No passado dia 21 assistiu-se, pela mão de vários órgãos de comunicação social, ao acompanhamento «ao minuto» dos desenvolvimentos da acção convocada pelas redes sociais dias antes, com a designação «Vamos parar Portugal», que se arrogou ao objectivo de transpor para o nosso País o movimento dos coletes amarelos vivido em França. Perante critérios jornalísticos objectivos, a atenção dada pela comunicação social a este assunto poderia classificar-se, no mínimo, como desproporcionada.
Desde o início do mês foram aparecendo, a espaços, referências aqui e ali à possibilidade do fenómeno francês poder ser transposto para Portugal, numa clara desconsideração do que esteve na raiz das acções em França e simplificando a realidade vivida no nosso País. Mas foi nos dias que antecederam a acção que a mediatização da questão se instalou: manchetes e chamadas de primeiras páginas de vários jornais, espaço nos noticiários nos telejornais e nas rádios e muita e intensa cobertura nas plataformas noticiosas online.
O tratamento ao longo de toda a semana foi extenso e pormenorizado. Pudemos ter ao dispor, inclusivamente, roteiros e mapas, assim como fomos informados de como se poderia aderir. Não faltou, tão pouco, uma boa dose de alarmismo com as notícias sobre a mobilização de 20 mil agentes das forças de segurança. De facto, enquanto a comunicação social dizia que a mobilização para esta acção estava a ser feita pelas redes sociais, ia ficando evidente que era a própria que se esforçava na mobilização.
No próprio dia, desde manhã cedo, os noticiários das rádios começaram à procura dos «coletes amarelos», incluindo nos espaços dedicados ao trânsito. A busca permanente de casos de «exaltação de ânimos» e de «violência» serviu de abertura a telejornais e animou coberturas em directo nas rádios e televisões, em vários pontos dos País. A febre contaminou os meios online, que fizeram directos suas próprias plataformas ou através das redes sociais.
Deu-se presença mediática a elementos de extrema-direita (incluindo membros e dirigentes do PNR) e a ideias populistas veiculadas por vários dos entrevistados, que invariavelmente atacavam o regime democrático, utilizando chavões anti-corrupção com o claro objectivo de instrumentalizar legítimos sentimentos de descontentamento. A própria Assunção Cristas veio dizer que é preciso ouvir o descontentamento destas pessoas. Quando andamos a braços com fenómenos populistas, reaccionários, antidemocráticos e anticomunistas um pouco por todo o planeta, tivemos por cá um bom contributo na expressão e promoção dada por parte da comunicação social a este protesto.
Ao mesmo tempo torna-se difícil não olhar à diferenciação de tratamento jornalístico feita, por exemplo, à última manifestação convocada pela CGTP-IN, que encheu a Avenida da Liberdade em Lisboa no passado dia 15 de Novembro. Radica, naturalmente, numa opção de classe, o criar e alimentar este tipo de fenómenos, em contraponto com o apagar ou menorizar as acções e lutas e respectivas vitórias, com objectivos e reivindicações consequentes.