«Os que não são assunto»

Correia da Fonseca

Era o fim de semana, estava por isso encerrada a generalidade das empresas, quando a TV nos veio contar que pelo menos uma delas, esta situada em zona da Beira Interior, não voltaria a abrir. E a televisão contou mais: que o encerramento iria provocar umas centenas de desempregados. Não é caso raro: com alguma frequência que aliás se adivinha ainda menor que a realidade, vamos sabendo pela TV ou por outro meio que uma empresa deixou de lutar e soçobrou. E o que também não é raro é que a essa triste notícia se acrescente outra não menos triste: a de que um punhado maior ou menor de trabalhadores irão acrescer o número de desempregados, de cidadãos mergulhados na angústia, de famílias em crise. No caso atrás referido serão umas centenas, noutros casos serão mais e noutros menos; o que se adivinha como provável é que em todos os casos não será fácil aos que perderam o emprego reencontrar um novo posto de trabalho, pois bem se sabe que os tempos não estão fáceis para isso. E o que por agora aqui mais se quer salientar é que, telespectadores que recebemos a notícia, ficaremos sem saber o que vai acontecer a esses trabalhadores sem trabalho, cidadãos como nós mas parcialmente excluídos do que parecia ser a consequência natural dessa cidadania: um lugar seguro e tranquilo na sociedade onde, de súbito, vêem suspenso um dos seus direitos naturais que é o de ter nela um lugar. Que uma empresa feche portas é sempre inquietante: uma empresa é como um barco com tripulação mesmo que não leve passageiros, pelo que um encerramento faz surgir pelo menos uma interrogação: o que vai acontecer à tripulação? É pelo menos provável que uma fracção do telepúblico faça a pergunta, até porque eventualmente pode reflectir que o que sucede hoje a uns pode acontecer amanhã a outros. E parece óbvio que à pergunta provável caberia à televisão procurar responder. Tratar-se-ia então de investigar o que aconteceu a despedidos e suas famílias, averiguar o grau e eventual gravidade de consequências desencadeadas, dar-nos notícias dessa gente como nós que talvez só por acaso não somos nós próprios. Talvez esse conhecimento reforçasse o sentido de solidariedade para com essa peculiar espécie de náufragos sociais, e isso seria bom. Se não o fosse, porém, seria ainda o cumprimento de um dever porque solidariedade, designação da família da fraternidade, é também um dever cívico ainda que a alguns não o pareça. Aliás, muito aqui se deveria escrever se se tentasse abrir a palavra e examinar seriamente o que tem dentro. E lá se encontraria até e também a expressão «luta de classes».



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