Agressão à URSS o início do fim do nazi-fascismo
A 22 de Junho de 1941 os exércitos hitlerianos cruzaram a fronteira soviética, dando início à Operação Barbarossa, que visava a rápida ocupação (e desmantelamento) da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – o primeiro Estado socialista da história –, o saque dos valiosos recursos daquele imenso país e a subjugação e escravização, senão mesmo o extermínio, dos seus povos.
Mas o Império dos Mil Anos anunciado por Hitler, e desejado pelos monopólios que o sustentavam, acabaria por ruir precisamente ali, na União Soviética, perante a gesta heróica da resistência do seu povo, do seu Exército Vermelho, do seu Partido Comunista.
Foi com o contributo determinante da União Soviética que o nazi-fascismo foi derrotado
Nas primeiras horas desse 22 de Junho pôs-se em movimento aquela que foi a maior operação militar única de que há registo histórico, envolvendo mais de três milhões de homens numa frente de batalha de milhares de quilómetros. Pondo em prática os princípios da Guerra Relâmpago, que tantos e tão rápidos êxitos militareslhe garantiu no resto da Europa, o nazi-fascismo avançou numa frente que se estendia por milhares de quilómetros.
Os sucessos iniciais levaram o estado-maior hitleriano a anunciar com pompa que a vitória total estaria para breve. Mas logo no início de Julho o ministro da Propaganda do Reich, Goebbels, anotava no seu diário que, «em geral, se combate [em território soviético] muito dura e obstinadamente. Não se pode de modo algum falar em passeio. O regime vermelho mobilizou o povo». No dia 24, constatava a «dureza da luta que se trava no Leste» e a 1 de Agosto reconhecia os erros de avaliação acerca daquela que era a verdadeira «força militar soviética. Os bolcheviques revelam uma resistência maior do que a que supúnhamos».
Se é certo que, nos primeiros meses de guerra, as hordas hitlerianas não cessaram de avançar por território soviético adentro – ocupando vastos territórios da Rússia, da Bielorrússiae da Ucrânia, cercando Leninegrado e aproximando-se de Moscovo – não é menos verdade que foi aí que, pela primeira vez em toda a guerra, se depararam com uma resistência efectiva: o heroísmo dos defensores da Fortaleza de Brest (uma das cidades-herói) sobressai nestes primeiros dias da agressão, mas os exemplos de firmeza sucedem-se em toda a frente.
Não tardará até o estado-maior dos exércitos agressores verificar as diferenças existentes entre as campanhas do Ocidente e da Polónia, nas quais as «forças do inimigo cercadas se rendiam quase a 100%», e o que sucedia na União Soviética, onde todas as informações «confirmavam que os russos combatem em toda a parte até ao último homem». O próprio Hitler e os seus generais, pouco dados a admitir derrotas, são forçados a reconhecer o falhanço da Guerra Relâmpago na URSS e a redefinir os seus objectivos. Entre eles sobressaía a conquista de Moscovo até ao início do Inverno.
Porém, seria precisamente às portas da capital soviética que a máquina de guerra nazi-fascista sofreu a sua primeira derrota em toda a guerra: quando, em Abril de 1942, termina a batalha de Moscovo, tinham aí perdido um milhão e meio de homens, cinco vezes mais do que na anterior ocupação de 11 países europeus.
A vitória soviética em Moscovo derrubou definitivamente o mito da invencibilidade alemã e empurrou os ocupantes para longe de Moscovo, libertando milhares de povoações anteriormente ocupadas. Muitas outras se seguiriam.
Convergências e cumplicidades
Se poucos poderiam prever com exactidão a invasão da União Soviética para aquele dia 22 de Junho, dificilmente ela terá deixado alguém verdadeiramente surpreendido. A perspectiva de destruição do comunismo, tanto na Alemanhanazicomo nas potências capitalistas ocidentais, animava Hitler e seus mais próximos colaboradores desde o início do movimento nazi.
Já nos primeiros anos da década de 1920, o futuro Führer manifestava abertamente o desejo de se transformar no «extirpador do marxismo». Mais ou menos na mesma altura, o dirigente da indústria pesada do Rühr, Hugo Stinnes, confessava ao embaixador norte-americano na Alemanha a necessidade de «encontrar um ditador que tenha o poder de fazer tudo o que é necessário. (…) A sua chegada significará antes de mais o início de um combate contra o comunismo».
