Unidade, alegria e determinação na Manifestação Nacional de Mulheres

AGIR Muitos mi­lhares de mu­lheres par­ti­ci­param, sá­bado, na Ma­ni­fes­tação Na­ci­onal de Mu­lheres, com o lema «Igual­dade na vida. O com­bate do nosso tempo». Em 2020, no dia 8 de Março, ha­verá em Lisboa uma nova Ma­ni­fes­tação Na­ci­onal.

Viva a luta das mu­lheres em Por­tugal e no mundo

 

O desfile, entre os Restauradores e a Ribeira da Naus, foi promovido, uma vez mais, pelo Movimento Democrático de Mulheres (MDM) para dar voz aos problemas e aspirações das mulheres na sua justa exigência de igualdade, não apenas na lei, mas na vida de todos os dias.

In­te­grada nas co­me­mo­ra­ções do Dia In­ter­na­ci­onal da Mu­lher, na ma­ni­fes­tação par­ti­ci­param ge­ra­ções, ex­pe­ri­ên­cias e sa­beres de todo o País. Ali es­ti­veram, vindas de todos os dis­tritos de Por­tugal con­ti­nental, mu­lheres agri­cul­toras, es­tu­dantes, ar­tistas e in­te­lec­tuais, pro­fes­soras e tra­ba­lha­doras dos ser­viços e das fá­bricas, mu­lheres idosas e muitas jo­vens exi­gindo o cum­pri­mento dos seus di­reitos. Trou­xeram con­sigo os pro­blemas mais sen­tidos pelas mu­lheres, mas também a força dos seus so­nhos e as­pi­ra­ções a uma vida me­lhor.

«Igual­dade na vida. O com­bate do nosso tempo. Viva a luta das mu­lheres em Por­tugal e no mundo», lia-se na faixa que en­ca­be­çava a marcha, com as per­cus­sões e bombos dos Karma Drums a chamar cada vez mais pes­soas. Também a As­so­ci­ação Can­ta­deiras de Es­sência Alen­te­jana (Al­mada), a As­so­ci­ação de Cul­tura e Re­creio 13 Se­tembro de 1913 (So­bral de Monte Agraço), Vozes Além Tejo (Santo André) e o Rancho Fol­cló­rico Es­piga Dou­rada (Couço), deram ritmo, cor e be­leza ao mo­mento.

Ou­tras men­sa­gens eram tes­te­mu­nhadas em panos e pan­cartas para «cum­prir Abril»: «fim à des­re­gu­lação dos ho­rá­rios», «igual­dade não tem idade», «tra­balho com di­reitos», «ex­plo­ração la­boral é vi­o­lência», «in­vestir nos ser­viços pú­blicos é de­fender os di­reitos das mu­lheres», «basta de vi­o­lência do­més­tica. Nem mais uma morte!» e «pros­ti­tuição não é tra­balho».

A luta con­tinua
Vá­rias foram as pa­la­vras de ordem en­to­adas, como «a luta con­tinua, as mu­lheres estão na rua!», pelo di­reito ao tra­balho com di­reitos, contra os baixos sa­lá­rios, a pre­ca­ri­e­dade e os ho­rá­rios des­re­gu­lados, mas também para de­nun­ciar o fla­gelo da vi­o­lência do­més­tica e ou­tras formas de vi­o­lência e ex­plo­ração das mu­lheres e rei­vin­dicar a efec­ti­vação do di­reito das mu­lheres à par­ti­ci­pação so­cial e po­lí­tica. Vozes para de­fender ainda ser­viços pú­blicos e fun­ções so­ciais do Es­tado es­sen­ciais ao cum­pri­mento dos di­reitos.

Com os nú­cleos do MDM des­fi­laram or­ga­ni­za­ções que se as­so­ci­aram aos ob­jec­tivos desta acção: Co­missão para a Igual­dade entre Mu­lheres e Ho­mens da CGTP-IN, Ma­ni­festo em De­fesa da Cul­tura, Con­selho Por­tu­guês para a Paz e Co­o­pe­ração, Con­fe­de­ração Na­ci­onal de Re­for­mados, Pen­si­o­nistas e Idosos – MURPI, Con­fe­de­ração Na­ci­onal da Agri­cul­tura, Fe­de­ração Na­ci­onal dos Pro­fes­sores, Sin­di­cato de Ho­te­laria do Centro, União dos Sin­di­catos do Norte Alen­te­jano e as­so­ci­a­ções das Mu­lheres Agri­cul­toras e Ru­rais Por­tu­guesas, Por­tu­guesa de Ju­ristas De­mo­cratas, Ju­venil Pro­jecto Ruído, de Ami­zade Por­tugal-Cuba, Dis­trital de Coimbra de Re­for­mados e Pen­si­o­nistas e, entre ou­tras, de Es­tu­dantes da Fa­cul­dade de Le­tras da Uni­ver­si­dade de Lisboa.

