Dia de ser bom

Correia da Fonseca

Acon­teceu uma vez mais: há poucos dias, a te­le­visão voltou a ins­talar câ­maras e mi­cro­fones à saída de su­per­mer­cados para fazer a co­ber­tura das dá­divas em gé­neros que as pes­soas de bom co­ração des­tinam aos cha­mados ca­ren­ci­ados. É uma prá­tica que ocorre uma ou duas vezes por ano, talvez um pouco mais, e ao mo­bi­lizar som e imagem para nos in­formar dela a te­le­visão pa­rece querer dar-nos tes­te­munho de que os por­tu­gueses são ca­ri­dosos, em­bora esta qua­li­fi­cação seja subs­ti­tuída pela pa­lavra «so­li­dá­rios», mais con­forme à mo­déstia de quem dá e à sen­si­bi­li­dade de quem re­cebe. Era, pois, mais um dia de ser bom pelo menos nos su­per­mer­cados, e para al­guns terá sido re­con­for­tante po­derem con­firmar, graças à TV, que há mais gente boa e ca­ri­dosa do que por vezes é su­posto. É já ge­ne­ra­li­za­da­mente sa­bido que a ini­ci­a­tiva tem uma res­pon­sável: uma se­nhora sem dú­vida mo­vida por um sen­ti­mento de com­paixão re­la­ti­va­mente aos que não se dirá serem seus se­me­lhantes porque entre ela, se­nhora ca­ri­dosa, e eles, mul­tidão de ca­ren­ci­ados, há uma di­fe­rença subs­tan­ci­a­lís­sima que é fácil de adi­vi­nhar. Quanto ao seu nome, que aliás a te­le­visão não es­conde, mais va­lerá talvez que aqui seja omi­tido, assim se indo ao en­contro da sua pro­vável mo­déstia.

Uma per­gunta

É pro­vável que a breve re­por­tagem tenha tra­zido re­con­forto aos que sa­bo­reiam as cha­madas «boas ac­ções». In­fe­liz­mente, porém, pe­rante ela era ine­vi­tável lem­brar a sua triste con­tra­par­tida: a exis­tência de mi­lhares de des­ti­na­tá­rios das dá­divas que a TV ia re­gis­tando, mi­lhares de ci­da­dãos tão por­tu­gueses quanto os ci­da­dãos da­di­vosos. Víamos o des­file de al­guns carros de com­pras, ou­víamos a in­for­mação de que pelo menos uma parte da­queles bens ali­men­tares se des­ti­naria a quem deles muito pre­cisa, o que aliás nem sus­ci­taria dú­vidas, mas fi­cava por aí o acom­pa­nha­mento do seu tra­jecto. Era o final abrupto de uma quase im­plí­cita nar­ra­tiva: fal­tava que nos fosse dito com ade­quado por­menor, e também por­ven­tura com ade­quada co­ragem, como é o «país» ha­bi­tado pelos que iriam re­ceber aquelas con­servas, aqueles pa­cotes de massas, aquelas (mais raras) frutas. Faltou que nos fosse dito quantos são, como vivem, onde tra­ba­lham (se con­se­guem tra­ba­lhar), como são re­mu­ne­rados. Di­zendo-o de um modo su­mário: faltou que nos fosse dito que «país» é o des­ti­na­tário da­quela pe­cu­liar «ex­por­tação»; como é, quem o ha­bita. Porque é sem dú­vida bo­nito as­sistir ao des­file de carros de com­pras car­re­ga­di­nhos de dá­divas a dis­tri­buir. Mas não seria de­certo igual­mente «bo­nito» que vís­semos como vivem, isto é, como so­bre­vivem, os be­ne­fi­ciá­rios da­quele «dia de ser bom» ao longo de todos os res­tantes dias do ano. E emerge uma per­gunta: não ha­verá outra ma­neira de ser bom?




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