Hoje como há 70 anos: pôr fim às armas nucleares
MEMÓRIA Há precisamente 70 anos, o movimento mundial da paz então em formação lançou o Apelo de Estocolmo, pela proibição das armas atómicas. As centenas de milhões de assinaturas recolhidas em todo o mundo foram um contributo significativo para travar os ímpetos mais agressivos do imperialismo. As exigências que o motivaram mantêm hoje flagrante actualidade.
O Apelo de Estocolmo mostra o profundo anseio dos povos pela Paz
Exigimos a interdição absoluta da arma atómica, arma de terror e de extermínio em massa de populações.
Exigimos o estabelecimento de um vigoroso controlo internacional para a aplicação dessa medida de interdição.
Consideramos que o governo que primeiro utilizar a arma atómica, não importa contra que país, cometerá um crime contra a humanidade e será tratado como criminoso de guerra.
Pedimos a todos os homens de boa vontade no mundo inteiro que assinem este apelo.
Apelo de Estocolmo, Março de 1950
Quando, em Março de 1950, fol ançadoi o Apelo de Estocolmo pelo Comité Mundial dos Partidários da Paz, a Humanidade temia que uma nova guerra pudesse deflagrar a qualquer momento. O que, na Era Nuclear aberta pelos EUA com os criminosas bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui nesse trágico Agosto de 1945, teria seguramente consequências devastadoras.
As razões para tal receio não eram, de todo, infundadas. A derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial e o papel preponderante que nela assumiram a União Soviética, os partidos comunistas e as forças de resistência popular motivaram um imparável movimento libertador, ameaçando o domínio mundial do imperialismo: novos direitos (políticos, económicos, sociais e culturais) foram conquistados pelos trabalhadores e os povos; vários povos conquistaram a sua independência nacional e romperam seculares cadeias que os prendiam às grandes potências colonizadoras ocidentais; partidos comunistas e forças progressistas mobilizavam amplas massas e encontravam-se à frente dos destinos de diversos Estados.
Foi precisamente para travar este imparável avanço democrático e progressista que os EUA e o Reino Unido cedo puseram fim à aliança com a União Soviética, que se mantinha (não sem tensões, é certo) pelo menos desde 1944, substituindo-a por uma lógica de confrontação, que passou à História como aGuerra Fria. O objectivo proclamado era conter e repelir o comunismo (como então se chamou a toda e qualquer aspiração de liberdade, democracia e progresso), mas o verdadeiro propósito era o domínio planetário do imperialismo norte-americano, apostado em manter e alargar a supremacia económica alcançada durante o conflito.
Para travar esta Guerra Fria, o imperialismo norte-americano muniu-se de diversos instrumentos políticos, económicos e militares. A Doutrina Truman deu cobertura ideológica ao expansionismo norte-americano; o Plano Marshall submeteu a economia da Europa ocidental, contribuindo ao mesmo tempo para afastar os comunistas do poder em países como França ou Itália; a NATO deu cobertura à instalação permanente de milhares de militares norte-americanos na Europa (onde ainda hoje permanecem), ameaçando a União Soviética e o campo socialista e subalternizando e subjugando política e militarmente os estados membros da própria aliança.
A fechar este ciclo estava a arma nuclear, de que os EUA foram os únicos detentores até 1949, mantendo desde então, e durante algum tempo, uma considerável superioridade a este nível. A ameaça de recurso à arma nuclear marcou a política externa norte-americana neste período particularmente tenso da história recente, sobretudo no Leste da Europa e no Extremo Oriente, nomeadamente em torno de Berlim, da URSS, da China e da Coreia.
Tomar o futuro nas mãos
Ao mesmo tempo que o imperialismo parecia apostado em conduzir a Humanidade para um novo conflito mundial, as forças da paz e do progresso de todo o mundo procuravam travar-lhe o passo. O movimento da paz, à medida que surgia como protagonista de primeiro plano em diversos países, organiza-se à escala internacional: em Agosto de 1948, na Polónia, realiza-se o Congresso Mundial dos Intelectuais pela Paz e em Abril do ano seguinte, simultaneamente em Paris e Praga, o Primeiro Congresso Mundial dos Partidários da Paz, com milhares de participantes de dezenas de países.