PCP e CGTP-IN com a luta das mu­lheres

Sau­dada por muitos foi a de­le­gação do PCP, com­posta por Je­ró­nimo de Sousa, Ma­nuela Pinto Ângelo, Fer­nanda Ma­teus, Ar­mindo Mi­randa e Paula Santos. Pre­sentes es­ti­veram também João Fer­reira e Sandra Pe­reira, os pri­meiros dois can­di­datos da CDU às elei­ções para o Par­la­mento Eu­ropeu.

Je­ró­nimo de Sousa re­cordou que, antes e de­pois do 25 de Abril de 1974, o Par­tido foi «pi­o­neiro» na luta contra as «de­si­gual­dades, des­cri­mi­na­ções e vi­o­lência» que afectam as mu­lheres. Con­tri­buiu igual­mente, entre ou­tras ma­té­rias, para a des­pe­na­li­zação da in­ter­rupção vo­lun­tária da gra­videz (IVG) e para a apro­vação da le­gis­lação sobre a vi­o­lência do­més­tica.

Hoje «são muitas as mu­lheres, com uma visão pro­gres­sista, que pro­curam al­cançar o di­reito da igual­dade e de não serem dis­cri­mi­nadas», afirmou, re­for­çando que esta é «uma luta do nosso tempo» em­bora ainda falta muito para atingir «a igual­dade pe­rante a lei e a vida».

Mais à frente es­tava uma de­le­gação da CGTP-IN, con­du­zida pelo seu Se­cre­tário-geral. Ar­ménio Carlos re­feriu que «há muitos di­reitos con­sa­grados na lei que de­pois não são efec­ti­vados no ter­reno, no­me­a­da­mente na área la­boral». Neste sen­tido, a «luta» tem de «con­ti­nuar», porque o que está «em causa são di­reitos fun­da­men­tais para a evo­lução da so­ci­e­dade», frisou.

Em mo­vi­mento por uma vida digna

No final do des­file, bem perto do Tejo e com uma vista pri­vi­le­giada para a Margem Sul, ini­ciou-se um pe­ríodo de in­ter­ven­ções, an­te­ce­didas pela lei­tura, por Maria João Luís, do poema «Mar e Mu­lher», de Ruy Belo. «Viva a luta das mu­lheres», gritou a ac­triz, emo­ci­o­nada.

De se­guida, Tânia Ma­teus chamou para junto de si as res­tantes di­ri­gentes da Di­recção Na­ci­onal do MDM e deu a pa­lavra a Re­gina Mar­ques, do Se­cre­ta­riado Exe­cu­tivo do mo­vi­mento de mu­lheres, criado há 50 anos.

«Só em mo­vi­mento e na luta po­demos al­cançar uma vida digna para as mu­lheres e vencer os per­ma­nentes obs­tá­culos que as forças re­tró­gradas teimam em criar para que os di­reitos as mu­lheres não possam avançar», afirmou, ma­ni­fes­tando «so­li­da­ri­e­dade» com «as mu­lheres em luta por me­lhores con­di­ções de vida e de tra­balho em Por­tugal e no mundo», que se es­tendeu à Fe­de­ração De­mo­crá­tica In­ter­na­ci­onal de Mu­lheres e às suas or­ga­ni­za­ções fi­li­adas que «lutam nos seus países pela paz, jus­tiça e contra as vi­o­lên­cias e cos­tumes hu­mi­lhantes».

Co­me­morar Abril
Evo­cando e tra­zendo à me­mória co­lec­tiva «as lutas de muitas ge­ra­ções de mu­lheres pela li­ber­dade, pelo di­reito ao voto, pelo di­reito de acesso a todas as pro­fis­sões, pela re­dução do ho­rário de tra­balho, contra a dis­cri­mi­nação sa­la­rial, por di­reitos cí­vicos e po­lí­ticos, pela igual­dade na fa­mília, pelos di­reitos da mu­lher como ci­dadã, mãe e tra­ba­lha­dora. Pela paz», Re­gina Mar­ques apelou à par­ti­ci­pação de todos nas co­me­mo­ra­ções do 45.º ani­ver­sário da Re­vo­lução de Abril para exigir do Go­verno por­tu­guês «po­lí­ticas que re­solvam os pro­blemas do povo e do País».

