Marcelo Rebelo de Sousa, sempre lesto na defesa dos interesses do capital, decidiu pronunciar-se, à saída da WebSummit, em Lisboa, sobre a polémica dos voluntários que sustentam aquela iniciativa sem ganhar um tostão por isso, tendo ainda um infindável conjunto de deveres, incluindo o de afirmar que, caso se magoem em serviço, a organização da Cimeira Tecnológica nada tem a ver com isso.
Trata-se de milhares de jovens essenciais ao funcionamento do evento que, durante quatro dias, traz gente de todo o mundo a Lisboa, e que não apenas não recebem o salário devido pelo serviço que prestam, como ainda assinaram um contrato leonino com a organização que se assume como paladina da modernidade, ilibando-a de quaisquer responsabilidades.
Estranha modernidade esta em que um qualquer capitalista reclama apoios de dezenas de milhões de euros para realizar uma iniciativa, exigindo obras nos espaços onde ela terá lugar, que o Estado há-de financiar. E para a concretizar explora milhares de jovens.
Marcelo, que se péla todo por um palco onde possa dizer umas coisas, vem desculpar esta atitude, afirmando que, se tivesse idade, também se oferecia como voluntário. Deve estar com saudades do tempo em que os jovens vinham da província e ajudavam nas vendas de tios e padrinhos, a troco de um prato de sopa e de uma cama no quarto dos fundos, quando não no armazém da mercearia ou da casa de petiscos.
Tal como nesse tempo os jovens adjuvantes não tinham direito a comer do presunto que durante o dia embrulhavam para os fregueses, também agora os jovens voluntários não têm forma de adquirir as t-shirts que vendem por 800€ para encher os bolsos de Paddy, o amigo de Marcelo.
Como naquela altura os pequenos negociantes diziam que isso só fazia bem aos petizes que assim evitavam andar pelas ruas a fazer asneiras e enrijeciam o carácter, também agora há quem diga que é muito bom para o currículo e para a experiência dos jovens.
Modernices...