A obra, o exemplo e o legado de Álvaro Cunhal são património dos comunistas portugueses
O construção do PCP e o imprescindível contributo de Álvaro Cunhal

LEGADO À beira de celebrar um século, o Partido Comunista Português é uma exaltante construção colectiva de várias gerações de militantes que lhe dedicaram e dedicam o melhor das suas energias e capacidades. De entre todos, sobressai Álvaro Cunhal, nascido a 10 de Novembro de 1913, fez anteontem 107 anos.

«Há homens que lutam um dia, e são bons.
Há outros que lutam um ano, e são melhores.
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons.
Porém, há os que lutam toda a vida.
Estes são os imprescindíveis.»

Bertolt Brecht


Caracterizar Álvaro Cunhal não é tarefa fácil, tantas foram as vertentes da sua fascinante personalidade e as actividades a que se dedicou. Em mais de sete décadas de intensa actividade revolucionária, revelou-se um militante firme e dedicado, um corajoso resistente antifascista, um organizador exímio, um teórico brilhante, um escritor e artista plástico talentoso. Quem com ele lidou de perto recorda ainda o ser humano afável, o familiar carinhoso, o camarada frontal e atencioso.

 

Viveu décadas na clandestinidade, passou 12 anos na prisão (oito dos quais completamente isolado), resistiu à tortura, enfrentou os «tribunais» fascistas, integrou o grupo de comunistas que, em Janeiro de 1960, protagonizou a audaciosa fuga da fortaleza de Peniche; foi activista estudantil, dirigente da Juventude Comunista e do Partido (Secretário-geral entre 1961 e 1992), ministro, deputado e membro do Conselho de Estado; interveio em milhares de sessões e comícios, escreveu centenas de ensaios, artigos e livros sobre política, história e estética; desenhou e pintou.

 

O seu funeral, em Junho de 2005, com centenas de milhares de pessoas, foi uma extraordinária homenagem dos comunistas, dos democratas e patriotas, dos trabalhadores e do povo, a quem Álvaro Cunhal dedicou a sua vida, em prol dos trabalhadores, do povo e do País, de um projecto de liberdade, democracia e justiça social, enfim, do inalienável direito à felicidade. Na última mensagem que deixou, para ser lida depois da sua morte, escreveu: «a todos desejo que, vida fora, realizem os seus sonhos.»

 

Se é certo que cada uma destas vertentes dava, por si só, para preencher intermináveis linhas, centremo-nos no contributo inestimável de Álvaro Cunhal para a construção e consolidação do PCP como um partido comunista digno desse nome, com as características (cimentadas ao longo de décadas de dura e exaltante luta) consagradas nos Estatutos.

 

A decisão de uma vida
Álvaro Cunhal, como muitos jovens da sua geração, aderiu ao PCP nos duros tempos do início da década de 30, em que o fascismo, em Portugal e um pouco pela Europa fora parecia imparável. A ditadura consolidava-se: a censura, a vigilância, a repressão, o obscurantismo e a exploração eram alguns dos seus traços mais evidentes; em breve seriam criadas a Legião e a Mocidade Portuguesas e o Campo de Concentração do Tarrafal. A Constituição de 1933 viria a consagrar o carácter fascista do chamado «Estado Novo».

 

Nesse ano de 1931, quando o jovem estudante do 1.º ano de Direito Álvaro Cunhal se junta ao PCP, este preparava-se para resistir ao fascismo: as decisões assumidas na conferência de Abril de 1929 (que designa o operário arsenalista Bento Gonçalves Secretário-geral do Partido) faziam-se já sentir na criação de novas organizações partidárias, na reorganização do movimento sindical, na publicação do Avante!. Destacado activista estudantil, em breve o jovem Álvaro assumiria elevadas responsabilidades na Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas: em 1935 passou à clandestinidade, no ano seguinte tornou-se membro do Comité Central do Partido e em 1937 foi preso e torturado pela primeira vez.

