1974 – O golaço político de Carlos Caszely
A tragicomédia protagonizada pela selecção nacional de futebol do Chile durante a sangrenta ditadura de Pinochet não terminou no Estádio de Santiago, onde a equipa esteve sozinha em campo por a URSS ter recusado jogar num local manchado pelo sangue dos patriotas chilenos ali torturados e mortos. Após esse jogo da vergonha, Pinochet quis usar a selecção como trunfo político e convocou os jogadores para o Palácio de La Moneda antes de partirem para o Mundial na Alemanha Ocidental. Todos cumprimentaram o ditador, menos um: Carlos Caszely, grande ídolo do popular clube Colo Colo, que manteve as mãos atrás das costas. «Quando foi minha vez de cumprimentar, apertei as mãos. Pinochet não teve outro remédio a não ser ir andando», contaria mais tarde o que ainda hoje, reformado, é conhecido como «El Rey del Metro Cuadrado». Apoiante de Allende e da Unidade Popular, Caszely não foi preso mas pagou de várias formas o gesto de resistência à ditadura. A pior, e mais cobarde, foi a prisão e brutal tortura de sua mãe, Olga Callado. Em 1988, no referendo sobre a continuação de Pinochet na chefia do Estado, ambos participaram activamente na campanha pelo «não». O lance de mestre do craque chileno contra o ditador ficou para a História como um «golaço», e não foi do futebol.