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Jorge Cadima

Pelo an­ti­co­mu­nismo se ataca a de­mo­cracia e se abre a porta ao fas­cismo

A ver­go­nhosa re­so­lução apro­vada pela mai­oria do Par­la­mento Eu­ropeu sobre a II Guerra Mun­dial (19.9.19), não é apenas grave pela ten­ta­tiva de re­es­crever e fal­si­ficar a His­tória. É grave por aquilo que re­pre­senta para a ac­tu­a­li­dade e o fu­turo. Apenas oito dias mais tarde, o Mi­nistro da De­fesa da Le­tónia, país da UE, dis­cursou numa ce­ri­mónia co­me­mo­ra­tiva dos le­gi­o­ná­rios le­tões que com­ba­teram du­rante a II Guerra Mun­dial nas fi­leiras das SS – o braço mi­litar do Par­tido Nazi res­pon­sável por muitos dos seus pi­ores crimes, in­cluindo mas­sa­cres como os de Pripyat, Ora­dour, Mar­za­botto, Fosse Ar­de­a­tine. A re­vista in­glesa New Sta­tesman chama às Waffen-SS «a maior má­quina de matar ju­deus da His­tória do mundo» (16.3.12). No seu dis­curso, o Mi­nistro Pa­briks apelou a que «hon­remos os le­gi­o­ná­rios caídos, e que nin­guém des­preze a sua me­mória! Os le­gi­o­ná­rios le­tões são o or­gulho do povo e do Es­tado da Le­tónia» (no­tícia de 27.9.19 na pá­gina ofi­cial do Mi­nis­tério da De­fesa). Na Le­tónia, a quase to­ta­li­dade da po­pu­lação ju­daica foi ex­ter­mi­nada e «uni­dades na­tivas de au­xi­li­ares foram res­pon­sá­veis por muitos dos as­sas­si­natos» (‘O im­pério de Hi­tler’, do his­to­ri­ador in­glês Ma­zower). Muitos le­tões re­cu­saram o co­la­bo­ra­ci­o­nismo e até o com­ba­teram de armas na mão. Mas o Mi­nistro or­gulha-se dos que com­ba­teram a URSS in­te­grados nas SS. Não há no­tícia de que os de­pu­tados no PE que vo­taram a favor da re­so­lução (todos os do PSD, CDS, PAN e – com uma única abs­tenção – do PS) se te­nham in­dig­nado com as pa­la­vras do Mi­nistro.

A re­a­bi­li­tação da pior es­cória fas­cista não é no­vi­dade. Os ve­te­ranos le­tões das le­giões das Waffen-SS e seus ad­mi­ra­dores des­filam todos os anos, desde 1998, nas ruas da ca­pital Riga, tal como su­cede nou­tras re­pú­blicas bál­ticas que in­te­gram a UE. Os mas­sa­cres dos fas­cistas ucra­ni­anos (como o da Casa dos Sin­di­catos de Odessa, 2 Maio 2014) pas­saram na in­di­fe­rença cúm­plice da co­mu­ni­cação so­cial e do poder na UE. O ita­liano Ta­jani, Pre­si­dente do Par­la­mento Eu­ropeu até às elei­ções de Maio pas­sado, de­clarou a uma es­tação de rádio (14.3.19) que «até às leis ra­ciais [1938] e a de­cla­ração de guerra [Junho 1940]» Mus­so­lini tinha feito muitas «coisas po­si­tivas para a Itália». Todos os anos, mo­ções anti-nazis são apro­vadas na ONU, mas com os votos contra dos EUA e a abs­tenção dos países da UE. Os fa­mi­li­ares an­te­pas­sados de muitos dos ac­tuais di­ri­gentes de países de Leste eram fas­cistas – salvos pelos EUA no fim da II GM e tra­zidos de volta pelos EUA há um quarto de Sé­culo.

O cres­cente bran­que­a­mento do nazi-fas­cismo vai de braço dado com a per­se­guição e proi­bição dos co­mu­nistas, as pri­meiras e mai­ores ví­timas dessa forma ex­trema de vi­o­lência ter­ro­rista do ca­pi­ta­lismo que é o fas­cismo. A re­so­lução do PE (no seu con­si­de­rando F e pontos 17 e 18) não só ‘le­gi­tima’ a proi­bição e per­se­guição dos co­mu­nistas e dos seus sím­bolos que há muitos anos ocorre em nu­me­rosos países da UE, como su­gere alargá-la a toda a UE, jun­ta­mente com a en­dou­tri­nação es­colar dos jo­vens. Só quem não quer é que não vê o que se está a passar.

Um ca­pi­ta­lismo in­capaz de sair duma pro­funda crise sis­té­mica, e cujos pólos his­tó­ricos (EUA/​Eu­ropa) vêem es­capar-lhes de mão a he­ge­monia pla­ne­tária a que se ha­bi­tu­aram, res­vala de novo para a ten­tação fas­cista do sé­culo pas­sado. Como sempre, pelo an­ti­co­mu­nismo se ataca a de­mo­cracia e se abre a porta ao fas­cismo. É ur­gente acordar.




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