 

Questionado, aos 85 anos, por que decidira aderir ao PCP com apenas 17, respondeu: «Achava que as coisas estavam mal, comecei a fazer umas leituras, as leituras começaram a trazer-me a notícia da Revolução Russa, da luta dos comunistas e do marxismo, comecei a ter uns livros à mão a esse respeito, um pai muito respeitador, espírito aberto e democrático, e portanto foi fácil. Quando terminei o liceu fui para a faculdade, procurei o Partido, encontrei-o, comecei a ser comunista e ainda não acabei.»

 

Contributos decisivos
Ao sair da sua segunda prisão, em finais de 1940, Álvaro Cunhal participou activamente no processo de reorganização que transformaria definitivamente o PCP num grande partido nacional, indiscutível vanguarda da classe operária e promotor da unidade antifascista. Integrando o Secretariado desde 1942, e até à sua prisão, e Secretário-geral desde 1961, Álvaro Cunhal foi o principal responsável pela elaboração teórica do Partido. Sempre inserido no trabalho colectivo do Partido, coube-lhe redigir e apresentar os relatórios aos III, IV e VI Congressos, realizados respectivamente em 1943, 1946 e 1965.

 

A via do levantamento nacional para o derrube do fascismo, a original concepção da frente única, a construção da mais ampla unidade antifascista, o desenvolvimento criativo dos princípios do centralismo democrático, o grande colectivo partidário, a correcção do desvio de direita e a definição da natureza e objectivos da Revolução Democrática e Nacional abriram novos caminhos à luta revolucionária antifascista. E foi a própria história a comprovar a sua justeza.

 

A forma como encarou o inimigo foi também exemplar. Como outros militantes e dirigentes do PCP, sofreu as mais violentas torturas e nunca soçobrou. A sua vida esteve em risco por mais de uma vez sem que isso abalasse as suas convicções e a sua determinação em resistir. A sua intervenção perante o «tribunal» fascista, em Maio de 1950, permanece ainda hoje como uma vibrante acusação do fascismo e uma apaixonada e consistente defesa da democracia e do socialismo.

 

Como disse por mais de uma vez, no longo isolamento a que esteve sujeito salvou-o o trabalho: estudou, leu, desenhou e escreveu. Traduziu O Rei Lear, escreveu Até Amanhã, Camaradas, produziu Os Desenhos da Prisão, neste período.

 

Revolução e nova resistência
A 30 de Abril de 1974, poucos dias após o derrube da ditadura pelo levantamento militar e popular (base da aliança povo-MFA que se viria a constituir), Álvaro Cunhal regressou a Portugal vindo de Paris, sendo calorosamente recebido no aeroporto por uma multidão. As suas primeiras palavras são de confiança e de apelo à unidade, reafirmadas no dia seguinte, na impressionante manifestação do 1.º de Maio promovida pela Intersindical, decisiva para imprimir à Revolução o seu carácter popular.

 

Os meses que se seguiram, marcados pelo irreprimível avanço da Revolução e das suas mais avançadas conquistas (nacionalizações, reforma agrária, controlo operário, consagração de direitos laborais e sociais), foram impressivamente marcados pela acção do PCP, o mais destacado construtor de Abril. Atacado à direita e à «esquerda», o Partido manteve um rumo firme e coerente, levando tão longe quanto possível o aprofundamento da democracia em todas as suas vertentes, tendo no horizonte um Portugal socialista – objectivo presente, ainda hoje, no Preâmbulo da Constituição da República Portuguesa. Em 1976, no VIII Congresso do PCP, é uma vez mais Álvaro Cunhal a elaborar o relatório A Revolução Portuguesa, o Passado e o Futuro, a mais completa e consistente análise sobre a Revolução e a sua necessária defesa.

 

Nos anos – décadas! – seguintes, é precisamente a defesa das conquistas da Revolução a preocupação central dos comunistas, que mobilizam os trabalhadores e demais camadas antimonopolistas: a contra-revolução faz o seu caminho, com a adesão do País à CEE/UE, as revisões constitucionais e a política dos sucessivos governos, mas encontra pela frente uma poderosa barreira de resistência.

