O Motor

Correia da Fonseca

Em tom de crescente alarme, a televisão está a trazer a nossas casas, isto é, aos nossos olhos e ouvidos, ao nosso provável entendimento, notícias do risco verdadeiramente mortal que a chamada crise ecológica constitui não só para os nossos netos mas já para os nossos filhos. A essa ameaça tem-se tentado dar alguma resposta que, como é sabido, sobretudo se concretizou no Acordo de Paris, mas o que pouco ou nada se sabe, porque quanto a esse ponto nada nos é dito, é qual a força de arranque desse processo que nos ameaça e contra o qual agora se convocam resistências. Fala-se de consequência do desenvolvimento tecnológico sem o contrapeso da reflexão acerca dos seus efeitos mais graves, mas não se explica porque é que esse processo decorre assim, qual é o motor que alimenta essa corrida que ameaça tornar-se suicida. E, contudo, a necessidade de um diagnóstico impõe-se se de facto quisermos travar essa espécie de peculiar doença que, averiguadamente, ameaça causar a médio prazo a extinção das condições de sobrevivência humana.

Da voracidade ao crime

Desenvolvimento tecnológico, pois, mas cego; e a questão que emerge é a de sabermos de onde vem essa cegueira. Em Paris, não há muito tempo, quase duas centenas de países terão apurado alguns motivos do verdadeiro processo de extinção que nos ameaça e desse apuramento avançaram para recomendações quanto ao que é preciso fazer, e fazer com urgência: sabe-se contudo que os Estados Unidos se distanciaram desse consenso, e valerá a pena interrogarmo-nos acerca do significado desse gesto. É sabido que os States são a pátria maior do capitalismo e desse facto nasce uma pista: estará aí, na prática capitalista, uma explicação. Sabemos também que o capitalismo é voraz a diversos níveis e várias dimensões, nem necessitamos de nos afastarmos do nosso quotidiano para nos certificarmos disso, e essa clara percepção permite-nos entender muita coisa. Perante isto, a tal questão de sabermos de onde vem a cegueira que coloca no nosso horizonte comum o risco de uma espécie de cavalgada para o maior dos desastres ilumina-se com uma resposta: é a avidez cega e frequentemente criminosa do capitalismo pelo lucro que é motor do perigo e o convoca. E a esta resposta junta-se uma outra que a complementa: é preciso substituir o capitalismo hiperperigoso e já responsável por um extenso cadastro de crimes e desgraças. Sem o que o planeta estará em crescente risco. O planeta, isto é, todos nós.




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