Pensar o País e o mundo na tela do Cineavante!
FESTA DO AVANTE! As jornadas de trabalho começam no próximo sábado, mas há muito que a edição deste ano da Festa está a ser preparada: no caso do Cineavante!, o programa está fechado e recomenda-se.
O Cineavante dá visibilidade ao cinema português independente
O Cineavante! é uma realização ímpar no panorama cinematográfico português, desde logo por se inserir numa grandiosa iniciativa de massas que tem na sétima arte uma das suas múltiplas dimensões. Mas também pela visibilidade que dá ao cinema português independente, feito por quem – nas palavras de Catarina Cardoso, responsável pelo espaço – se move pela «urgência de partilhar histórias», mais do que pelas perspectivas de êxito comercial, por mais que alguns dos filmes aí exibidos o alcancem, e muito justamente.
Algumas das obras que estarão presentes este ano da Festa do Avante!, aliás, não chegaram sequer a ter estreia em sala. Outras tiveram apenas uma fugaz, e pouco divulgada, passagem pelos cinemas, na sua maioria interessados em grandes produções norte-americanas de encaixe financeiro garantido e, não raras vezes, de mais do que questionável qualidade. E qualidade é, precisamente, um dos critérios principais que preside todos os anos à construção da programação do Cineavante!. Catarina Cardoso acrescenta outro: a abordagem de temáticas relacionadas com as classes populares, os seus problemas e aspirações, as suas lutas e conquistas.
A escolha dos filmes estrangeiros segue critérios similares, garante a responsável.
Do Portugal fascista
aos indígenas do Brasil
Raiva, de Sérgio Tréfaut, pode muito bem ser considerado o «cabeça de cartaz» da edição deste ano. Consagrado pelo público e pela crítica, no País e fora dele, o filme baseia-se na obra literária de Manuel da Fonseca Seara de Vento e tem como pano de fundo a exploração dos trabalhadores rurais no Alentejo e a revolta que ela inevitavelmente provoca. Pelo meio, vários assassinatos a sangue frio, perpetrados numa única noite.
Tal como o anterior, Parque Mayer, de António-Pedro Vasconcelos, é uma obra de ficção inspirada na realidade do fascismo português e dos que tiveram a coragem de se lhe opor. Nesta obra, os amores e desamores e os dramas pessoais dividem o protagonismo com a constante luta contra a censura e as tentativas mais ou menos hábeis de a contornar.
De João Salavisa e Renée Nader Messora, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos é um filme premiado no Festival de Cannes que conta uma história que, sendo ficcionada, mergulha nas crenças e costumes da tribo amazónica krahô, com a qual os realizadores conviveram durante anos.
Past Perfect, de Jorge Jácome, situa-se entre a ficção e o documentário. Aborda o que o actor e encenador Pedro Penim chama de «negação de um presente doloroso em oposição ao desejo de regressar a um passado glorioso».
Retratar a realidade
Lugar destacado na programação tem o documentário, nas diferentes expressões que assume. Terra Franca, da premiada realizadora Leonor Teles, retrata a vida do pescador Albertino Lobo, da sua ligação à comunidade piscatória à beira do Tejo, a que pertence, às contingências das diferentes estações do ano. Tal como este, também Lá Longe, de David Mira, centra-se numa vida singular para retratar uma realidade vivida por muitos, no caso a migração, nos tempos do fascismo, do Alentejo para os subúrbios de Lisboa. Espelha também, com rara sensibilidade, a poesia e o Cante Alentejano.
Em ante-estreia no Cineavante! estará Bostofrio, de Paulo Carneiro, em que o realizador viaja até à pequena aldeia do concelho de Boticas, onde tinha antecedentes familiares. Em pleno século XXI, é também uma viagem a uma ruralidade recheada de segredos. 15 Memórias do Fogo, de Tiago Cerveira e Rodrigo Oliveira, apresenta pequenas – e dramáticas – histórias de vidas abaladas pelos incêndios de Outubro de 2017 no centro do País. «Uns morreram, outros correram» é o mote.
Da História e do Mundo
De França chega Le Drôle de Mai – Crónica nos Anos da Lama, de José Vieira, crónica de um bairro de lata nos arredores de Paris em Maio de 1968 e dos emigrantes portugueses que os construíram e neles habitam. Recorrendo às suas próprias memórias e cruzando-as com as de outros, o realizador nascido em Portugal mergulha nos dramas e aspirações dos imigrantes de então, numa reflexão mais actual do que pode à partida parecer.
O Silêncio dos Outros, de Almudena Carracedo e Robert Bahar, recua à luta contra o franquismo, em Espanha, e à sede de justiça que ainda hoje move muitas das suas vítimas e familiares. Filmado ao longo de seis anos, reflecte sobre a amnésia que se quer impor sobre todo um país, que tantos anos depois continua dividido sobre o seu passado. As Armas e o Povo foi escolhido para assinalar os 45 anos do 25 de Abril. Realizado em 1975 pelo Colectivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica, retrata a semana entre o 25 de Abril e o 1.º de Maio de 1974, o desmantelamento do aparelho fascista e a construção da democracia.
Flagrantemente actual é Gaza, que terá estreia nacional marcada precisamente para o Cineavante!. Da autoria de Carles Bover e Julio Pérez, apresenta de forma crua e brutal o território palestiniano de Gaza, massacrado por Israel, e a tenacidade de um povo que teima em resistir.
Da programação do espaço consta ainda a exibição de filmes de animação para crianças, resultantes da parceria com a Monstra, e que preenchem as manhãs, e conversas com realizadores.
O cinema estará ainda em destaque no Espaço Central da Festa, com as oficinas de bolso, dirigidas aos mais jovens. Usando como único equipamento o telemóvel, a oficina não só ensinará o que é animação como permitirá ao visitante instalar uma aplicação e continuar a criar filmes de animação em casa, com a família ou amigos. Utiliza desde pessoas a todo e qualquer objecto que no recinto da Festa possa ser animado.