Luta prossegue após grande manifestação porque «ainda há tempo»
MOBILIZAÇÃO Os trabalhadores da Administração Pública não vão desistir de lutar para que não se complete uma década e uma legislatura sem aumentos salariais, como sobressaiu dia 10 nas ruas de Lisboa.
O Governo tem uma oportunidade única e pode fazer outras opções
Vários milhares de trabalhadores dos diferentes sectores da Administração Pública responderam ao apelo da Frente Comum e dos sindicatos e, na tarde de sexta-feira, em greve, reuniram-se no Marquês de Pombal, seguindo em manifestação em direcção à residência oficial do primeiro-ministro.
Em faixas, cartazes, camisolas, bandeiras e palavras de ordem, mostraram os motivos da luta. À votação dessa manhã no Parlamento (onde PS, PSD e CDS rejeitaram reconhecer na carreira dos professores a totalidade do tempo de serviço cumprido, como referimos nas páginas 22 e 23), gritou-se que «o tempo trabalhado não pode ser roubado».
«Basta de congelamento, queremos o nosso aumento» também foi muito repetido, por trabalhadores da Administração Local e da Função Pública (Administração Central), funcionários judiciais, enfermeiros, professores e outros manifestantes, identificados também por sectores e serviços e por distritos e regiões, incluindo os Açores, ao longo de um percurso que desceu a Avenida da Liberdade, para seguir pela Rua Alexandre Herculano, Largo do Rato e Avenida Pedro Álvares Cabral, até à Basílica e à Calçada da Estrela.
Não só um escadote
Uma nova palavra de ordem fez-se ouvir no cruzamento desta com as ruas de São Bernardo e da Bela Vista à Lapa: «O direito à manifestação está na Constituição».
O desfile foi aqui impedido de continuar a descida, até às proximidades da residência oficial do primeiro-ministro, e os dirigentes sindicais recusaram a indicação policial para um desvio que mais do que triplicaria a distância até ao local previsto.
O trânsito ficou interrompido e, ainda com os últimos manifestantes na Rua da Estrela, foi improvisado ali mesmo um palanque: a aparelhagem sonora instalada num carro e um escadote para os oradores serem mais visíveis.
Esta «situação especial, mas não menos desafiante», foi assinalada logo no início do discurso do Secretário-geral da CGTP-IN. Arménio Carlos lembrou que lutas semelhantes foram realizadas mesmo nos tempos, muito mais difíceis, do fascismo, e referiu que o escadote fora emprestado por uma comerciante, assim se comprovando que «os trabalhadores continuam a contar com a solidariedade de outras camadas da população».
Reiterou que «não alinhamos nessa história de não haver dinheiro», argumento que só serve quando se trata das reivindicações dos trabalhadores, pois «quando chega a altura dos bancos e das PPP [parcerias público-privado], o Governo funciona em velocidade de cruzeiro, para lhes dar o dinheiro que é nosso».
«Esta luta é para continuar, independentemente das eleições» que vão ocorrer em Maio e Outubro, assegurou o dirigente. A afirmação foi sublinhada por um coro de milhares de vozes, a repetir que «a luta continua, nos serviços e na rua».
Que a luta de dia 10 não se limitava àquela expressão pública, estando encerrados centenas e centenas de locais de trabalho, começou por assinalar a coordenadora da Frente Comum de Sindicatos.
Ana Avoila notou que nesta jornada de luta ficou em evidência «o protesto que há muito se faz sentir» e «o descontentamento por aquilo que o Governo ainda não fez». Perante «uma oportunidade única», com a relação de forças existente na AR, o Governo «está a optar pelo bancos, pelo grandes grupos, pelo grande patronato», «fez a opção de reduzir o défice à custa dos direitos dos trabalhadores», acusou.
«Não se justifica» que em 2019, nestas circunstâncias, se complete uma década sem aumentos salariais na Administração Pública e termine uma legislatura que, neste ponto importante, não se está a distinguir dos governos do tempo da troika, protestou Ana Avoila, sublinhando que a reivindicação de mais quatro por cento nos salários, com um mínimo de 60 euros, «não é muito», quando se tem em conta que os valores são diluídos por dez anos.
Em vez da «chantagem» do primeiro-ministro para recusar «o tempo de carreira que é dos trabalhadores», e em vez das «cativações orçamentais com o dinheiro dos trabalhadores», a Frente Comum reafirma que devem iniciar-se «negociações a sério». Mas, criticou Ana Avoila, isso não sucedeu com a reunião que o Governo marcou para dia 13, convocando os sindicatos sem lhes enviar antes os projectos de diploma que estariam em discussão. Ressalvou que «ainda há tempo» para o Governo corrigir o rumo e asseverou que, por este motivo, a luta não vai abrandar.
«Para avançar, continuar a lutar» foi precisamente o título atribuído à resolução aprovada e aclamada no final desta acção, na qual são reafirmadas as exigências que integram a Proposta Reivindicativa Comum e cuja negociação é exigida do Governo.
PCP com luta justa
«O sentimento que vejo nestes trabalhadores, incluindo os professores, é que não vão desistir de lutar por aquilo a que têm direito», comentou Jerónimo de Sousa, frisando que «a Assembleia não quis», mas «o PCP tinha propostas para resolver o problema, que não foram aprovadas devido a uma “coligação negativa” de PS, PSD e CDS».
«Se alguém pensa que a história terminou aqui, eu não acredito, tendo em conta a disponibilidade e a justiça que assiste a estes homens e mulheres, que não admitem que um terço da sua carreira profissional desapareça», pelo que esta é «uma situação que tenderá para durar, porque os trabalhadores não vão baixar os braços».
A saudar a passagem da manifestação, no alto da Rua Alexandre Herculano, o Secretário-geral do PCP esteve com uma delegação, de que fizeram parte João Dias Coelho (da Comissão Política do Comité Central), João Ferreira (membro do CC e candidato em primeiro lugar na lista da CDU para a eleição do Parlamento Europeu) e Rita Rato (deputada na AR).