«São os valores de Abril que podem iluminar o caminho de Portugal»
REVOLUÇÃO «Mais do que nunca é preciso, nestes tempos inquietantes, seguir no trilho que Abril abriu», afirmou Jerónimo de Sousa na AR, onde reafirmou que os «direitos não podem ficar em quarentena».
Que viva Abril sempre, agora mais que nunca
A defesa da perenidade dos valores de Abril e a rejeição da ideia de que a resposta às dificuldades actuais geradas pela COVID-19 possa traduzir-se em regressão na vida dos trabalhadores e do povo foram dois pontos que estruturaram o discurso do Secretário-geral do PCP na Sessão Solene com a qual a Assembleia da República comemorou o 46.º aniversário da Revolução do 25 de Abril.
Com um figurino ajustado à contingência imposta pela pandemia – presença de apenas 46 deputados e um reduzido número de convidados e de altas figuras do Estado -, mas com a solenidade e dignidade de sempre, na sessão, onde dominou o vermelho dos cravos, além dos partidos, intervieram o presidente da Assembleia da República e o Presidente da República.
Marcelo Rebelo de Sousa, a encerrar o acto solene, considerou-o «um bom e não um mau exemplo» e disse que seria «verdadeiramente incompreensível e civicamente vergonhoso» a AR «demitir-se de exercer todos os seus poderes».
Por seu lado, Eduardo Ferro Rodrigues, aludindo às críticas às comemorações na AR, defendeu que, «independentemente de circunstâncias, mesmo as mais extraordinárias, mesmo em estado de emergência como o que vivemos, a democracia e o Parlamento dizem presente».
Estas e muitas outras razões adicionais para «viver e celebrar» o 25 de Abril encontrou Jerónimo de Sousa, para quem se há momento em que o mesmo «não pode ser apagado é este, para confirmar e reclamar a importância do seu projecto libertador e a actualidade dos seus valores e dos seus ideais de liberdade, emancipação social e nacional».
«Sim, impunha-se estar aqui, para exaltar a determinação do nosso povo que ama a liberdade e a reconquistou», para celebrar «um tempo novo, em ruptura com um passado fascista opressor e obscurantista que hoje alguns vestindo novas e dissimuladas vestes pretendem branquear, denegrindo Abril», sublinhou o líder comunista.
Projecto galvanizador
Uma Revolução que «quis ir longe no quebrar das muitas grilhetas de opressões seculares e da exploração» e que entre as suas opções e conquistas criou esse «bem precioso que hoje tanto valorizamos e que o surto epidémico tem mostrado indispensável - o nosso Serviço Nacional de Saúde que precisamos de valorizar e reforçar», destacou o dirigente máximo do PCP, que não se esqueceu de outras opções fundamentais que têm a marca de Abril, como a valorização do trabalho e dos trabalhadores, a consagração do direito à educação, à segurança social e à cultura.
E falando ainda da actualidade dos valores de Abril, sustentou que são estes que «podem iluminar o caminho» ao nosso País para um futuro de progresso e justiça social: «Os valores da liberdade, da democracia, da natureza do Estado concebido para responder aos interesses e necessidades do povo e do País, em oposição à concepção do Estado, instrumento para servir o capital e a exploração».
Não às velhas receitas
Detendo-se numa olhar sobre os «tempos difíceis» que vivemos, Jerónimo de Sousa não poupou na crítica aos que ainda «há pouco diziam que vivíamos acima das nossas possibilidades», acusando-os de estarem de volta com o empolamento de «dificuldades reais», com as suas «velhas receitas agigantando catastróficos cenários, para justificar o aprofundamento da exploração».
«Ei-los ensaiando o discurso da inevitabilidade do corte dos salários, das pensões e dos direitos e a pensar manter intocáveis os seus instrumentos de exploração», prosseguiu, deixando lavrada a sua mais firme rejeição a tais intentos.
«Não o podemos aceitar!», insistiu, defendendo que «não é inevitável que o surto epidémico se traduza em regressão na vida dos trabalhadores e povo», e que a resposta às dificuldades, contrariamente, passa é pela valorização dos salários e por políticas dirigidas à defesa e criação do emprego.
Contestada por Jerónimo de Sousa foi também a ideia de que «estamos todos no mesmo barco». «Não, os portugueses não estão todos nas mesmas condições, não estão os que permanecem de cofres cheios e os que empobrecem trabalhando e se endividam», que «estão em lay-off e no desemprego», argumentou o Secretário-geral do PCP, não vendo qualquer semelhança entre os que «continuam a colocar milhões na Holanda e nos offshore para fugir ao fisco e aqueles que vão passando de emprego precário em emprego precário e sem meios de vida».
Por fim, numa expressão de confiança e apontando o rumo, Jerónimo de Sousa afirmou que perante a comprovada «falácia do discurso da diabolização do Estado e do investimento público», este é o tempo de «reconhecer que o caminho se faz cumprindo a Constituição da República» e não agindo «contra ela», de «modernizar e diversificar as actividades económicas», de «recuperar para o País o que nunca devia ter sido privatizado».
«Precisamos de concretizar Abril e celebrá-lo pensando no Maio de quem trabalha, que saudamos», enfatizou Jerónimo de Sousa, que concluiu: «Sim, que viva Abril sempre, agora mais que nunca!».