Petição contra museu Salazar entregue na Assembleia da República
POLÍTICA Com 11 154 assinaturas, na sexta-feira foi entregue uma petição, promovida pela União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), contra um museu dedicado ao ditador Salazar, em Santa Comba Dão.
A petição da URAP será discutida na Assembleia da República
Recebido pelo vice-presidente da Assembleia da República (AR), António Filipe, o documento foi entregue por Marília Villaverde Cabral, José Pedro Soares, Levy Baptista, dos corpos sociais da URAP, e pelos primeiros subscritores Almirante Martins Guerreiro, António Vilarigues, José Sucena e Madalena Santos.
A petição solicita que a AR tome medidas que impeçam a concretização do museu Salazar, com este ou outro nome, ao abrigo do preâmbulo e do n.º 4 do artigo 46.º da Constituição, que proíbe as organizações que perfilhem a ideologia fascista, bem como da Lei n.º 64/78, de 6 de Outubro.
O documento surge no seguimento da carta subscrita por 204 presos políticos e dirigida ao primeiro ministro e ao presidente da AR, e de um abaixo-assinado com 18 mil assinaturas, visando impedir que «a autarquia de Santa Comba Dão promova a nível nacional a figura do ditador Salazar, visando o branqueamento do fascismo, num tempo em que um pouco por todo o mundo se vê ressurgir o populismo e o fascismo», segundo a URAP.
Ao Avante!, Marília Villaverde Cabral, coordenadora da URAP, referiu que esta é uma luta que se arrasta desde 2007, quando o presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão anunciou a intenção de transformar em museu a casa onde nasceu Salazar, na aldeia do Vimieiro.
Objectivamente, a concretização deste projecto levaria à criação de um «local de romagem» para fascistas, alertou Marília Villaverde Cabral. Como exemplo, recordou que, há cerca de 13 anos, durante uma sessão de esclarecimento promovida pela URAP, apareceram dezenas de pessoas vindas de fora fazendo saudações fascistas e gritando pelo nome de Salazar. A GNR foi chamada a intervir.
A petição, depois de passar pelo gabinete do presidente do Parlamento e verificados os requisitos formais para a sua admissão, baixará à comissão parlamentar competente. Ouvidos os peticionários, a comissão elaborará um relatório sobre o texto passando depois a debate no plenário. «O documento, se for aprovado como esperamos, vai dar uma grande força à nossa luta», acentuou a coordenadora da URAP. Até lá «vamos fazer mais debates e continuar a esclarecer» as pessoas, concluiu.
Homenagem aos tarrafalistas
No sábado, 29, a URAP homenageou os antifascistas que, pelo seu amor à liberdade, foram mortos no Campo de Concentração do Tarrafal. No final da romagem ao Mausoléu dos Tarrafalistas, no Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, interveio Vítor Dias, ex-preso político e membro do Conselho Nacional da URAP, que valorizou a intenção do governo cabo-verdiano, anunciada recentemente, de transformar o Tarrafal num museu da resistência. «Os 32 assassinados no Tarrafal não puderam conhecer o vendaval poderoso, alegre, feliz e entusiasmante da conquista da liberdade em 25 de Abril de 1974, mas, no nosso imaginário e no nosso coração, eles figuram ao lado dos vivos como vencedores neste longo, áspero e sacrificado combate contra a ditadura fascista», afirmou.
Seguiu-se um momento cultural com vozes do Coro Lopes Graça e de Carla Correia, acompanhada à guitarra por Heloisa Monteiro. As canções foram intercaladas com a poesia recitada por Regina Correia. No final, todos os presentes entoaram a «Grândola Vila Morena» e o Hino Nacional.
Para além de uma delegação da JCP, a iniciativa contou com representantes das associações de estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Presentes estiveram também dirigentes da União de Sindicatos de Lisboa/CGTP-IN e da «A Voz do Operário».