações no serviço um pouco por todo o País, assegurando os serviços essenciais, nomeadamente em hospitais.
Este dia de greve, com concentrações em várias cidades, foi decidido para exigir evolução da posição patronal na negociação do Caderno Reivindicativo e resposta a outros problemas.
Da resposta patronal, nos próximos dias, depende a decisão dos trabalhadores e dos sindicatos sobre as formas que a luta poderá assumir, adiantou a federação.