No 120.º aniversário do nascimento de Bento de Jesus Caraça
No próximo dia 18 de Abril, assinala-se o 120.º aniversário do nascimento de Bento de Jesus Caraça. Intelectual e pedagogo, fundador da Biblioteca Cosmos e promotor da educação e instrução populares, Bento de Jesus Caraça foi um destacado militante comunista, com uma acção destacada no campo da unidade antifascista como membro dos órgãos dirigentes do Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) e do Movimento de Unidade Democrática (MUD).
Bento Jesus Caraça simboliza toda uma geração de cientistas, intelectuais, trabalhadores e jovens que lutam pelo acesso do povo ao ensino, à cultura, à liberdade
Uma vida e uma obra exemplares
Bento de Jesus Caraça nasceu a 18 de Abril de 1901, na rua dos Fidalgos em Vila Viçosa, numa modesta dependência do Convento das Chagas, onde se alojavam alguns criados da Casa de Bragança. Filho de João António Caraça e de Domingas Conceição Espadinha, assalariados rurais, viveu até aos cinco anos nos ermos da herdade da «Casa Branca», em Montoito.
Aí, Bento de Jesus Caraça aprenderia a ler e a escrever com o camponês José Percheiro, cedo revelando uma invulgar vivacidade e genuína inteligência. A extraordinária rapidez com que aprendia impressionou a esposa de Raúl Albuquerque (de quem o pai de Bento era feitor), que decidiu tomar a seu cargo a educação do jovem.
Em 1911 conclui com distinção o exame de instrução primária em Vila Viçosa. Fez depois o curso liceal nos liceus de Santarém e Pedro Nunes, em Lisboa, ingressando em 1918 no Instituto Superior do Comércio (actual ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão), licenciando-se em 1923. Em 1929, com 28 anos, é nomeado Professor Catedrático, afirmando-se como uma autoridade em Matemáticas Superiores e um dos mais insignes pedagogos do seu tempo.
Despontando o jovem académico em plena época de ascensão do regime fascista português, terrível tempo de culto e promoção dum obscurantismo incompatível com a postura de um intelectual de novo tipo, rapidamente se vê confrontado nos seus ideais com a aberração doutrinária do regime fascista em formação.
A sua actuação pública começa a adquirir contornos de intervenção política antifascista para ganhar rapidamente a força de uma ideologia claramente assumida.
Militante do PCP, o professor Bento de Jesus Caraça levou à prática a linha unitária que o seu Partido definira no combate ao fascismo e, nessa qualidade, o encontramos na década de 40, quer no Conselho Nacional do MUNAF, quer na Comissão Central do MUD.
A unidade antifascista
É Álvaro Cunhal que, referindo-se a esta vertente da intervenção de Bento de Jesus Caraça, afirma:
«No mundo então envolvido na 2.ª Guerra Mundial, 1943 foi um ano marcado em Portugal pelo impetuoso ascenso do movimento operário, a afirmação do PCP como um grande partido nacional e o empreendimento pelo Partido da unidade antifascista na luta pela liberdade e a democracia. Bento Caraça deu nessa conjuntura uma contribuição em alguns aspectos determinante para alcançarmos com êxito tal objectivo.
Lembro que o III Congresso do PCP (primeiro realizado na clandestinidade) noticiado no Avante! de Novembro de 1943, anunciava a criação do Movimento de Unidade Nacional Antifascista (...).
O êxito deveu-se em grande parte à acção de Bento Caraça, como militante do Partido, graças à sua influência nos meios intelectuais e entre os antifascistas. Acompanhei muito de perto toda esta acção. (…) O Avante! de Janeiro de 1944 confirmando a criação do MUNAF anunciava a formação do Conselho Nacional em que inicialmente entrámos como representantes do PCP, Bento Caraça e eu próprio.
O MUD (Movimento de Unidade Democrática) foi formado e desenvolveu-se como uma realização e expressão do MUNAF, aparecendo à luz do dia como um novo movimento e invocando o direito à legalidade. (…) O MUD, assim como o MUD Juvenil formado no seu desenvolvimento foi perseguido e reprimido. Bento Caraça foi demitido de professor na vaga de demissões que atingiu também outros destacados antifascistas, alguns dos quais comunistas.»
(excertos da entrevista de Álvaro Cunhal ao Avante!, em 22 de junho de 1995)
A luta pela democratização da cultura
A grande preocupação que manifestou com a cultura, que identificava com a verdadeira liberdade, tinha origem na sua ânsia de um proletariado educado e culto, tendo plena consciência dos seus direitos e deveres, em suma, com consciência de classe.
A sua concepção de cultura, alheia a todo o elitismo e radicalmente democrática, viria Bento de Jesus Caraça a explicitá-la desta forma na sua obra A Cultura Integral do Indivíduo, Problema Central do Nosso Tempo, de que se publicam alguns excertos: «O que é o homem culto? É aquele que:
1.º – Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2.º – Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3.º – Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior preocupação máxima e fim último da vida.
Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.
A aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a conquista da liberdade.
E para atingir esse cume elevado, acessível a todo homem, como homem, e não apenas a uma classe ou grupo, não há sacrifício que não mereça fazer-se, não há canseira que deva evitar-se. A pureza que se respira no alto compensa bem a fadiga da ladeira.
Condição indispensável para que o homem possa trilhar a senda da cultura – que ele seja economicamente independente. Consequência – o problema económico é, de todos os problemas sociais, aquele que tem de ser resolvido em primeiro lugar. Tudo aquilo que for empreendido sem a resolução prévia, radical e séria, desse problema não passará, ou duma tentativa ingénua, com vaga tinta filantrópica, destinada a perder-se na impotência, ou de uma mão-cheia de pó, atirada aos olhos dos incautos.»