De facto, não tardaria muito até que os nazis unissem os seus destinos aos grandes monopólios alemães, que os colocaram no poder, financiaram, armaram e, por fim, beneficiaram da sua política militarista, expansionista e esclavagista (em 1943, haveria 12 milhões de trabalhadores escravizados a trabalhar na Alemanha). Muito embora esta cumplicidade não tenha sido punida no Tribunal de Nuremberga, em grande medida devido à oposição norte-americana, foi o próprio procurador dos EUA a realçar que «sem a acção conjunta dos industriais alemães e do partido nazi, Hitler nunca teria tomado o poder na Alemanha, nem o teria consolidado». A Comissão Kilgore, nomeada pelo Senado norte-americano, chegou a conclusões semelhantes.
Mas a grande burguesia alemã não estava sozinha neste apoio ao nazi-fascismo, que via como o mais sólido instrumento para esmagar os comunistas e a União Soviética. As elites dirigentes do Reino Unido e da Françapartilhavam no essencial da mesma perspectiva, visível na tolerância (para dizer o mínimo) com que observaram o rearmamento e expansionismo da Alemanha nazi. O jornalista britânico Alexander Werth realça, na sua obra A Rússia na Guerra, que «com intensidade variável, o apaziguamento tornara-se a política oficial da Inglaterra e da França – apaziguamento no golpe da Renânia, na questão espanhola, na Áustria e na Checoslováquia. [O Pacto de] Munique fora o triunfo recente desta política».
A URSS, ao mesmo tempo que combatia activamente o ascenso do nazi-fascismo em Espanha, via britânicos e franceses recusarem sucessivas propostas suas para o isolar e travar, ao mesmo tempo que empurravam Hitler e os seus exércitos para Leste: só quando se tornou evidente que não poderia contar com as chamadas democracias ocidentais, é que a URSS decidiu assinar com a Alemanha um tratado de não agressão, que lhe permitiu ganhar quase dois anos para preparar a defesa face à inevitável invasão.
A estranha guerra
A cumplicidade britânica e francesa com as pretensões do nazi-fascismo a Leste continuaram para lá da declaração de guerraà Alemanha nazi, em Setembro de 1939, na sequência da invasão alemã da Polónia: pese embora a enorme superioridade militar anglo-francesa, não se registou qualquer acção militar contra a Alemanha nazi até Maio de 1940, quando as forças hitlerianas iniciaram a invasão da Bélgica, da Holanda, do Luxemburgo e da França. Em Nuremberga, o chefe do estado maior da Wehrmacht, Jodl, afirmou mesmo que «se nós não fomos derrotados na Polónia em 1939 isso deveu-se apenas a que no Ocidente, no período da campanha polaca, 110 divisões francesas e inglesas se “opuseram” em completa inacção a 25 divisões alemãs». Este período passou à história como a guerra estranha.
Ao contrário dos círculos dirigentes ingleses, franceses e norte-americanos, a direcção soviética há muito que compreendera que a guerra que se adivinhava tinha uma natureza dúplice: se por um lado era uma guerra inter-imperialista pelo domínio de colónias, mercados e matérias-primas, que se iniciara já há muito, por outro escondia a ambição das potências imperialistas de destruir o primeiro Estado socialista. Determinado a não voltar a combater simultaneamente em duas frentes, como em 1914-1918, Hitler ataca primeiro a Ocidente: ocupa facilmente a França e fustiga a Inglaterra com brutais bombardeamentos aéreos, perante a passividade norte-americana, que decreta a sua neutralidade.
Só então os nazi-fascistas apontam decisivamente ao seu alvo principal, a União Soviética.
Uma luta heróica
14 mil vidas por dia: são desta ordem de grandeza as perdas soviéticas na Segunda Guerra Mundial, desde esse fatídico 22 de Junho de 1941 até ao glorioso 9 de Maio de 1945, quando o Exército Vermelho forçou a rendição do nazi-fascismo, em Berlim, capital do Reich. Mas a contribuição soviética para a derrota do projecto de domínio da Raça dos Senhores, de que falava a propaganda nazi, não se mede apenasem mais de 20 milhões de mortos: ali foram travadas as batalhas decisivas, que viraram definitivamente o curso da guerra, e ali perdeu o nazi-fascismo 80 por cento dos seus efectivos militares e 607 divisões, mais do triplo do que a soma das restantes frentes.