Deste último congresso emanou o Comité Permanente dos Partidários da Paz, núcleo dinamizador do movimento, presidido pelo reputado cientista e resistente antifascista francês Frédéric Joliot-Curie. Só no final de 1950 é que foi constituído, num novo congresso realizado na Polónia, o Conselho Mundial da Paz: integraram-no, então, 221 elementos de diversas nacionalidades e diferentes posicionamentos político-ideológicos.
Se o Apelo de Estocolmo resultou da criação deste movimento de âmbito internacional, foi ao mesmo tempo indispensável para a sua afirmação e desenvolvimento. A recolha de assinaturas pela proibição das armas nucleares acompanhou e ajudou a criar em vários países movimentos vocacionados para a defesa da paz.
Para além da sua inegável oportunidade e do envolvimento, na recolha de assinaturas, de diversas organizações políticas, sindicais e sociais e amplos sectores sociais, o Apelo de Estocolmo – como, de resto, o próprio movimento da paz – mobilizou alguns dos mais destacados intelectuais e artistas daquele tempo. Entre os seus subscritores encontramos, para além de Frédéric e Iréne Joliot-Curie, os pintores Pablo Picasso, Henri Matisse e Marc Chagall, os poetas Pablo Neruda e Louis Aragon, o compositor Dmitri Shostakovich, o maestro Leonard Bernstein, o cantor Paul Robeson, o dramaturgo George Bernard Shaw, a actriz Simone Signoret, o escritor Thomas Mann, assim como os portugueses Manuel Valadares, Maria Lamas, Ruy Luís Gomes,entre muitos outros.
O Apelo de Estocolmo desencadeou uma impressionante acção de massas à escala planetária, tendo sido subscrito por muitos milhões de pessoas. A proibição da arma atómica tornava-se assim numa exigência mundial: o imperialismo, isolado pela opinião pública, viu-se forçado a refrear os seus ímpetos mais agressivos. Particularmente simbólico foi o afastamento, em Abril de 1951, do general Douglas McArthur da liderança das forças norte-americanas na Coreia. Pouco antes, admitira abertamente a possibilidade de levar a cabo ataques nucleares na Coreia, China e União Soviética.
A mobilização não esmoreceu e, nos anos seguintes, muitas outras vitórias foram alcançadas pelas forças da paz e do progresso social.
Perigos e potencialidades
Evocar hoje os 70 anos do Apelo de Estocolmo não é apenas um dever de memória, mas um imperativo do nosso tempo. Numa situação diferente daquela que se vivia no início da década de 1950 – são diversas as circunstâncias, as perspectivas de evolução, a correlação de forças –, também hoje o imperialismo aposta nacorrida armamentista e na guerra; tal como há sete décadas, urge mobilizar os povos e unir amplos sectores sociais contra a guerra, pela paz, o desarmamento e a solidariedade.
Por mais que os grandes órgãos de comunicação social o procurem esconder, a actual ofensiva imperialista expressa-se na multiplicação de guerras e conflitos; na proliferação de largas centenas de bases militares, assim como frotas navais em vários pontos do mundo, sobretudo em redor da Rússia e da China; em manobras de ingerência e chantagem contra países soberanos; no saque de recursos naturais e energéticos; na militarização das relações internacionais e do Cosmos; em crescentes gastos militares e no desenvolvimento de novas e mais destruidoras armas.
Nos últimos anos, os EUA abandonaram importantes acordos e tratados internacionais destinados a limitar a proliferação de armamentos, incluindo nucleares. Ao mesmo tempo que aumentam ano após anos as suas extraordinárias despesas militares e canalizam impressionantes meios financeiros para modernizar o seu arsenal nuclear. Na sua doutrina nuclear, assumem a possibilidade de utilização deste tipo de armamento contra qualquer país, no que são acompanhados pela NATO.