 

No início da década de 90 do século XX, o desaparecimento da União Soviética e do campo socialista europeu levou à descaracterização e mesmo ao desaparecimento de vários partidos comunistas no mundo. O PCP realizou um Congresso Extraordinário onde se reafirma: «fomos, somos e seremos comunistas».

 

Legado que permanece
Álvaro Cunhal deixou de ser Secretário-geral do Partido em 1992, mas a sua empenhada militância comunista não terminou aí: participou em conferências e debates, escreveu importantes obras, tomou parte activa na actividade partidária. Mesmo quando, na viragem do século, deixou de participar fisicamente nas acções do Partido, acompanhou-as sempre de perto. No XVI e XVII Congressos, em 2000 e 2004, a leitura das suas mensagens constituíram momentos emocionantes, esclarecedores e mobilizadores para o colectivo partidário.

 

A sua importância para o PCP não terminou com o seu falecimento, em Junho de 2005. De então para cá, têm sido inúmeras as iniciativas em torno da sua obra e do seu legado, particularmente em 2013, ano em que se celebrou o centenário do seu nascimento. Se Álvaro Cunhal não seria o que foi sem o PCP, este seria também outro, diferente, sem o inestimável contributo daquele que foi o seu mais destacado construtor e dirigente.

 

Estudar as suas obras, seguir o seu exemplo, apreender o seu legado é – e será sempre – essencial para prosseguir no presente e no futuro o combate pelo exaltante projecto a que Álvaro Cunhal dedicou a sua vida.

PCP evoca em Faro 107 anos de Álvaro Cunhal

Anteontem, no próprio dia em que se cumpria o 107.º aniversário de Álvaro Cunhal, o Secretário-geral do PCP rumou a Sul para aí evocar tão significativa data. Faro foi a cidade escolhida para acolher a sessão «Álvaro Cunhal e o PCP», inserida no programa de comemorações do centenário do Partido.

«Evocamos Álvaro Cunhal, essa personalidade marcante do século XX português e dos princípios do presente século, e é luta dos trabalhadores e do nosso povo e do seu Partido de sempre pela liberdade, a democracia, por um projecto de desenvolvimento soberano, por uma sociedade mais justa e liberta da exploração que convocamos, e que por aqui necessariamente passa, porque a sua vida é indissociável dessa luta da qual foi um destacado protagonista, à qual dedicou toda a sua vida, sempre com o PCP. Luta que honrou com uma generosidade sem limites», realçou Jerónimo de Sousa.

De facto, como lembrou o dirigente comunista, «Álvaro Cunhal viveu com o seu Partido um tempo de grandes combates, grandes desafios e empolgantes empreendimentos, mas também de grandes perigos e ameaças». Viveu, acrescentou, «estreitamente ligado» a um Partido que, no seu trajecto centenário, «mil vezes declararam morto e mil vezes surgiu renovado, determinado e convicto na frente da luta do seu povo».

Recordando o percurso de «setenta anos de ininterrupto combate», percorridos com «indomável determinação» e resistindo a «terríveis e duras provas», Jerónimo de Sousa destacou que a história pessoal de Álvaro Cunhal é a história de «um homem extraordinário, de um comunista convicto, de um multifacetado e experimentado dirigente político, estadista e ideólogo, com grande repercussão e impacto na vida portuguesa e no plano internacional». Que inspira, interpela e impulsiona no prosseguimento do combate «que foi o dele e é hoje nosso em demanda da concretização do ideal e projecto comunista, de um mundo justo, livre e fraterno».

Ao evocar «um dos nossos melhores», o dirigente comunistas não se esqueceu de assinalar e exaltar o papel das «sucessivas gerações de comunistas, o sacrifício e abnegação de muitos caídos na luta, a sua dedicada e intensa militância». É esse «imprescindível colectivo» que trouxe o Partido até aqui, constituído por «homens e mulheres que nunca não se deixaram, nem deixam, intimidar».





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