Luís Varatojo apresenta «Luta Livre» na Festa do Avante!

ESPECTÁCULOS «A política está em todo o lado, tudo o que fazemos é política, se tivermos essa consciência seremos muito mais fortes», afirmou, ao órgão central do PCP, Luís Varatojo, produtor do projecto Luta Livre, que actua ao vivo, pela primeira vez, na Festa do Avante!.

A Festa do Avante! tem sido um exemplo no apoio à Cultura nacional

O que é a Luta Livre?
Quando pensei neste nome fiz uma pesquisa na net para ver o que havia e apanhei estas designações: Os gregos diziam que a Luta Livre era uma excelente forma de desenvolver a destreza física e mental. No século XX a Luta Livre ganha uma nova vida e aparece também como um espectáculo, de luta, claro, onde, basicamente, vale tudo.

Acho que estas duas frases definem muito bem aquilo que gostava que fosse este projecto. Precisava de criar um espaço de intervenção onde pudesse experimentar escrever e compor sem qualquer tipo de constrangimentos – falar abertamente de política e fazer música sem estar preso a uma fórmula específica.

Este projecto, como aliás outros em que estiveste envolvido, lança um olhar crítico e mordaz sobre o mundo. A canção «Política» é particularmente assertiva, é um verdadeiro apelo à organização colectiva em tempo em que o individualismo e o empreendedorismo estão «na moda»…
O refrão é claro: As classes dominantes têm horror aos colectivos. Existe uma tendência no pensamento dominante cujo objectivo é desinformar e afastar as pessoas da política. Isto interessa, obviamente, a quem controla, a quem tem o poder, a quem precisa de dividir para reinar – ao reitor, que dirige a universidade de forma autoritária, não interessa que os estudantes se organizem em associações; ao poder político hegemónico não interessa que os cidadãos se informem e votem em consciência; às grandes empresas, que sonegam os direitos aos seus trabalhadores, não interessa que estes se organizem em sindicatos.

A política está em todo o lado, tudo o que fazemos é política, se tivermos essa consciência seremos muito mais fortes.

Este projecto nasce num período que para muitos artistas não terá sido particularmente fértil, mas no caso da Luta Livre claramente não foi assim… Em que medida esta situação poderá ter funcionado como gatilho?
Já andava a trabalhar nestas músicas e nestes textos há algum tempo. O primeiro tema, «Política», saiu ainda antes da chegada da pandemia a Portugal, mas a quarentena deu-me, efectivamente, mais tempo para desenvolver o trabalho e permitiu-me ir acabando os temas a um ritmo que não seria possível numa situação de normalidade. Também é verdade que esta situação anómala, ao expor ainda mais determinadas questões político-sociais – iniquidade, desinformação, ambiente, entre outras –, me deu uma dose de energia extra para desenvolver as canções que estavam em andamento e umas quantas ideias novas para futuros temas.

O sector da Cultura sofreu particularmente com a epidemia. De que forma isto destapou a fragilidade das políticas culturais em Portugal?
Nunca me apercebi que houvesse uma política cultural em Portugal. O que vi mais perto disso foi a recuperação e construção da rede de teatros e auditórios em meados dos anos 90. Foi um bom programa, mas acabou por ficar a meio, pois o plano contemplou unicamente a construção desses equipamentos, deixando de fora a manutenção e a programação. Ainda assim, na realidade que conheço, têm sido as autarquias, e não o Estado Central, a assumir essa política cultural.

A paragem forçada da Cultura veio revelar a extrema fragilidade do meio – a inexistência de um estatuto do artista, a completa desprotecção social de artistas, técnicos, produtores e organizações, e, no geral, a precariedade de todo este sector.

Em que medida a Festa do Avante! poderá contribuir para apoiar criadores, artistas e demais trabalhadores da cultura?
A Festa do Avante! tem sido um exemplo no apoio à Cultura nacional. A programação foi sempre maioritariamente portuguesa – aliás, é dos poucos eventos de massas em que os cabeças de cartaz são artistas portugueses – e eclética, apostando na diversidade e na qualidade, não se regendo por critérios elitistas e, ou, populistas.

Que esperar de uma actuação nestas condições? Que relação com o público?
É certo que um espectáculo vive da interacção com o público, e que as pessoas se sentem mais envolvidas quando estão juntas, mas acho que há uma grande capacidade de adaptação e uma imensa vontade de voltar a participar em celebrações colectivas. Isto vai fazer com que, mesmo com menos gente por metro quadrado, os espectáculos sejam vividos intensamente. Vai ser, de certeza, muito emotivo. Ainda por cima é a primeira vez que a Luta Livre sobe ao palco.



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