A «saída do povo»

João Ferreira

Segundo o Gabinete Nacional de Estatística do Reino Unido, no último Inverno, entre Dezembro de 2017 e Março de 2018, estima-se que tenham ocorrido na Inglaterra e no País de Gales mais 51.100 mortes do que no período homólogo do ano anterior (2016-17), o número mais elevado em 41 anos. Estas mortes estão relacionadas com o frio e com deficientes condições de aquecimento das casas, incluindo casos de doenças respiratórias consideradas evitáveis. A maioria das vítimas são mulheres, embora o número de óbitos de homens com menos de 65 anos tenha duplicado. A edição do último fim-de-semana do «Morning Star» chama-lhe uma «tragédia humana», um «escândalo nacional», cuja explicação não é separável do aumento da conta de energia das famílias, nem dos lucros amealhados pelas seis grandes companhias de energia que dividem o mercado entre si.

O caso dá-nos o elucidativo pano de fundo sobre o qual se desenrola o processo de negociação da saída do Reino Unido da União Europeia. A realidade económica e social britânica é inseparável da pertença à UE e das políticas e opções neoliberais que determinaram o curso da vida política, económica e social no Reino Unido ao longo dos anos.

Tanto quanto a incerteza em relação ao futuro, que as negociações em curso adensam, é a precariedade do presente o que preocupa os trabalhadores e o povo britânico, assim como os imigrantes que vivem e trabalham neste país, incluindo a numerosa comunidade portuguesa, que engrossou significativamente durante os anos da 'troika' em Portugal.

Os 17 milhões de britânicos que em 2016 votaram pela saída do seu país da UE – na mais participada votação de sempre no Reino Unido – certamente que o terão feito com motivações diversas. Será todavia seguro afirmar que, com o seu voto, terão formulado um desejo de ruptura, a par da intenção de assumir o controlo sobre decisões fundamentais para as suas vidas, libertando-se de constrangimentos impostos pela UE, negativamente avaliados. Dois pressupostos – o desejo de ruptura e a afirmação de soberania – que o acordo alcançado há dias entre a UE e o governo do Reino Unido vem pôr em causa.

O grande capital britânico, atravessado por contradições que se estendem aos seus representantes políticos, divide-se pela aposta em caminhos diversos. Uma parte não desistiu ainda de reverter a decisão do povo britânico. Outra, pretende torpedeá-la, deturpando o seu significado, através de um acordo de saída que manterá o Reino Unido constrangido pelo neoliberalismo plasmado nos tratados e legislação da UE. Outra ainda, pretende, a partir de uma saída sem acordo, levar a cabo extensas medidas de desregulamentação e de agravamento da exploração.

A estes caminhos (todos diferentes, todos iguais na sua marca de classe) contrapõe-se, à esquerda, uma «saída do povo», um «Brexit dos trabalhadores e do povo», em que a libertação das políticas e imposições UE é encarada como condição de avanço progressista e emancipador. É a posição, entre outros, do Partido Comunista Britânico.

Para o PCP, o respeito pela decisão soberana do povo britânico e a defesa intransigente dos interesses da comunidade portuguesa que vive e trabalha no Reino Unido, são dois princípios orientadores da sua intervenção em todo este processo. Independentemente das atribulações e conclusões das negociações entre a UE e o Reino Unido, o Governo português deve trabalhar na construção de um quadro de relações e de cooperação futura com o Reino Unido, mutuamente vantajoso, respeitador da soberania e das aspiraçõesde ambos os povos e dos interesses dos imigrantes portugueses neste país.




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