Comunidade de países da África Ocidental propõe plano para «resolver» crise no Mali
A Comunidade Económica de Estados da África Ocidental (Cedeao) propôs um plano para «resolver» a crise no Mali que inclui a realização de eleições e a criação de um governo de unidade.
Num comunicado divulgado após a cimeira extraordinária, realizada por vídeo-conferência, na segunda-feira, 27, os líderes da Cedeao declararam querer que o organigrama do plano seja implementado nos próximos de 10 dias. As conclusões da reunião foram lidas pelo presidente em exercício da organização oeste-africana, Issoufou Mahamadou, do Níger.
A cimeira dedicada à situação naquele país, onde ocorreram recentemente grandes manifestações populares contra o governo, também recomendou a formação de um governo de unidade nacional, assim como a demissão de 31 deputados e a reconfiguração do Tribunal Constitucional maliano.
Os chefes de Estado rejeitaram a principal exigência da oposição, agrupada no Movimento 5 de Junho (M5-RFP), que é a renúncia do presidente Ibrahim Boubacar Keita, no poder desde 2013 e reeleito em 2018 para um outro mandato. Contudo, os presidentes aceitaram outra das principais exigências das forças opositoras – que o governo de união nacional proposto integre membros oposicionistas e da sociedade civil.
A cimeira recomendou a criação de uma comissão de investigação sobre a violência ocorrida em várias manifestações, nos dias 10, 11 e 12 deste mês, que causaram a morte de 23 pessoas, segundo a oposição (11 conforme fontes governamentais), bem como a destruição de numerosos bens públicos, incluindo o saque à sede da Assembleia Nacional.
Outras propostas da Cedeao coincidem com as reivindicações opositoras, pois os 31 deputados cuja saída se exige – entre os quais o presidente do parlamento – são aqueles cuja eleição, em Abril passado, foi rejeitada por suspeitas de fraude eleitoral. É proposta também a reforma do Tribunal Constitucional, acusado de parcialidade na validação dos resultados eleitorais.
Os chefes de Estado regionais pediram o estabelecimento de uma comissão de acompanhamento dos acordos, quando forem alcançados, e de um regime de sanções contra quem impeça a normalização da vida política do país.
Integrando movimentos civis e religiosos, o M5-RFP não se pronunciou, por enquanto, sobre as propostas da Cedeao, mas já tinha anunciado que retomaria as manifestações a partir de 3 de Agosto, depois de uma «trégua» devido à realização da festa muçulmana de Aid al-Adha.
Antes desta cimeira oeste-africana, a Cedao nomeou o ex-presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, como seu enviado especial, mas a tentativa de mediação falhou. Uma missão de cinco chefes de Estado (do Senegal, da Costa do Marfim, do Níger, da Nigéria e do Ghana) deslocou-se depois a Bamako mas os seus esforços também fracassaram, já que a oposição não recuou na exigência do afastamento do presidente Ibrahim Boubacar Keita. Todos estes esforços de apaziguamento da situação são apoiados pela União Africana.
Além da crise política – a oposição acusa os actuais governantes de corrupção e incompetência –, o Mali sofre também uma severa crise económica, agravada, desde há anos, por uma guerra contra separatistas e grupos jihadistas, sobretudo no Norte e no centro do país, a qual já provocou milhares de mortos e deslocados.
No Mali, um aliado incondicional da França, estão estacionadas forças estrangeiras – tropas da operação francesa Barkhane (5100 efectivos espalhados por cinco países do Sahel), instrutores e conselheiros militares da União Europeia e 14 mil efectivos militares e policiais da Minusma, a missão das Nações Unidas no país.