A defesa do interesse nacional exige o controlo público dos CTT
Manter os CTT em mãos privadas é fechar os olhos à sua gestão ruinosa

REVERSÃO A recuperação do controlo público dos CTT esteve de novo no centro do debate parlamentar. Por esse objectivo voltou a bater-se o PCP com a apresentação de um diploma, que acabou chumbado sexta-feira passada, 16.

O mesmo destino tiveram três outras iniciativas legislativas do PEV, BE e PAN, com os mesmos votos contra de PS, PSD, CDS, Chega e IL.

As razões que presidiram a mais esta tentativa da bancada comunista de trazer para a esfera pública o controlo dos CTT foram expostas com clareza por Bruno Dias. Trata-se, desde logo, de pôr cobro à contínua degradação do serviço dos Correios, que atingiu «um nível insuportável para o País no seu conjunto» – utentes e populações, empresas e serviços públicos, os seus próprios trabalhadores -, fruto das opções ruinosas impostas pela gestão privada.

«A situação a que chegámos no serviço postal atinge proporções sem paralelo no desmantelamento do serviço público, destruição de postos de trabalho, encerramento de serviços», pormenorizou o deputado comunista.

E dando exemplos concretos, falou da agregação de Centros de Distribuição Postal, sob a «capa de um pretenso plano de modernização», que faz com que haja concelhos que tenham deixado de os ter e que haja correio a ser distribuído a partir de localidades, em muitos casos, a mais de 30 quilómetros.

Mas é também a acumulação de centenas de milhares de correspondências nas Centrais de Tratamento e nos CDP, anotou Bruno Dias, que lembrou que em 2019 os CTT chumbaram em 23 dos 24 indicadores de qualidade, situação que conheceu um agravamento no ano em curso e não foi «culpa» apenas da pandemia.

Chamando a atenção para o processo de descapitalização e redução do valor dos CTT seguido pela sua administração desde a privatização, Bruno Dias considerou que, a continuar assim, o «Estado corre o risco de ver destruída uma empresa centenária e de referência», de «ficar sujeito à chantagem dos seus donos privados exigindo indemnizações compensatórias ou outras contrapartidas para assegurarem a prestação do Serviço postal Universal».

A ambiguidade do PS

Garantir a viabilidade futura dos CTT e fazer com que volte a ter condições para prestar o serviço de que o País necessita é, pois, no entender do PCP, uma exigência que implica obrigatoriamente a recuperação do controlo público, seja por via da nacionalização, por aquisição, por negociação com os accionistas, ou por outras formas.

Se da parte das bancadas à direita do hemiciclo o que se ouviu foram palavras de justificação pela privatização e de aceitação pelo quadro actual – o deputado do Chega louvou mesmo a gestão privada e disse que a «empresa está a funcionar bem», já a posição do PS evidenciou traços contraditórios e ambíguos. Pela voz de Hugo Carvalho, reconheceu, por um lado, que há «falta de qualidade do serviço postal», que não está a ser prestado um «bom serviço» e que há «muitos pontos a melhorar», defendendo inclusivamente que importa «discutir sem tabus, incluindo a presença do Estado, se isso for necessário para melhorar o serviço», para logo a seguir contradizer na prática tudo o que afirma ao votar ao lado dos partidos à sua direita.

O que levou já perto do final do debate Bruno Dias a questionar-se sobre a justificação do PS para essa insistência em dar a mão ao PSD, ao CDS, à IL, ao Chega para manter os CTT na gestão privada.

«Como é que explicam aos trabalhadores dos CTT, pessoas que têm a vida num inferno, esta convergência», inquiriu. E não se mostrando surpreendido com o desprezo revelado por PSD, CDS e Chega com a vida das pessoas, já com a resposta do PS, face ao que aqueles disseram e assumiram, considerou-a «grave» pelo que representou de «convergência para deixar tudo na mesma».

«Os porta vozes do grupo Champalimaud já não me surpreendem, mas o que é preciso perguntar é até quando os senhores [o PS] vão deixar arder para depois um dia discutir as cinzas», afirmou Bruno Dias.




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