Egipto ameaça intervir na Líbia
Agrava-se a situação na Líbia, tornando-se mais visível a continuada e múltipla ingerência estrangeira no país norte-africano.
Agora é o Egipto que ameaça intervir no conflito. O presidente Abdel Fattah al-Sissi avisou que a ofensiva das forças do Governo de União Nacional (GUN), reconhecido pela ONU e apoiado pela Turquia, sobre a cidade líbia de Syrte, poderá provocar a intervenção «directa» do Cairo.
Apoiadas por Ankara – com equipamento e combatentes – as milícias leais ao GUN (com sede em Trípoli) alcançaram nas últimas semanas sucessivas vitórias, retomando o completo controlo da capital e da zona Noroeste da Líbia. As tropas do marechal Khalifa Haftar, homem forte da região da Cirenaica, apoiado pelo Egipto, que lançaram em Abril de 2019 uma ofensiva sobre Trípoli, recuam no terreno, embora continuem a controlar Syrte, nó estratégico entre o Oeste e o Leste e de acesso aos campos petrolíferos do país.
Para o presidente egípcio, Syrte, assim como Al-Joufra, mais a Sul, representam «uma linha vermelha». Num discurso pela televisão, no dia 20, al-Sissi advertiu que se essa linha for atravessada pelas forças do GUN, a segurança do Egipto, que faz fronteira com a Líbia, implicará «uma intervenção directa» das forças egípcias no país vizinho. E justificou: «Toda a intervenção directa do Egipto tornou-se legítima a nível internacional, quer face à Carta das Nações Unidas, quer assente na única autoridade legítima eleita pelo povo líbio, o parlamento», sediado em Tobruk, no Leste, e apoiante de Haftar. «Se o povo líbio nos pedir para intervir, é um sinal enviado ao mundo de que o Egipto e a Líbia partilham (…) interesses comuns, a segurança e a estabilidade», afirmou.
Para o GUN, a posição egípcia representa uma ingerência nos assuntos internos e uma ameaça grave à segurança nacional da Líbia e à paz na região.
No plano internacional, multiplicam-se declarações dos diferentes intervenientes na Líbia.
A Turquia exigiu a retirada das forças de Haftar de Syrte e de Al-Joufra como condição prévia a qualquer cessar-fogo. Ankara e os seus aliados do GUN têm recusado propostas de tréguas, incluindo uma iniciativa de paz apresentada pelo Egipto, que mereceu o apoio da Rússia, dos Estados Unidos e de vários países árabes e que prevê o cessar-fogo em todo o território, a retirada das forças estrangeiras e o desarme das milícias.
Por outro lado, Turquia e França, dois membros da NATO, trocam acusações: Ankara diz que o governo francês apoia «um chefe de guerra ilegítimo» (Haftar) e Paris considera que a ingerência turca mina qualquer esforço de tréguas na Líbia.
Os Emiratos Árabes Unidos e a Arábia Saudita, entretanto, anunciaram apoiar o Egipto «quanto ao seu direito de defender as suas fronteiras e o seu povo contra o extremismo, as milícias terroristas e os seus suportes na região».
Noutra frente diplomática, o chefe do GUN, Fayez al-Serraj, encontrou-se no dia 20, em Argel, com o presidente Abdelmadjid Tebboune, que procura levar a Argélia a desempenhar um papel de mediador no dossier da Líbia.
A Rússia, outro actor importante no cenário líbio, reafirmou esta semana que descarta uma solução militar para o conflito e, através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguéi Lavrov, instou as partes envolvidas a um cessar imediato das hostilidades e ao início de um processo de negociação.