• Correia da Fonseca

Um número

Não nos ocupemos hoje do último Prós e Contras, onde um punhado de convidados obviamente sábios discreteou acerca do tempo, esse terrível inimigo que mais cedo ou mais tarde acabará por vencer-nos, e escolhamos um outro tipo de derrotas, as que surgem inesperadamente e talvez também mais cruelmente: as que decorrem de acidentes de trabalho que matam quem espera ter ainda muitos anos de sobrevivência e é colhido precisamente quando está «a fazer pela vida», como é costume dizer. O assunto é-nos trazido pela televisão, como é de regra nesta coluna, pois foi a televisão que nos informou recentemente de que o número de mortes por acidentes de trabalho ocorridos este ano já ascende a oitenta e três, número que naturalmente ainda ameaça crescer até ao próximo dia 31. Este número marcará um sensível aumento relativamente ao correspondente a 2018, o que terá um significado sinistro e preocupante: o de que de então para cá não terão sido adoptadas medidas eficazes para travar essa peculiar hecatombe. E, contudo, bem se pode dizer que todos estávamos avisados: a morte por acidentes de trabalho é um flagelo antigo que bem conhecemos e por isso devia estar em vias de extinção. O número agora divulgado informa-nos de que se está longe disso.

Atropelados

Seria decerto abusivo e injusto responsabilizar generalizadamente o patronato pelo número de cidadãos que morre a trabalhar. Talvez, porém, a televisão e também os outros meios de comunicação social devessem ser mais prolixos quanto a casos destes. Como bem se sabe, quando um sujeito assassina o vizinho ou um marido abandonado mata a mulher que o deixou, a televisão alonga-se, regalada, na busca de pormenores; quando um cidadão morre a trabalhar é como se não tivesse acontecido nada de relevante e significativo ou como se tivesse morrido atropelado no meio do trânsito automóvel. Num certo sentido, talvez em muitos casos se tivesse podido falar de atropelamento: de trabalhadores atropelados pelo descaso de empresários muito preocupados com a redução de despesas de funcionamento, nestas se incluindo as respeitantes à segurança do pessoal, e pouco ou nada com a sobrevivência dos que para eles muitas vezes despendem «muita força por pouco dinheiro», como canta Sérgio Godinho. De qualquer modo, talvez possa dizer-se que é chocante este alinhamento da televisão com a redução à aparente irrelevância da morte de cidadãos em pleno trabalho. Precisamente porque eram cidadãos. Melhor: precisamente porque eram trabalhadores.




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