Soeiro Pereira Gomes – Uma Biografia Literária, de Giovanni Ricciardi
Mais vivo porque sofreste,
a morte não veio, foi-se.
A Eternidade constrói-se
na beleza com que viveste.
Carlos de Oliveira
Urbano Tavares Rodrigues, escreve, no Prefácio desta biografia de Soeiro Pereira Gomes, que Giovanni Ricciardi, de há muito ligado a profundos estudos sobre o nosso neo-realismo literário, levou a efeito amorosamente esta biografia, que é fruto sazonado de uma honesta e aplicada investigação, tendo ao mesmo tempo a vivacidade, o colorido, o empenhamento afectivo do romance de uma vida.
Giovanni fala-nos da infância do autor de Esteiros, das suas origens e do meio familiar, da ligação a Manuela Câncio e à sua mudança para Alhandra, do trabalho que realizou nas colectividades, traçando simultaneamente o quadro político e social da miséria, da fome, do desemprego e da ignorância quase generalizada entre os trabalhadores daquela zona dos arredores de Lisboa, a que a opressão do salazarismo emprestava atmosfera ainda mais dramática e brutal, num tempo marcado pelo agravamento da exploração e da insídia Espaço onde Soeiro, em contacto com a dureza da realidade vivida pelo operariado, irá iniciar a sua relevante actividade cultural e política.
Refere, com extremo rigor de pormenores, as circunstâncias que levaram Soeiro a participar na luta política do seu tempo, para a qual muito contribuiu o ambiente social que lhe era possível observar da janela de sua casa, situada frente aos esteiros do Tejo, e o que do escritório da fábrica de Cimento Tejo lhe era dado ver: as péssimas condições de vida e de trabalho dos operários; os salários de miséria; os putos que mourejavam nos telhais, os avieiros que lavravam um Tejo farto de peixe, que a usura da GNR e dos fiscais reduzia a quase nada.
Soeiro, sabia dessa tarefa imperiosa, da luta necessária para mudar a vida daquela gente, tendo plena consciência que «a missão dos intelectuais era a de preceder o grosso das tropas no caminho do progresso». (p.204).
A cultura foi uma das mais profícuas formas de resistência ao fascismo nesses anos de brasa, a arma que os então jovens autores manejavam com engenho e talento, sabedores de que a sua acção se confundia com a própria dinâmica do mundo do trabalho e das suas lutas, quer as dos operários da indústria, quer a dos trabalhadores rurais. A partir de corajosos actos de intervenção cultural, tendo como espaço privilegiado, pólos agregados desse projecto, as colectividades populares, do concelho de Vila Franca de Xira, os jovens escritores não hesitavam em juntar a sua voz à voz dos explorados.
Esta biografia/ensaio de Giovanni Ricciardi divide-se em quatro capítulos, percorrendo e revelando, num trabalho sério de aturada pesquisa, aspectos menos conhecidos da vida e obra do autor de Engrenagem: Capítulo I, debruça-se sobre «Os verdes anos»: desde Gestaçô, terra de Soeiro, até à chegada dele a Alhandra; Capítulo II – Literatura e cidadania: a sua acção nas bibliotecas populares, a piscina de Alhandra, o teatro de revista, a escrita de Esteiros, o início da militância no PCP; Capítulo III – Literatura e política: a vida literária e o êxito editorial de Esteiros, o começo da escrita de Engrenagem, a actividade política e a passagem à clandestinidade; Capítulo IV: a análise muito detalhada, crítica e lúcida da obra literária de Soeiro, os Contos Vermelhos e outros escritos, esmiuçados com deleite, levando o leitor a descobrir detalhes notáveis, provavelmente inesperados, na obra de Soeiro. Terminando o livro com a notícia da sua morte que «correu de coração em coração».
A edição deste livro Soeiro Pereira Gomes – Uma Biografia Literária, de Giovanni Ricciardi, contou com o apoio da Associação Promotora do Museu do Neo-realismo. Nunca será demais realçar o trabalho notável de António Mota Redol e dos seus pares, no apoio e divulgação do património legado ao País pelos autores desse que foi o mais duradouro e importante movimento cultural e progressista do nosso século XX.
Soeiro Pereira Gomes, a obra e o homem, merece este livro, este biógrafo, e que dele façamos proveitosa e atenta leitura. Relembremos com ele um autor que trouxe para a escrita um sentido superior, ético e interventivo. Um dos autores que colocou a Engrenagem da indignação em marcha para que os putos dos telhais não mais passassem fome, frio e ultrajes: fossem apenas crianças a brincar e a crescer livres.
Soeiro Pereira Gomes – Uma Biografia Literária, de Giovanni Ricciardi – Edição Página a Página