Importa ter presente que os actuais arsenais nucleares são muito maiores e mais poderosos do que os existentes nessa já distante década de 50 do século XX. Estima-se que existam cerca de 15 mil ogivas nucleares, grande parte delas com um poder destrutivo muitas vezes superiores às bombas que incineraram Hiroxima e Nagasáqui. A utilização de uma pequena parte delas poria em causa a sobrevivência da vida na Terra.
Mas se há algo que a campanha do Apelo de Estocolmo nos recorda é que cabe aos povos determinar o seu próprio futuro e que não há força suficientemente poderosa para travar os povos em movimento pela paz, o progresso e a justiça social.
Esclarecimento,
organização e luta
O movimento da paz, em cada um dos países e à escala internacional, tem uma vez mais sobre os seus ombros uma enorme responsabilidade. Cabe-lhe, como a outras forças progressistas, a denúncia das guerras e das suas verdadeiras causas, o reforço da solidariedade aos povos vítimas de agressão do imperialismo, a dinamização de campanhas em prol do desanuviamento e do desarmamento.
Nos últimos anos, o movimento da paz mobilizou-se em defesa do Tratado de Proibição de Armas Nucleares (TPAN), negociado em 2017 por 122 países participantes numa conferência das Nações Unidas. Este entrará em vigor assim que 50 estados o ratifiquem: até ao momento, fizeram-no 35!
Logo em 2017, o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) lançou uma petição pela adesão de Portugal ao tratado, que recolheu mais de 13 mil assinaturas. Na Assembleia da República, PS, PSD e CDS rejeitaram todos os projectosque apontavam nesse sentido – nomeadamente o do PCP –, optando por manter o País amarrado aos compromissos com a NATO, que não só rejeita o TPAN como tudo faz para o boicotar. Entretanto, o CPPC anunciou já, para breve, o lançamento de uma nova petição com o mesmo objectivo, dinamizada em conjunto com outras organizações sociais.
Por estes dias, e por iniciativa do CPPC, as organizações da Europa membros do Conselho Mundial da Paz evocaram o 70.º aniversário do Apelo de Estocolmo, exigindo: «defesa e restauração de acordos e tratados destinados a contenção e desarmamento nucleares; rejeição de uma nova escalada armamentista, incluindo a instalação pelos EUA de quaisquer outras armas nucleares na Europa; assinatura e ratificação do Tratado de Proibição de Armas Nucleares, como um passo importante para a protecção da paz e segurança.»
O reforço do movimento da paz, o seu enraizamento junto dos povos dos diversos países, a sua capacidade de alargamento unitário a vários sectores sociais, posicionamentospolíticas e crenças religiosas e cooperação com organizações sociais de âmbito diverso são questões determinantes para o êxito desta luta decisiva.
O mundo como bomba relógio
Segundo a Federação de Cientistas Americanos, há mais de 14 mil ogivas nucleares no mundo, 2000 das quais se encontram em estado de alerta máximo, ou seja, prontas a serem mobilizadas em poucos minutos.
Cerca de 13 mil dividem-se pelos Estados Unidos e Federação Russa, sendo que os primeiros para além de terem adoptado a doutrina ofensiva de ‘primeiro ataque nuclear’, têm muitas delas em bases militares, frotas navais e submarinos nucleares em todo o mundo. As restantes estão na posse do Reino Unido (215), França (300), China (290), Índia (140), Paquistão (150), Israel (80) e República Popular Democrática da Coreia (25).
Na Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia estão estacionadas armas nucleares dos EUA e dezenas de outros países – Portugal é um deles – pertencem a alianças militares com capacidade e «vocação» nuclear, como a NATO.
Pela dimensão e potência dos actuais arsenais nucleares, uma guerra nuclear poria em risco a vida na Terra: para lá da acção destrutiva directa das explosões e dos efeitos prolongados da radiação, as alterações meteorológicas associadas ao chamado Inverno Nuclear levariam a maior parte dos seres humanos e outras espécies a sucumbir.
Um conflito entre potências nucleares pode eclodir por acidente, por erro de sistemas de alerta precoce, que já se verificaram no passado, ou por determinadas decisões assumidas por um estado detentor de armas nucleares. Só o desmantelamento dos arsenais nucleares pode verdadeiramente impedir que este tipo de armamento seja novamente utilizado.