Egito Gonçalves (1920/2020) – dar Notícias do Bloqueio
Unia os poetas neo-realistas o empenho colectivo na denúncia das injustiças e da repressão
Ao reler dois livros de Egito Gonçalves, O Fósforo na Palha, de 1970, e Luz Vegetal, de 1975, dou por mim a verificar o notável e diverso percurso poético, cultural e interventivo do autor de O Amor Desagua em Delta, e o seu empenho, nas décadas de 1950/60, na divulgação dos seus pares e no empenho crítico, através das revistas em que participou e/ou dirigiu, A Serpente, Notícias do Bloqueio, Bandarra e Árvore.
A pulsão metafórica da poesia que pretendia intervir e questionar o real, a neblina, o sufoco existencial gerado pela censura e pela repressão salazarista, são parte integrante das alusões que a poesia neo-realista inscreverá nos seus textos mais emblemáticos e reconhecíveis, de Joaquim Namorado a Cochofel, de Manuel da Fonseca a Eugénio de Andrade, de Carlos de Oliveira a Egito Gonçalves. No entanto, é claro não existir no fulcro verbal destes poetas um processo estético comum, forma linear de abordagem do fenómeno poético.
O que coexiste nestas vozes, na poética que expressa a pluralidade das suas vivências, o empenho ideoestético da sua expressividade, é o empenho colectivo na denúncia das injustiças sociais, da repressão política e, por extensão, amorosa e física (Daniel Filipe, Eugénio de Andrade, Egito Gonçalves reflectem nos seus textos estas circunstâncias, «à dor da pele»), da miséria, da violência, da clausura, da fome. A poesia neo-realista é modo de materializar, através dos seus dialécticos códigos, a indignação e a recusa.
Dois livros de Egito Gonçalves, O Fósforo na Palha e Luz Vegetal, um anterior à Revolução de Abril e outro publicado já com o gelo na fervura do Verão Quente, ou seja, a seguir ao golpe militar de Novembro de 1975 («golpe de rins», diriam uns quantos, outros, porventura mais afoitos, fanfarronavam estar-se perante «um valente golpe no espinhaço», o qual, como sabemos, dói e verga mais), constituem-se, a meu ver, abordagens poéticas que transportam a claridade visceral das paixões, da dor e das feridas que o amor, e as desilusões dele, as interrogações que as viagens pelos corpos e pelo fim dessa busca, provocam no poeta e o inquietam, a desesperança num sentido para a vida, engajado no existencialismo sartreano, a permanência do cerco social, o medo: Difícil é esperar/quando sabemos/nada haver a esperar// O eco de uma lágrima não basta/para dar vento à sementeira.
Da recusa e do combate
Doze anos depois de Viagem com o teu rosto, os poemas de O Fósforo na Palha são já menos rebeldes, o poeta tornou-se mais esquivo, mais atento às suas pulsações, à evasão onírica que o poema permite. Sem perder o sentido do real que o cerca, da recusa e do combate: Querem que dobre a esquina/e me insinue/no deserto das praias.// Querem que feche os olhos/ e me dilua/num rio de magma.// Querem que corte a orelha/por onde ouvia/a voz da terra.// Querem que descarne/a ternura dos dedos/até ao esqueleto.// Querem que mergulhe/em álcool este feto/aparente nado-morto// Mas respiro, respiro/e construo um pulmão/a que possa dar asas.
De novo a esperança a reproduzir-se, mesmo quando se mantém a vigília, as tenazes se apertam e sufocam, há um pulmão que cresce e voará um dia, respirando outro tempo, porque, diz-nos Egito no poema seguinte de O Fósforo na Palha: Pode-se mergulhar num tão longo abandono, dado que há faíscas que irrompem na lapela do morto.
Os poemas de maior empenho social, em que a pulsão interventiva, herdada dos poetas do Novo Cancioneiro se expressa determinada e assertiva, vamos encontrá-los na série O Fundo da Gaveta, nomeadamente nos dois magníficos poemas sobre o Vietname, em que a necessidade de afrontar o medo, de ir à luta, nas suas dolorosas interrogações, se afirma sem disfarce: [...]Leveda negro este pão da morte/a que não escaparemos/sem destruir esse forno de sombras/onde coze/a incurável ferida que rasgará as entranhas da terra.
O que em Egito é premente e fecundo, inscreve-se ao longo da sua vasta obra poética, como pássaro, barco, árvore, o que permanece e se funda na terra, o que se afasta e prossegue a viagem, o que voa, segue outros rumos, fugindo do cerco. Simbologias, diz-nos Maria Alzira Seixo, «caras a Egito desde os alvores da sua escrita poética [...], e que são motivos frequentes na poesia neo-realista».
Notícias do Bloqueio sempre, de outros bloqueios que inquietaram o humano que vivia e agitava a poética de Egito Gonçalves.
Inquietações que permanecem nossas, que não se extinguiram, apenas mudaram o rumo dos ventos: Nada há a fazer. Ombro ao caminho.
O Fósforo na Palha, de Egito Gonçalves, D. Quixote
Luz Vegetal, de Egito Gonçalves, Limiar