O «con­vite» foi for­ma­li­zado, mais tarde, numa de­cla­ração onde se exorta as mu­lheres a er­guer «bem alto a sua luta na exi­gência de que os va­lores, con­quistas e di­reitos de Abril sejam cum­pridos, por uma ver­da­deira po­lí­tica de igual­dade».

Ra­ti­fi­cado foi também um apelo «contra a guerra» e «pela paz», onde se alerta para a in­tensa cor­rida ar­ma­men­tista, aos in­tensos re­cursos des­ti­nados à guerra, ao de­se­qui­libro de forças so­ciais e po­lí­ticas, a guerras des­trui­doras», como na Síria e no Iémen, ou as que acor­reram no Iraque ou na Líbia. De­nun­ci­adas foram igual­mente as «in­ge­rên­cias nos as­suntos in­ternos de vá­rios países», como tem ocor­rido na Amé­rica La­tina, de que é exemplo es­can­da­loso a Ve­ne­zuela, e as «fe­rozes atro­ci­dades e vi­o­lên­cias» co­me­tidas contra as mu­lheres da Pa­les­tina, da Síria e do Saara Oci­dental.

A ma­ni­fes­tação ter­minou ao som de «Minda e seus Amigos».

MDM anuncia ma­ni­fes­tação para 2020

Re­gina Mar­ques anun­ciou que o MDM vai re­a­lizar no pró­ximo ano, no dia 8 de Março, em Lisboa, uma nova Ma­ni­fes­tação Na­ci­onal de Mu­lheres. O seu êxito «será tanto maior quanto maior for a força que formos ca­pazes de pro­jectar nas lutas que temos pela frente, ir­ra­di­ando as nossas pro­postas», afirmou, ape­lando ao em­penho de «todas e com todos» na cons­trução de «uma vida me­lhor e um mundo mais justo e de igual­dade na vida».

«O com­bate do nosso tempo» exige «fazer cum­prir a igual­dade na vida, re­forçar as nossas rei­vin­di­ca­ções e as­se­gurar formas de luta que dêem res­posta aos pro­blemas con­cretos das mu­lheres», disse Re­gina Mar­ques, ci­tando o poema «Pelo sonho é que vamos», de Se­bas­tião da Gama.

Vi­o­lência é ex­plo­ração

A «vi­o­lência sobre as mu­lheres», uma «trá­gica re­a­li­dade» que «não pode nem deve ser na­tu­ra­li­zado nem ba­na­li­zado», foi outro dos temas tra­zidos por Re­gina Mar­ques. Se­gundo a di­ri­gente do MDM, as «causas mais re­motas» deste fla­gelo ra­dicam «nas de­si­gual­dades e dis­cri­mi­na­ções que a na­tu­reza do ca­pi­ta­lismo en­cerra», assim como «no sis­tema de do­mi­nação e opressão do­mi­nantes, na de­gra­dação de va­lores que o pró­prio sis­tema sus­tenta» e «na falta de efi­cácia dos ser­viços pú­blicos, seja pela falta de ar­ti­cu­lação e co­o­pe­ração entre ser­viços, não apenas ju­di­ciais, como muitos in­sistem em fazer crer, mas de ou­tros», em que se des­taca «a saúde, no­me­a­da­mente na sua ver­tente dos cui­dados pri­má­rios ou a es­colas e a se­gu­rança so­cial».

De­nun­ciada foi também a ten­ta­tiva de «na­tu­ra­lizar a pros­ti­tuição e de le­ga­lizar o sór­dido ne­gócio», de­vendo o Es­tado «tomar as me­didas de pro­tecção às mu­lheres pros­ti­tuídas e de des­man­te­la­mento do sis­tema pros­ti­tu­ci­onal».

Con­cre­tizar na vida a igual­dade que existe na lei

Na sexta-feira, 8, a Co­missão da CGTP-IN para a Igual­dade entre Mu­lheres e Ho­mens (CIMH) as­si­nalou o Dia In­ter­na­ci­onal da Mu­lher com ini­ci­a­tivas em todo o País, en­cer­rando a Se­mana de Igual­dade (de 4 a 8 de Março), sob o lema «Avançar na igual­dade – Com em­prego de qua­li­dade».

