Uma das figuras cimeiras da ligação entre a arte e a intervenção
Cipriano Dourado: a lírica do desenho

ARTE Raros são os artistas que conseguem ter domínio quase absoluto sobre a linha obrigando-a a avançar milímetro a milímetro nos labirintos de uma folha de papel em branco com a certeza de que quando a mão parar é porque a linha, não tem mais caminho a percorrer e nada há mais a acrescentar.

Para esses artistas a linha funciona como um corte na lisura do papel, traça as pautas dos ritmos direitos ou serpenteantes que vão dando forma a um final em que tudo está certo, sem desbarato de sinais. São capazes de tanto preencherem uma folha de papel imensa, quase infinita como um pedaço de papel do tamanho de um pequeno selo sem que a linha entre em derivas que retire plena expressividade ao desenho acabado. Cipriano Dourado inscreve-se na galeria desses artistas. Prefere o aparo, a ponta-seca ao lápis ou ao pincel.

Prefere o negro à cor ou às gradações de cinzentos. O seu maior problema é consigo próprio, com a sua incomum habilidade de tudo transformar em desenho de sumptuosas formas. Conhece bem de mais os perigos dessa sua faculdade que facilita caminhos para concessões, maneirismos que recusa. Não perde, nunca poderia perder essa qualidade que lhe é intrínseca, obriga-se é a dominá-la, a controlá-la.

Os saberes adquiridos como desenhador litógrafo, com que iniciou a sua actividade profissional, introduziram-no nos segredos das técnicas da gravação e no rigor operário do trabalho. Apura todo esse conhecimento num curso nocturno da Sociedade Nacional de Belas Artes e, mais tarde, na Academia Livre Grande Chaumière, em Paris. A sua actividade artística fundia-se com a sua actividade política. Antifascista convicto, muito cedo firmou essa sua certeza revolucionária inscrevendo-se como militante no Partido Comunista Português onde, até ao fim da sua vida, foi muito activo, destacando-se a influência que exerceu junto dos meios artísticos.

Figura do neo-realismo

Foi um dos artistas do movimento neo-realista. Nesse contexto, em 1953, participou numa experiência colectiva no Ribatejo que ficou conhecida como o Ciclo do Arroz. São levados por Alves Redol, que em 1939 tinha escrito Gaibéus sobre o trabalho dos camponeses nas lezírias de arroz do Ribatejo,que quer aprofundar o seu escrito com um trabalho de equipa com um grupo de pintores, Cipriano Dourado, Júlio Pomar, Rogério Ribeiro, Alice Jorge, Lima de Freitas, António Alfredo.

Desse contacto directo para conhecer o modo de vida e as condições de trabalho dos trabalhadores dos arrozais do Ribatejo, produziram-se fotografias, desenhos, gravuras, estudos, esboços que serviram de matéria-prima e fonte de inspiração para trabalhos artístico-literários que foram reunidos numa exposição realizada, em 2016, no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira, onde foram expostas dezenas de desenhos, estudos e litografias de Cipriano Dourado relacionados com aquela experiência, sublinhando o traço delicado, quase lírico com que retrata as plantadoras de arroz.

Mulheres – na sua obra a mulher ocupa um lugar central, é uma presença quase constante – e terra, são os temas recorrentes do artista que trabalha sem cessar em desenhos, litografias, ilustrações onde inscreve uma vitalidade que é a do seu amor e confiança na vida, da sua devoção aos amigos, aos seus camaradas, aos seus companheiros de trabalho que temperava com alguma agreste amargura pelas veredas da vida artística, determinado a escusar-se à lisonja fácil, aos caminhos ínvios em que se traçam carreirismos. Amado por muitos e injustamente olvidado por uma boa parte da crítica, no que há que reconhecer se encontra muito bem acompanhado, a sua vida é preenchida pelas centenas de folhas de papel ocupadas pelo seu traço rigoroso, ágil, expressivo de ritmos ondulantes onde deixa o testemunho de um artista com uma obra impregnada por um sentimento poético que a tornam inconfundível.

Arte e liberdade

Cipriano Dourado nasceu há cem anos em Penhascoso, na Beira Baixa. Vem logo a seguir para Lisboa, onde muito jovem começa a trabalhar como desenhador litógrafo e a afirmar-se no meio artístico da época. Participa em todas as Exposições Gerais de Artes Plásticas, que foram alvo de repressão pelo fascismo-salazarista com assaltos pela polícia política. É um dos fundadores, em 1956, da Cooperativa dos Gravadores Portugueses, A Gravura, que tem o objectivo de democratizar as obras de arte sendo um dos seus principais intervenientes. Participa em muitas exposições colectivas de que se destacam bienais de gravura internacionais.

Foi professor convidado na Escola António Arroio. Na sua imensa obra é relevante a sua colaboração em publicações periódicas, nomeadamente a Vértice, Seara Nova, Colóquio-Letras, Cassiopeia-Antologia de Poesia e Ensaio, Árvore-Folhas de Poesia. Ilustrou diversos livros de poesia e prosa, como A Paz Inteira, de Armindo Rodrigues; Sete Odes do Canto Comum, de Orlando da Costa (apreendido pela PIDE no prelo); 20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, de Pablo Neruda; O Amante de Lady Chaterley, de D. H. Lawrence.

Cipriano Dourado Dourado, artista e militante do PCP, é uma das figuras cimeiras da ligação entre a arte e a intervenção.



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