Além dos Mares do Fim do Mundo, de Afonso Molinar, pela Associação Cultural «teatroàfaca»

Domingos Lobo

Um espectáculo de grande eficácia visual, emotivo, com expressiva leitura cénica e interpretativa

No ano em que se comemoram cem anos do nascimento de Bernardo Santareno (1920/2020), um dos maiores dramaturgos portugueses do século XX, este espectáculo de Afonso Molinar, com um punhado de jovens actores e músicos, é um acontecimento teatral que merece registo. Trazendo para o palco as dores, alegrias e misérias dos homens que, a partir de Ílhavo, partiam para os longínquos e gelados Mares do Norte, na Terra Nova, à pesca do «fiel amigo», o qual, nos anos duros do fascismo, constituía parte substantiva da dieta dos portugueses, este texto relembra a verdade que se escondia por detrás da propaganda do Estado Novo sobre essa gesta.

Santareno esteve, por duas campanhas, nos anos 1957/58, como médico, a bordo dos navios da frota bacalhoeira, David Melgueiro, Senhora do Mar e no navio-hospital Gil Eanes. Essa experiência singular vivida entre os pescadores, (Santareno já em 1955 havia publicado o livro de poesia Romances do Mar, em que relata a vida dos homens e mulheres da Nazaré) serviu-lhe como tema para alguns dos seus primeiros livros, nomeadamente as crónicas de Nos Mares do Fim do Mundo, em que o autor descreve, numa linguagem que balança entre o realismo e o poético, o quotidiano de um grupo de homens lutando contra a natureza inóspita, as suas mágoas, desesperos e ambições. Trata-se de um documento admirável e único, sobre um tempo e uma circunstância que colocava esses homens, alguns ainda adolescentes, em situações limite, numa labuta quase sobre-humana contra a fúria dos elementos. Glosando o mesmo tema, num outro registo, Santareno publicará um dos seus mais brilhantes textos teatrais: O Lugre, peça representada pela primeira vez, em 1959, no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação de Pedro Lemos.

Tendo por base a pesca do bacalhau na Terra Nova e na Gronelândia, Afonso Molinar criou um espectáculo de grande eficácia visual, emotivo, com expressiva leitura cénica e interpretativa de um texto que tem picos de grande qualidade literária, consegue de modo funcional gerar empatia. Utilizando a voz e o corpo, num cenário funcional, dois actores (Afonso Molinar e Mário Coelho) constróem um épico vibrante, que balança entre as memórias, apontamentos e fotos do avô do autor, Augusto Boffa Molinar, que este não chegou a conhecer, também ele médico, como Santareno, da frota bacalhoeira. O espectáculo é uma recriação contemporânea da saga dos homens que viveram situações singulares e extremas, que se inscreve como narrativa sobre esse incomum destino dos pescadores-marinheiros que a escassez de horizontes e a fome atiraram para mares dos confins do mundo. O autor conseguiu, de forma muito convincente, trazer-nos, através de palavras de hoje e da magia teatral, esse passado e os seus pesadelos, desmistificando-o.

É dos clamores, das alegrias e medos dos que viveram e sofreram os sobressaltos de um mar sem tréguas e da morte que os rondava, que esta peça nos fala, contrariando, como o fez Santareno em Nos Mares do Fim do Mundo, referindo a ensaísta Carina Infante do Carmo que este livro entronca na desmontagem da mitologia salazarenta, quando ela, mitologia, considerava na propaganda que «estes marinheiros (os da frota bacalhoeira) seriam companheiros dos Gama e Cabral». Eram apenas homens comuns, perdidos nos labirintos da sobrevivência:

ZÉ SOL – Pois eu vi. Eu vi, Marreco! Vi com estes dois e nunca mais fui capaz de me esquecer. O meu pai, o meu próprio pai, levado por uma volta do mar, mesmo encostadinho a mim, ali, ao pé do leme! Um homem nunca mais pode esquecer, nunca mais.. Raio de vida!1

A música, integrada e coadjuvante do projecto, comentando e intervindo, em sentido brechtiano, na acção narrativa, foi executada por jovens e excelentes músicos: Beatriz Almeida, Miguel Galamba e Pedro Moldão. O desenho de luz de Gonçalo Morais.

A Afonso Molinar, para além do autor e concepção do projecto, coube, com Mário Coelho, dar corpo e voz a estas memórias que ainda andam por aí a doer. Ambos o fizeram de modo hábil e criativo, para nosso proveito.

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1Bernardo Santareno, O Lugre, p.224, Lisboa 1984, Caminho




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