Com a vitória em Stalinegrado, a maior batalha da história, a guerra entrou numa nova fase, em que à expulsão do invasor do território soviético se somouum outro objectivo, o da liquidação da ordem fascista na Europa. Golpe após golpe, as forças nazi-fascistas foram forçadas a recuos consecutivos; um após outro, os países ocupados foram libertados (e com eles 113 milhões de pessoas), pela acção conjugada do Exército Vermelho e dos movimentos de resistência popular, em que os comunistas assumiam um destacado protagonismo.
Quando as forças anglo-americanas desembarcam na Normandia, em Junho de 1944, 92 por cento das tropas nazi-fascistas combatiam na frente Leste– e por lá continuaram 74 por cento destas, mesmo após a abertura da tão ansiada (e há muito prometida) segunda frente. Em finais de Abril de 1945, os soviéticos encontravam-se às portas de Berlim e no início de Maio a bandeira vermelha com a foice e o martelo ondulava já no topo do Reichstag.
Se o Exército Vermelho teve um papel determinante na vitória sobre o nazi-fascismo, é parca explicação procurar apenas na estratégia e táctica militares o segredo do êxito soviético. Quem ganhou a guerra e libertou o mundo do nazi-fascismo foi um sistema económico e social superior,capaz de organizar a produção em tempo de guerra e transferir enormes unidades produtivas para o interior do país, colocando-as a salvo do invasor, e a partir delas abastecer o exército de crescentes quantidades de material militar, que se foi revelando superior ao do inimigo.
No centro deste sistema estava o Partido Comunista da União Soviética, o partido de Lénine, que se mostrou capaz de mobilizar toda coragem, determinação e patriotismo do povo soviético em defesa da pátria e do socialismo, de organizar a resistência nas zonas ocupadas, em todas e cada uma das aldeias, vilas e cidades, transformando o que muitos julgavam (e desejavam) que seria uma derrota fácil e rápida na mais extraordinária façanha militar da História, com impressionantes efeitos em todo o mundo.
Os povos de todo o mundo devem muito ao povo soviético, aos corajosos guerrilheiros da Bielorrússia, de Odessa e de Sebastopol, aos valentes defensores de Leninegrado e de Moscovo, aos heróicos combatentes de Stalinegrado, Kurskou Berlim: lutaram, morreram e venceram por toda a Humanidade.
Aprender sempre!
Não se deve procurar paralelos esquemáticos entre o presente momento histórico e aquele que desembocou na invasão da União Soviética pela Alemanha nazi, em Junho de 1941, e na própria Segunda Guerra Mundial. O que não invalida que haja múltiplas e úteis lições a retirar destes acontecimentos, como foi há muito percebido pelos centros de difusão ideológica do imperialismo, que investem meios astronómicos na reescrita desta história (como de outras).
Ora, para além de mostrar que os comunistas foram protagonistas de primeiro plano no combate ao nazi-fascismo e na sua derrota (e não co-responsáveis pela guerra, como hoje caluniosamente alguns afirmam), a história da Segunda Guerra Mundial, se correctamente contada, revela ainda a cumplicidade entre as elites dirigentes das chamadas democracias ocidentais e o nazi-fascismo.
Particularmente útil para os nossos dias é a constatação da necessidade de travar o passo ao militarismo, à corrida aos armamentos, à agressão militar, por mais que estes sejam – e são – componentes intrínsecos ao imperialismo. Estabelecendo, para este fim, as alianças e convergências que se revelarem úteis.
Também a solidariedade aos povos vítimas de agressão se revela surge, agora como naquele tempo, questão decisiva para refrear os ímpetos mais agressivos dos senhores da guerra. Sendo certo que não há poderio militar capaz de vergar um povo unido e determinado: provam-no a União Soviética, mas também o Vietname, Cuba e a Palestina.
A luta contra o fascismo e pela paz continua no nosso tempo!