Defender Abril. Reforçar a convergência antifascista
APELO A acção e a intervenção antifascistas estão a travar uma importantíssima batalha: o combate ao velho objectivo de instalar em Santa Comba Dão um museu ao ditador Salazar e ao regime fascista.
É preciso travar o «Museu Salazar», com esse ou outro nome
No âmbito desta acção, que já se traduziu em importantes iniciativas e tomadas de posição, a União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) está a dinamizar uma petição dirigida à Assembleia da República, já subscrita por milhares de democratas em todo o País, e que pode também ser subscrita online, onde é afirmado o repúdio e a exigência de que se abandone a anunciada criação do «Museu Salazar», com esse ou outro nome..
É necessário derrotar esse projecto e evitar que Santa Comba Dão se transforme num centro de culto, romagem, santuário de saudosistas de Salazar, que veneram o ditador e propagam ideais fascistas.
É bom que se tenha em conta outros exemplos e realidades. Por exemplo, em Itália a localidade de Predappio, terra natal e de sepultura do ditador Mussolini, é destino para concentrações fascistas. Em Espanha, o Vale dos Caídos, onde está sepultado o ditador Franco, transformou-se num local de culto de neofascistas de toda a Europa, o que levou o governo, o parlamento e o Tribunal Supremo de Espanha a convergirem na decisão de exumação dos restos mortais do ditador para outro local.
Quem pensou e concebeu a nova versão do Museu Salazar, agora apelidado de «Centro Interpretativo do Estado Novo»? Dificilmente saberemos. Só conhecemos os novos protagonistas, a apresentação e fundamentação de um projecto que mantém os mesmos objectivos, integrado numa Rede de Centros de Interpretação de História e Memória Política da Primeira República e do Estado Novo.
Este projecto mantém o objectivo essencial de reabilitação do fascismo e da figura de Salazar. Perante a amplitude da indignação já manifestada em 2007 e que seria previsível que surgisse de novo, o objectivo refugia-se numa designação e numa dimensão pretensamente mais ampla, com contornos de investigação e moldura académica. Mas sem se revelar capaz de iludir o móbil principal: o de sediar em Santa Comba Dão um museu a Salazar.
Não há qualquer «isenção»
Perante a contestação, os protagonistas do projecto apresentado interrogam se é conhecida a justificação e o conteúdo do site da Câmara Municipal de Santa Comba Dão. O presidente da edilidade diz pretender-se apresentar «de forma isenta um período da nossa história que teve como figura chave Salazar».
A isto só há uma resposta: não é possível abordar o fascismo de forma isenta. Mas o real objectivo é ainda mais claro, quando se refere como ponto de atracção turística ao Vimieiro, terra natal do ditador, a «Escola-cantina Salazar que merece uma visita atenta», se afirma que «o visitante pode terminar a sua viagem pelo Vimieiro visitando a casa onde nasceu António Oliveira Salazar» (cuja placa refere «Aqui nasceu […] um senhor que governou e nada roubou») ou ainda que quando se sugere a visita ao «cemitério do Vimieiro onde o político se encontra sepultado» (onde as palavras inscritas na lápide da campa, constituem o mais completo branqueamento da ditadura fascista: «Aqui jaz o Homem a quem Portugal mais a dever ficou. Ao País tudo de si deu, do país nada para si tirou» e onde no memorial junto à campa se lê: «O Homem mais poderoso de Portugal no século XX e modesto sem igual. Nasceu humilde e humilde cresceu. E viveu humildemente e humilde morreu. Medíocre é o povo que com ele nada aprendeu»).
Estas proclamações são bem elucidativas da propaganda assente na discriminação e mentira sobre o que foi o fascismo, regime da corrupção organizada, e Salazar, que durante décadas utilizou as estruturas, os maios e os recursos do Estado, em benefício e no favorecimento dos interesses dos grupos económicos que serviu como nenhum outro protagonista político em Portugal, desde os tempos da monarquia.