Bento de Jesus Caraça foi, sem dúvida, exemplo do político e culto humanista, traços particularmente evidenciados na sua constante preocupação com a educação e instrução do povo, alargando os seus horizontes culturais. Nesse sentido, intervém na criação, organização e dinamização de importantes estruturas que viriam a ter um papel de relevo na divulgação da ciência e da cultura, nomeadamente:
- Biblioteca Cosmos: em 1941, Bento de Jesus Caraça fundou a Biblioteca Cosmos – de que foi o único director até Junho de 1948 –, a grande resposta cultural adequada ao ambiente de repressão existente. A Biblioteca Cosmos editou 145 números correspondendo a 114 títulos agrupados em sete secções, com uma tiragem global de 793 500 exemplares, e constituiu a mais importante iniciativa de divulgação da ciência e da cultura realizada em Portugal no século XX.
- Universidade Popular: foi um dos fundadores da Universidade Popular Portuguesa (com apenas 18 anos), tendo chegado à sua presidência em 1928, iniciando a sua reactivação e reorganização. Foi aí e noutras associações que deu as suas célebres conferências, que começaram a fazer dele uma figura lendária entre as classes populares. De entre aquelas que ficaram célebres destacam-se A Vida e Obra de Evaristo Galois, em 1932; Galileu Galilei – valor científico e moral da sua obra, em 1933; Escola única, em 1935; e, particularmente, A Cultura integral do indivíduo – problema central do nosso tempo, de 1933.
- O movimento matemático: colaborou muito activamente no Núcleo de Matemática de que foi um dos fundadores, em 1936, tendo sido Bento de Jesus Caraça a dar início às suas actividades em 16 de Novembro com a primeira lição de um curso de Cálculo Vectorial. Foi co-fundador, em 1939, da Gazeta de Matemática, cujo primeiro número saiu em janeiro de 1940. Participou na fundação da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), em 12 de Dezembro de 1940, tendo sido presidente da sua direcção no biénio de 1943-1944. É autor da obra Conceitos Fundamentais da Matemática que não é um mero «manual» de matemática elementar, mas cujo nível de divulgação científica, alicerçado numa concepção materialista dialéctica da história das ideias matemáticas, faz dela uma contribuição exemplar para aquela «cultura integral do indivíduo» tematizada por Bento de Jesus Caraça. Daí a sua importância e a actualidade dos seus ensinamentos.
Cultura como resistência
O regime fascista não lhe perdoou a inabalável dedicação à causa da classe operária. Constantemente perseguido, nunca abdicou dos seus ideais. Acabou por ser preso pela PIDE e, posteriormente, demitido do seu lugar de professor catedrático do ISCEF em Outubro de 1946.
Como refere Jorge Rezende, «não foi o acaso que levou a que tenha sido Bento de Jesus Caraça a fazer as palestras que marcam historicamente o início do Movimento Matemático e que a sua expulsão em 1946 e a sua morte em 1948 tenham coincidido com o aniquilamento, pelo fascismo, daquele movimento de renovação científica. De facto, Bento de Jesus Caraça simboliza uma época de resistência e de luta pela modernização, pela divulgação e pela popularização da ciência em Portugal. Simboliza ainda toda uma geração de cientistas, de intelectuais, de trabalhadores, de jovens que lutaram pelo acesso do povo ao ensino, à cultura, à ciência, à paz, à liberdade.» (Avante! n.º 2325, de 21 de Junho de 2018)
Uma luta que prossegue e se projecta no futuro
É nesta luta que se insere hoje a acção dos intelectuais comunistas e de muitos outros democratas e patriotas, que inspirados no exemplo de Bento de Jesus Caraça prosseguem o combate pela democratização da cultura.
Para o PCP a democracia cultural é uma das cinco componentes da Democracia Avançada que propõe ao povo português, como se pode constatar no seu Programa: «A democracia cultural é um factor de democracia política cujas potencialidades só se podem desenvolver com o alargamento e a elevação da formação e da vida cultural das populações. É um factor da democracia económica e do desenvolvimento, porque representa a a qualificação da principal força produtiva: o trabalho humano. É um factor da democracia social porque é um vector de intervenção crescente na vida da sociedade, por parte dos trabalhadores, das classes e grupos sociais mais vitalmente interessados na democracia. É um factor de soberania nacional, porque coopera na formação da identidade nacional, num processo aberto e activo e de interacção com a cultura mundial.»
Na luta pelo socialismo incorpora-se a luta em defesa da democratização da cultura e por uma política cultural ao serviço do povo e do País. Uma tal política cultural exige, tal como Bento de Jesus Caraça a concebia, o efectivo acesso das massas populares à criação e fruição da cultura. E exige o apoio à produção cultural; a valorização da função social de todos os trabalhadores culturais; a defesa do património cultural nacional, regional e local, erudito e popular, tradicional e actual, como forma de salvaguarda da identidade e independência nacionais.
Tal como o PCP a entende, a democratização da cultura é factor de emancipação, é democratização de toda a vida, é liberdade de sonhar e de criar.
E é por força da luta pela concretização do projecto comunista que, também no plano da cultura, se pode afirmar que o futuro tem partido.
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Notas biográficas da publicação A Cultura Integral do Indivíduo, editada em 1995 pelo Pelouro da Educação da Câmara Municipal de Lisboa, dirigido pelo vereador António Abreu e de O Militante n.º 178, 3/90, pp. 31-33.