Ar­ménio Carlos, Se­cre­tário-geral da In­ter­sin­dical, co­meçou o dia em Lisboa com uma men­sagem à mu­lher tra­ba­lha­dora. Par­ti­cipou, mais tarde, numa sessão pú­blica, em Santa Maria de Lamas, pro­mo­vida pelo Sin­di­cato dos Cor­ti­ceiros do Norte, sobre «O papel das tra­ba­lha­doras cor­ti­ceiras na luta pela igual­dade sa­la­rial e pela efec­ti­vação dos sa­lá­rios», na qual in­ter­vi­eram, também, Alírio Mar­tins, co­or­de­nador do Sin­di­cato dos Ope­rá­rios Cor­ti­ceiros do Norte, e Cris­tina Ta­vares tra­ba­lha­dora cor­ti­ceira, des­pe­dida ile­gal­mente pela Fer­nando Couto Cor­tiças SA, e Fá­tima Mes­sias, co­or­de­na­dora da CIMH. A sessão – com de­zenas de ac­ti­vistas sin­di­cais e or­ga­ni­za­ções so­ciais – ficou mar­cada pela par­ti­ci­pação dos ac­tores André e Ma­riana Al­bu­querque, bem como ou­tras 14 ac­trizes que ex­pres­saram em vídeo a sua so­li­da­ri­e­dade com Cris­tina Ta­vares.

Ar­ménio Carlos es­teve ainda pre­sente na tri­buna pú­blica, pro­mo­vida pela União dos Sin­di­catos de Lisboa/​CGTP-IN, de «Canto e de luta». Na Rua do Carmo, para além da ac­tu­ação dos El Sur, des­fi­laram in­ter­ven­ções sec­to­riais sobre os prin­ci­pais pro­blemas que afectam as mu­lheres tra­ba­lha­doras e a efec­ti­vação da igual­dade entre mu­lheres e ho­mens nos lo­cais de tra­balho.

Neste dis­trito, as mu­lheres re­cebem todos os meses, em média, menos 14,9 por cento que os ho­mens (re­mu­ne­ração média mensal). Se con­si­de­rarmos os ga­nhos (sa­lário base, acres­cido do pa­ga­mento por horas ex­tra­or­di­ná­rias, pré­mios e sub­sí­dios re­gu­lares) a de­si­gual­dade sa­la­rial sobe para menos 17,4 por cento de ganho médio mensal que os ho­mens.

Re­a­li­zaram-se ou­tras ac­ções – cor­dões hu­manos, mar­chas, con­cen­tra­ções e tri­bunas pú­blicas – em Viana do Cas­telo, Porto, Vila Real, Bra­gança, Coimbra, Cas­telo Branco, Viseu, Leiria, San­tarém, Se­túbal, Évora, Beja, Faro, Fun­chal e Ponta Del­gada.

Ho­me­nagem justa
Na As­sem­bleia da Re­pú­blica, Rita Rato, de­pu­tada do PCP, as­si­nalou que o Dia In­ter­na­ci­onal da Mu­lher é uma «ho­me­nagem a todas as mu­lheres que não de­sistem de lutar por um País mais justo e a uma vida me­lhor para elas e para todos».

Porque «os di­reitos nunca foram ofe­re­cidos», antes «con­quis­tados com a co­ragem e a re­sis­tência de ge­ra­ções e ge­ra­ções de mu­lheres, ao longo de sé­culos», a de­pu­tada co­mu­nista re­a­firmou o «com­pro­misso» do PCP de «não ceder um mi­lí­metro no com­bate em de­fesa dos di­reitos das mu­lheres na luta pela igual­dade na fa­mília, no mundo do tra­balho, na so­ci­e­dade; no com­bate diário à vi­o­lência do­més­tica, contra todas as formas de vi­o­lência e dis­cri­mi­na­ções contra as mu­lheres».

Na dis­cussão e vo­tação da le­gis­lação la­boral que ocor­rerá em breve, anun­ciou Rita Rato, o Par­tido irá propor o fim da des­re­gu­lação do ho­rário de tra­balho, dos bancos de horas, adap­ta­bi­li­dades e ho­rá­rios con­cen­trados, e de­fender o au­mento do sa­lário mí­nimo na­ci­onal para 650 euros ainda este ano, o au­mento geral dos sa­lá­rios, as 35 horas para todos os tra­ba­lha­dores no pú­blico e no pri­vado. Os co­mu­nistas vão também com­bater a pre­ca­ri­e­dade e exigir o res­peito total pelos di­reitos de ma­ter­ni­dade e pa­ter­ni­dade.

 



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