Não há, nem nunca poderia haver isenção no objectivo que se quer impor.
Os defensores e protagonistas deste projecto dizem-se alvos de juízos de intenção, tentando refugiar-se da opção política que eles próprios defendem. Mas por mais que o tentem ocultar, estamos perante uma luta política, com opções políticas, que não deixa de o ser só porque alguns, que defendem o projecto, consideram «uma idiotice» lutar contra um museu que faz a apologia do fascismo, ou tentam limitar opiniões encerrando o debate numa questão «académica».
Mas contrariamente à sua vontade, são já muitos mil os antifascistas que se envolvem em mais uma batalha de defesa e afirmação do Portugal de Abril, pela verdade histórica e contra o fascismo.
A referência do chamado Estado Novo não dispensa a referência ao regime que lhe corresponde – uma ditadura fascista, em Portugal –, cujas causas, características e resultados para o País, para os portugueses e para os povos das ex-colónias portuguesas têm sido investigados no meio académico e cívico, estando em muitos casos assente em testemunhos vivos de quem sofreu na pele a perseguição, a tortura e a prisão. Entre muitos outros espaços e iniciativas, destacamos o que se expõe através dos museus do Aljube e de Peniche.
A intervenção contra o objectivo colocado para Santa Comba Dão não pode ser acusada de proibicionista do estudo ou negação da História. Pela parte do Partido Comunista Português, reafirmamos, transcrevendo as palavras de Domingos Abrantes, «tem sido uma longa luta, praticamente só travada pelo PCP desde os primeiros dias de Abril, pelo esclarecimento da natureza social (de classe), da política e da ideologia do fascismo e, naturalmente, quem foram os seus responsáveis e beneficiários (os grandes grupos económicos), a razão do fascismo».
Intervenção e luta permanentes
Recordar e denunciar o que foi a ditadura fascista em Portugal é uma exigência e tarefa permanentes, não só para transmitir às novas gerações o que foi a ditadura fascista, mas também para impedir todas as tentativas de branqueamento do fascismo e de promoção de agendas populistas e reaccionárias que tentam fazer esquecer o que foi a longa noite fascista e apresentar como males da democracia as conquistas da Revolução de Abril.
«Na luta das ideias a memória é um factor estruturante. Não é um campo neutro e, por isso, tantos se ocupam de a rasurar, a reescrever, a desrespeitar e a violentar a verdade histórica»1.
A intervenção e a luta antifascistas são permanentes, assim como é permanente e está sempre presente a ideologia e o perigo real do fascismo, que tem causas e raízes na exploração, no capitalismo, no imperialismo. O fascismo nunca está morto, espreita, prepara e aguarda as oportunidades. Esta é a verdade e a certeza comprovada na vida real de vários países, nomeadamente da Europa e da América Latina – lembraremos sempre o Chile.
Não acompanhamos qualquer tranquilidade assente na ideia de que em Portugal será diferente e que «não é possível o regresso ao fascismo». Sublinhar os perigos não é dramatismo, é luta. O fascismo sempre se apresentou e se apresenta com diferentes encenações, mas com os mesmos objectivos, liquidar a democracia e a liberdade.
Seria dispensável lembrar, também, a actual realidade eleitoral em Portugal. O Comité Central do PCP, na sua reunião de 8 de Outubro, no âmbito da análise aos resultados eleitorais e à composição da Assembleia da República, refere-se às novas representações parlamentares de duas forças políticas (Chega e Iniciativa Liberal) associadas aos centros mais reaccionários do capital monopolista, com indisfarçáveis agendas populistas e anti-democráticas.
Não há país nem povo protegidos em qualquer redoma.
O objectivo para Santa Comba Dão sempre tem estado presente, mais ou menos claramente. Seja qual for o contexto, no plano político ou de apresentação deste projecto, é necessário a convergência, a unidade e o envolvimento dos democratas e antifascistas para não permitir a sua concretização.
1Jorge Sarabando in O Militante, nº 314 – Setembro/ Outubro 2011