O primeiro número do Bandeira Vermelha saiu há um século
EVOCAÇÃO Há 100 anos saía à rua o jornal Bandeira Vermelha1, órgão da Federação Maximalista Portuguesa, logo a partir do segundo número denominado de «Semanário Comunista»
O Bandeira Vermelha foi o órgão da Federação Maximalista Portuguesa e, na prática, do PCP nos primeiros meses
O lançamento deste jornal, a 5 de Outubro de 1919, foi o culminar de um ano intenso no movimento operário e revolucionário, que Bento Gonçalves designará como «um ano rico de acontecimentos, de organização e de agitação do movimento operário»2. Às grandes lutas do final de 1918, seguiu-se um intenso movimento reivindicativo da classe operária (o maior desde 1911) e as maiores comemorações do 1.º de Maio realizadas até então no País. No plano da organização do movimento operário, 1919 assiste em Fevereiro à fundação do que virá a ser o jornal operário de maior circulação à época, A Batalha, em Maio, à criação da Federação Maximalista Portuguesa e, em Setembro o 2.º Congresso da União Operária Nacional, realizado em Coimbra, decide a fundação da CGT.
O Bandeira Vermelha nasce neste contexto de intensa actividade e resulta de uma primeira intenção que vai ter o maior destaque em todos os números da primeira fase da sua existência: a divulgação dos feitos e conquistas da Revolução de Outubro, então praticamente desconhecidos dos trabalhadores, o combate à sua deturpação que imperava na generalidade dos jornais da burguesia e até em alguns órgãos do movimento operário e a denúncia da ofensiva das potências imperialistas na Rússia soviética. Nele são divulgados textos clássicos do marxismo e de dirigentes do movimento comunista. A foice e o martelo aparecem no cabeçalho sob a consigna «República Soviética»
A Federação Maximalista Portuguesa, que havia nascido em Maio de 1919, criada por um grupo de destacados dirigentes sindicais, é a primeira organização que, em Portugal, assume a defesa da Revolução de Outubro, ainda que o conhecimento quanto à natureza da revolução, condições em que teve lugar e o papel das diversas forças em presença fosse bastante limitado e – não poucas vezes – deformado. Os seus dirigentes, quadros saídos do sindicalismo libertário, não assumiam, ainda, a ruptura com essa corrente, procurando, inclusive, trazer os anarquistas e os adeptos de outras correntes para um grande conjunto que – ilustrando bem o seu desconhecimento de aspectos fundamentais da realidade russa – denominavam de «bolcheviques», mas, nas palavras de António Peixe, destacado sindicalista, fundador da FMP e posteriormente, do Partido Comunista Português, bastava a Revolução Russa ter provocado «tanto pavor e tanto cagaço nos arraiais burgueses» para que «lhe fosse simpático [o que os bolcheviques] propagassem e defendessem».
Da Federação ao Partido
Estamos, assim, num contexto em que não está ainda clarificado o papel de cada uma das forças em presença no desenvolvimento do movimento operário, em que os limites do sindicalismo como instrumento da luta emancipadora e a questão da intervenção política da classe operária são aspectos ainda nebulosos e a questão do poder não está ainda colocada. Sendo certo que o Bandeira Vermelha deu relevo a discussões sobre a organização do movimento operário, a sua táctica e estratégia, nele surgindo o desafio de criar «uma forte organização extra-sindical de carácter proletário e revolucionário», a Federação Maximalista Portuguesa não é ainda essa organização.
Esse instrumento da classe operária e dos trabalhadores só surgirá, como sabemos, em Março de 1921, mas também já não é uma organização sindical. Enquanto organização, a FMP associou o apoio à luta dos trabalhadores com a intervenção política, constituiu núcleos em vários pontos do País, o que lhe deu expressão nas principais aglomerações operárias e proletárias e foi - apesar das suas debilidades no plano político e ideológico e de um percurso acidentado -, com a audácia, coragem e determinação dos seus membros e dirigentes, capaz de lançar as bases daquele que viria a ser o Partido Comunista Português.
Ao ter este papel inovador, a FMP foi, logo após a sua fundação, um alvo para a burguesia. Todos os seus dirigentes foram perseguidos e presos num determinado momento. As suas reuniões eram vigiadas pela polícia, que procurava amedrontar os seus participantes e limitar a sua intervenção. O próprio Bandeira Vermelha ainda não tinha visto a luz do dia e o seu primeiro número já estava a ser apreendido, ainda na tipografia! A feroz repressão, em particular após a luta dos ferroviários de 1920, intensifica-se. Manuel Ribeiro, secretário-geral da FMP e director do Bandeira Vermelha, ele próprio ferroviário, foi preso. Outros dirigentes foram presos e a sede do Bandeira Vermelha assaltada.
A 12 de Outubro de 1920 o jornal interrompe a sua publicação mas, nesta fase, está já em marcha o trabalho para a criação do Partido Comunista Português e neste mesmo dia teve lugar uma reunião com o objectivo de «criar as bases da remodelação social e (…) criar uma organização política do proletariado inspirada na combinação da acção social e política». Após intensas discussões, a 19 de Dezembro é decidida a criação da «Comissão Organizadora do Trabalho para a Constituição do Partido Comunista Português».
Pouco mais de um mês após o 6 de Março de 1921, data criação do PCP, surge de novo o Bandeira Vermelha, novamente com Manuel Ribeiro como director, quando este era já dirigente do recém criado Partido. Não se apresentando como órgão do Partido vai, na prática, assumir essa função3.
A Declaração de Princípios que o Partido dá a conhecer em Julho de 1921 está longe da teoria marxista e da compreensão do que era um partido de novo tipo leninista4. As dificuldades de assimilação do marxismo-leninismo tinham causas objectivas: uma estrutura empresarial com um enorme peso artesanal, analfabetismo, intelectualidade que se identificava com o movimento operário de formação anarquista e o isolamento do movimento internacional. Mantendo lacunas no plano político e ideológico, em linha com o que se passava no Partido, nesta nova fase do Bandeira Vermelha é apontada a perspectiva da revolução imediata mas assume-se já o distanciamento do anarquismo que, através de um intenso debate, se consumará nos meses e anos seguintes.
O Partido, ainda um «embrião de Partido Comunista», segundo palavras do director do Bandeira Vermelha, dá assim os primeiros passos rumo ao cumprimento do seu papel histórico5
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1Não confundir com o jornal também denominado Bandeira Vermelha, editado pela Federação das Células Comunistas do Porto a partir de Agosto de 1925.
2Bento Gonçalves “Palavras Necessárias”.
3O primeiro órgão do PCP será O Comunista, publicado pela primeira vez em 16 de Outubro de 1921. O seu primeiro director foi, também, Manuel Ribeiro.
4Com avanços e recuos, esta situação só se alterará com Bento Gonçalves e a conferência de Abril de 1929.
5Para aprofundar o tema ver «Bandeira Vermelha» Na defesa de Outubro e na fundação do Partido. Domingos Abrantes, O Militante n.º 347.