• Correia da Fonseca

História de gigantes

Há algum tempo, não importa se muito ou pouco, a televisão deu-nos em informação breve uma síntese das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética, agora de novo Rússia, durante as últimas décadas. Não foi nada de brilhante, mas fomos assim um pouco devolvidos aos anos em que uma permanente tensão parecia ameaçar o mundo com a eclosão de um conflito de prováveis consequências catastróficas. Foi a propósito desse tempo que aqui se terá acentuado que o presidente Trump, titular de poucas virtudes e de escassos méritos, teve pelo menos o de, em associação com Vladimir Putin, reduzir o clima de tensão entre as duas superpotências e assim afastar uma situação de enorme risco. E embora a figura de Trump não o torne credor de entusiástica admiração, longe disso, não podemos omitir este seu contributo para o nosso sossego, digamos assim, pois o encerramento de uma guerra, ainda que fria, será sempre motivo para uma respiração de alívio. Pelo menos até que surja nova situação de tensão e risco, pois bem se sabe que a paz é um bem que exige permanentes cuidados e há sempre quem não se importe de a colocar em perigo ou até de conspirar contra ela. A questão é que para o capitalismo «puro e duro» a paz é também uma espécie de mercadoria só apreciada quando a perspectiva de uma guerra não promete um lucro supostamente compensador.

Como quem descasca um fruto

Não se pode tratar, é claro, de fundar uma espécie de clube de admiradores de Trump, mas seria interessante saber se o presidente dos Estados Unidos, se propõe prosseguir a atitude de pacífico entendimento com a Rússia, como aliás convém a ambas as partes e sobretudo ao mundo inteiro. Há por aí, isto é, pelos quatro cantos do globo, uns largos milhões de pessoas que viveram dias, meses, anos, dependurados de ansiedade acerca de quanto tempo ia durar a paz mundial, isto é, a sua própria sobrevivência. Com um pouco de sorte haverá cada vez menos gente dessa, e essa é uma excelente perspectiva, mas para que assim seja é preciso que a tensão que colocou a vida internacional «à beira do abismo», para usar aqui a fórmula há décadas usada por Foster Dulles, não regresse. Para tanto, é conveniente e útil que um Trump ou um Biden se pronunciem a favor da paz e, é claro, mas ainda mais que actuem de acordo com as suas palavras: de imposturas e manobras agressivas à sombra de bandeiras brancas já temos dose mais que bastante. Que Biden se diga «um homem de paz» é bom; que o seja de facto é melhor. Vamos ver. Como quem tem de descascar um fruto para saber se tem ou não tem bicho dentro.




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