Greve nos CTT alarga objectivos

EXIGÊNCIA Uma adesão superior a 70 por cento, dia 29, mostrou a generalizada recusa do cartão de refeição e a determinação de prosseguir a luta por melhores condições laborais e aumentos de salários.

Elogios patronais aos trabalhadores traduziram-se em novos ataques

Ao final da tarde de sexta-feira, dia 29, numa nota assinada pelo seu Secretário-geral, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações colocava nos 70 por cento a adesão média à greve no Grupo CTT.

«Os trabalhadores dos CTT demonstraram hoje, de forma clara, que estão dispostos a continuar a luta contra a prepotência da administração, contra o cartão de refeição, contra o congelamento dos salários, pela melhoria das condições de trabalho e pela admissão de mais trabalhadores efectivos, de modo a prestar um serviço de qualidade», afirmava-se no documento, realçando que, «apesar de toda a coacção, intimidação e campanha de desinformação, os trabalhadores deram uma resposta clara e inequívoca e afirmaram estar dispostos a continuar a luta».

Na segunda-feira, ao Avante!, o Secretário-geral do SNTCT adiantou que «já estamos a mobilizar para a greve de dia 12», porque «a greve no dia 29 correu bem, mas para a empresa é como se não tivesse acontecido». Victor Narciso explicou ainda como surgiu um ponto novo, no pré-aviso para o segundo dia de greve.

Para a paralisação na passada sexta-feira, o motivo principal foi a imposição do cartão de refeição, como meio de pagamento do subsídio de alimentação, sem negociação com os representantes dos trabalhadores e sem ter em consideração a importância de os trabalhadores continuarem a ter na sua conta bancária, junto com o vencimento, estes cerca de 190 euros mensais.

O dinheiro, no sistema imposto pela administração, fica disponível num cartão do Banco Santander que só pode ser utilizado em alguns estabelecimentos.

Como referiram a Comissão de Trabalhadores dos CTT e os dez sindicatos que contestaram a medida (nove dos quais convocaram as greves de 29 de Maio e 12 de Junho), a administração quer deixar de pagar um milhão e 900 mil euros à Segurança Social – um corte que os trabalhadores verão reflectido no valor de pensões, subsídios de doença e outras prestações sociais.

O cartão
e «o resto»

Nos plenários e contactos, durante a mobilização para a greve, «os trabalhadores diziam-nos “o cartão, a gente não o quer” e falavam no “resto”, que é toda a situação que se vive no Grupo CTT», contou-nos Victor Narciso.

«Por isso, evoluímos nas reivindicações» e isto também se reflectiu na formalização da convocação da greve de dia 12. No pré-aviso foi incluído, entre os motivos para realizar a luta, um ponto onde se resume aquele «resto»: os CTT não admitem trabalhadores para substituir os que vão de férias, pressionam para que o período de féria seja alterado, mudam horários de trabalho sem aviso prévio, deslocam trabalhadores diariamente, descuidam a limpeza e higienização dos locais de trabalho e meios de transporte e descuram a disponibilização de meios de protecção.

Estão também marcadas greves parciais, em mais de duas dezenas de locais de trabalho, por motivos próprios que acrescem às razões comuns. Em geral, adiantou o dirigente, são paralisações por uma semana, no segundo período de trabalho, como a que começou na segunda-feira, dia 1, no Centro de Distribuição Postal do Cacém (Sintra).

Já no comunicado conjunto, que os dez sindicatos (subscritores do Acordo de Empresa dos CTT) difundiram na antevéspera da greve, salientava-se que «não estamos todos no mesmo barco» e que, só com «insistência e denúncia», a empresa decidiu «gastar uns míseros milhares de euros, para suprir a necessidade de equipamentos de protecção individual» ou «para que umas centenas de trabalhadores fossem confinados».

Os sindicatos também protestaram por os CTT não terem ainda respondido à proposta salarial, entregue a 5 de Março. Além de desrespeitar uma obrigação legal, a administração desmente assim os elogios públicos aos trabalhadores.

Victor Narciso revelou-nos que, perante este atraso de três meses, «comunicámos hoje [dia 1] que, se a contraproposta não chegar nos próximos dois dias, vamos pedir a passagem da negociação salarial à fase de conciliação», na DGERT (Ministério do Trabalho).

«Também se mantém plenamente actual a nossa exigência de renacionalização dos CTT», e «esta será uma das questões que vamos abordar na reunião que pedimos ao ministro das Infra-estruturas e que foi marcada para sexta-feira, dia 5, à tarde».

 

Adesão muito forte
desde a primeira hora

Em Lisboa (Cabo Ruivo) – onde estiveram, no início da greve, a Secretária-geral da CGTP-IN, Isabel Camarinha, o coordenador da Fectrans, José Manuel Oliveira, outros dirigentes sindicais, e onde Bruno Dias, deputado do PCP, expressou solidariedade e apoio à luta – no turno da noite do Centro de Produção e Logística do Sul, registou-se a adesão à greve de 92 dos 100 trabalhadores. No Centro de Distribuição Postal 1800-1900, que também ali funciona, a adesão foi de quase 90 por cento.
Nas instalações do CTT Expresso, no MARL, a adesão foi de 91 por cento, de acordo com as informações que o SNTCT foi divulgando ao longo da madrugada.