• Carlos Lopes Pereira

Velhos e novos conflitos em África

No Sara Ocidental, a situação deteriorou-se e há o risco de reacendimento do conflito armado. O povo sarauí, representado pela Frente Polisário, cansado da dominação colonial e dos ataques e provocações das tropas de ocupação marroquinas, pegou em armas para se defender. Isto, depois de mais uma agressão, agora contra uma manifestação pacífica de civis, na zona de Guerguerat, junto à fronteira com a Mauritânia, por parte das forças de Rabat, em violação do cessar-fogo assinado sob a égide da ONU há duas décadas.

Os sarauís exigem às Nações Unidas, que mantêm no território desde 1991 uma missão de manutenção da paz, a garantia de condições para a concretização de um referendo sobre a auto-determinação e independência do Sara Ocidental.

O reino de Marrocos persiste em não reconhecer os direitos nacionais do povo sarauí, mantém o domínio colonialista e explora em seu proveito as riquezas do país ocupado – dos fosfatos às pescas –, perante a passividade da ONU e a conivência da «comunidade internacional», incluindo a União Europeia.

É, pois, justíssima e tem o apoio das forças progressistas mundiais a persistente e corajosa luta do povo sarauí pela realização dos seus inalienáveis direitos nacionais, a começar pelo cumprimento do direito à auto-determinação e independência.

De acordo com observadores, uma escalada militar do conflito no Sara Ocidental agravaria as tensões no Norte de África, já fortemente abalado pela situação caótica na Líbia, e também na zona do Sahel, onde Mali, Níger, Burkina Faso e outros países estão confrontados com a presença de tropas estrangeiras – europeias e norte-americanas –, a pretexto da guerra contra o terrorismo.

Diferentemente do problema do Sara Ocidental, já antigo, eclodiu recentemente, no estratégico e instável Corno de África, um novo conflito armado, este na Etiópia, com mais de 100 milhões de habitantes.

O governo federal etíope lançou no início deste mês uma operação militar contra as autoridades da região nortenha de Tigré, até agora governada pela Frente de Libertação Popular de Tigré (FLPT), acusada de intentos secessionistas.

O primeiro-ministro Abiy Ahmed – Nobel da Paz em 2019 por ter restabelecido as relações entre a Etiópia e a Eritreia, que travaram uma longa guerra – declarou que as operações em curso não são uma guerra civil, nem tão-pouco uma guerra contra os povos de Tigré, mas uma operação «para proteger a lei e o direito na região».

São conhecidos poucos pormenores do desenrolar das acções militares no terreno. Foi noticiado que as forças da FLPT lançaram um ataque de mísseis contra o aeroporto de Asmara, capital da Eritreia, acusando este país de enviar tanques e tropas em apoio à ofensiva lançada por Adis-Abeba. E sabe-se que estão a chegar ao Sudão milhares de refugiados das zonas de guerra.

É óbvio o perigo de internacionalização deste conflito na Etiópia, que tem fronteiras com Eritreia, Sudão, Sudão do Sul, Quénia, Somália e Djibuti – país, à entrada do Mar Vermelho, onde se localizam bases militares dos Estados Unidos, da França, da China, entre outras.

E é claro que, independentemente das causas destas guerras, são os povos de África que sofrem com elas. E são os seus inimigos, dos povos africanos, que lucram…




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