Iúri Gagárine há 60 anos nas páginas do Avante!

Domingos Mealha

A 12 de Abril de 1961 Gagárine iniciou a grande aventura do século XX

Em Maio de 1961, a luta contra o regime fascista persistia em não se confinar aos grilhões da repressão. Começara a guerra colonial. O PCP tinha completado 40 anos e o Avante! festejava o seu N.º 300.

No topo da quarta e última página, em folhas A4 de papel-bíblia, anunciava-se: «O vôo cósmico de Yuri Gagárine mostra a superioridade do sistema socialista».

O feito de que iremos assinalar o 60.º aniversário ficou então marcado no jornal com os motivos da sua importância: «O dia 12 de Abril de 1961 ficará assinalado na história da Humanidade com mais uma extraordinária conquista do homem: um cidadão soviético, o major Youri Gagárine, voou durante 108 minutos no espaço cósmico, a bordo da nave-sputnik “Vostok”, regressando depois são e salvo à Terra.»

Mas, «ao anunciar a extraordinária vitória no Cosmos, que dá à URSS um poder inigualável, o governo soviético não fez ameaças nem procurou impor a sua política; pelo contrário, ele dirigia de novo um solene e sincero apelo a todos os povos, a todos os governos, a favor do desarmamento geral e completo».

Ao alcance dos assinantes

Seja qual for a motivação, o facto de toda a colecção do Avante! estar agora ao dispor dos assinantes permite conferir como a proeza da URSS e de Iúri Gagárine tem presença constante, tema que aqui afloramos.

Em 15 de Abril de 1976 (N.º 112), toda a página 10, no formato maior em que o Avante! se publicou desde 17 de Maio de 1974, foi para «O primeiro homem a voar no Cosmos», com fotografias de Gagárine, o qual «considerava sinceramente o seu voo como uma proeza de todo o povo soviético, que havia criado uma poderosa indústria e elevado a ciência e a técnica para o bem comum».

No N.º 378, de 9 de Abril de 1981, recordava-se, reproduzindo o desenho de Pablo Picasso (Jouri Gagarine, 16 de Abril de 1961), que «Há 20 anos Gagarine iniciava “a grande aventura do século XX”». «A saga iniciada por Gagarine não tem limites», «materializando os sonhos e coroando o trabalho de gerações de cientistas, técnicos e simples operários, os grandes obreiros do “milagre” cósmico», destacando «Constantin Tsiolkovski, que viria a ser o pai da cosmonáutica».

Nas páginas centrais (no formato já tablóide do caderno Em Foco) do N.º 642, a 17 de Abril de 1986, gritou-se bem alto a expressão com que Gagárine respondera, 25 anos antes, ao sinal da descolagem: «Поехали!» («Poekhali!», que se lê «paiékhali» e pode traduzir-se como «Vamos embora», «Vamos a isto»). Nas legendas indica-se «o jovem Gagarine, aprendiz metalúrgico em Sarator», «Gagarine e seus pais, Ana Timofeievna e Alexei Ivanovich». As fotografias são intercaladas com trechos de Iúri Gagárine e Guerman Títov e de Oleg Kudenko, «biógrafo de Yuri Gagarine».

Picasso regressa no N.º 904, de 18 de Abril de 1991, num artigo a toda a página 25. «Há 30 anos, o primeiro homem no Espaço», «culminava uma série de experiências efectuadas ao longo de aproximadamente dez meses com naves habitadas por animais».

Refere-se adiante os nomes de John Gleen, Valentina Terechkova, Aléxis Leonov, Armstrong e Aldrin, recorda-se que «em 1969 os soviéticos fazem a primeira acoplagem de duas naves no espaço e os americanos marcharam sobre a Lua» e «em 1971 a URSS coloca em órbita a primeira estação orbital».

«Colocando o Cosmos no lugar do "Céu”» (N.º 1951, 20 de Abril de 2011) incluiu uma nota de rodapé que teve destaque na página: «O socialismo foi o primeiro a levar o Homem ao Espaço; o capitalismo foi o primeiro a levar a guerra ao Espaço».

As «qualidades de Gagarin reconhecidas pelos próprios camaradas de curso, desde a sua preparação à contagiante simpatia, passando pela franqueza, boa disposição e permanente disponibilidade para os outros» teriam contado... Mas, no Avante! N.º 2211, de 14 de Abril de 2016, admite-se que, «no final de contas, é provável que o factor (talvez determinante) para a escolha entre dois jovens cosmonautas igualmente preparados para a função tenha sido bem mais prosaico: a baixa estatura de Gagarin (1,58m), apropriada ao tamanho da cápsula».

Nota: Para uma leitura mais aproximada, em português, preferiu-se Iúri Gagárine como grafia latina de Юрий Гагарин. Nas citações manteve-se o que foi publicado em cada edição.




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