Pedro Chorão, uma geografia imaginária

Manuel Augusto Araújo

A desordem aparente da obra de Pedro Chorão é a ordem de uma escrita pictórica coerente

A pintura de Pedro Chorão tem uma coerência que se afirma em mais de quarenta anos de trabalho nos seus vários registos, em papel ou tela, com matérias e escalas diferentes mas sempre a explorar a invenção do espaço em que a pintura se afirma como pintura.

É um percurso extenso de um pintor que nunca se colocou na linha da frente dos pintores revelados ou promovidos durante esses anos por ter um temperamento completamente avesso à exploração mediática de si ou do seu trabalho e, no entanto, é um dos pintores mais significativos e coerentes da arte contemporânea portuguesa.

É um percurso que se afirma depois das experiências académicas na Escola de Belas-Artes e com as bolsas que lhe foram atribuídas pela Fundação Gulbenkian, consolidando-se nos finais dos anos 80, com uma obra extensa em que a desordem aparente é a ordem de uma escrita pictórica coerente em que o que parece ser acasos são os procurados ou inventados pelo artista para sublinhar com precisão o rigor das suas múltiplas referências afirmando uma pintura exemplar de um conceptualismo preciso, quase perfeito no seu minimalismo em que se desoculta a rara sensibilidade do seu olhar muito pessoal sobre o visível. Um olhar atento aos caminhos e descaminhos das artes visuais que não se deixa contaminar pelas modas, que é um exercício sem falhas nem rasuras que transmite para os suportes materiais onde o regista de uma forma sempre luminosa e surpreendente, de uma persistência e uma constância com os contornos inquietantes de inventariar as vibrações das vidas ocultas.

Rocha de Sousa refere num texto que escreveu sobre a obra do pintor que, «de certa maneira, há anos que Pedro Chorão pinta o mesmo quadro, acabando nele o que vai começar no outro». Uma definição de um trabalho em quer o fluir de memórias de situações vivenciadas abrem e fecham ciclos temáticos que exploram as estruturas das paisagens, das casas relendo-os para lhes captar o que lhes é essencial sempre debaixo de uma luz muito singular trabalhada pelo pintor para as iluminar. Em duas recentes exposições retrospectivas organizadas por José Luís Porfírio, na Cordoaria Nacional e Fundação Carmona e Costa, tornou-se mais facilmente evidente ver esse traço comum a toda a obra de Pedro Chorão em que o sempre mesmo quadro é sempre o outro bem diferente e distinto.

Nesta exposição na Galeria Monumental a dominante é a paisagem nas profundidades da terra, da água, do céu e o azul sempre o magnifico azul que desde há muitos anos contamina a sua pintura invadido por cinzentos que mais o acentuam, um azul mais próximo dos brilhos das pinturas das barras azuis de cal das casas alentejanas do que o que invade o céu e se reflete na água ou na terra. Um azul que nos remete para a irrealidade dos pontos de vista em que o pintor se coloca para ver as paisagens e as memorizar e, na sua ausência, as transpor para a tela fazendo-as perder a realidade geográfica para as reinventar dentro dos limites da tela escrevendo um atlas imaginário.

Uma magnifica exposição deste pintor de obra extensíssima que por vezes é desocultada para dar a ver uma pintura relevante que sobrevoa bem alto as muitas vulgaridades em que as artes visuais contemporâneas se baralham ruidosamente.

A não perder na Galeria Monumental, até 31 de Outubro. Lembrar que pelos constrangimentos impostos pela pandemia é necessário fazer marcação prévia.




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