Marx, o internacionalismo e a Associação Internacional dos Trabalhadores
MARXISMO-LENINISMO A Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), fundada em 28 de Setembro de 1864 numa grande reunião pública de operários que teve lugar no St. Martin's Hall de Londres, correspondeu à necessidade de dotar o movimento operário de um instrumento de articulação internacional que desse expressão ao inspirado apelo do Manifesto do Partido Comunista —«Proletários de todos os países, uni-vos!» — e contribuísse para armar os trabalhadores com a teoria do socialismo científico, fortalecer a sua organização de classe e a sua acção revolucionária independente.
A Mensagem Inaugural e os Estatutos da Associação Internacional dos Trabalhadores são da autoria de Marx
Marx foi o principal protagonista da AIT e o dirigente de facto do Conselho Geral, o órgão superior em que se transformou o Comité Provisório então eleito. A Mensagem Inaugural1, o primeiro documento programático da AIT, assim como os seus Estatutos, são da autoria de Marx.
Aqueles eram então tempos de reanimação do movimento operário mas em que a teoria marxista estava longe de nele ser dominante. As diferentes variantes da ideologia pequeno-burguesa desfrutavam ainda de grande influência e assumiam expressões diversificadas: socialismo utópico, trade-unionismo, proudhonismo, blanquismo e outras correntes que, em geral, negavam a luta de classes e a necessidade da conquista do poder político pelo proletariado como condição da sua emancipação. Mas o espírito internacionalista e a compreensão da importância da acção comum das diferentes organizações dos trabalhadores na luta contra a exploração capitalista predominaram na criação da AIT que, como era inevitável, acompanhou a sua valiosa intervenção de uma intensa luta ideológica interna.
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A fundação da AIT, mais tarde conhecida como a Primeira Internacional, seguiu-se a um período de grandes dificuldades resultantes da derrota das revoluções de 1848 e da violenta repressão desencadeada pela burguesia contra o movimento operário e, em primeiro lugar, contra os comunistas. O caso do processo dos comunistas de Colónia, apaixonadamente descrito por Engels num artigo publicado em Novembro de 1852 no jornal New York Daily Tribune(2), é bem elucidativo da situação de refluxo revolucionário que tornou praticamente impossível a actividade da Liga dos Comunistas e levou à cessação da sua actividade em 1852.
Mas o rápido desenvolvimento do capitalismo e o crescimento do proletariado e da sua luta – nomeadamente na Alemanha, França, Inglaterra e Itália – tornaram necessárias formas de solidariedade e de articulação internacional, visando unir não apenas os comunistas mas o conjunto do movimento operário na sua diversidade. Nascida no quadro de um importante movimento de solidariedade com a insurreição nacional polaca, a AIT é claramente produto da própria dinâmica do movimento operário. Na sua Mensagem Inaugural, o documento programático fundador da AIT, Marx faz uma análise particularmente esclarecedora e incisiva do desenvolvimento do capitalismo inglês, o mais avançado de todos os países, mostrando que o rápido desenvolvimento das forças produtivas agudizou a contradição entre o capital e o trabalho e que, apesar dos duros golpes sofridos com o fracasso das revoluções de 1848, houve luta e mesmo conquistas, como as relativas ao horário de trabalho com a Lei das Dez Horas ou importantes sucessos do movimento cooperativo que «mostraram com factos, em vez de argumentos, que a produção em larga escala e de acordo com os requisitos da ciência moderna pode ser prosseguida sem uma classe de patrões», mas mostrando simultaneamente que «por mais excelente que em princípio [seja] e por mais útil que na prática [seja] —, se mantido no círculo estreito dos esforços casuais de operários privados, nunca será capaz de parar o crescimento em progressão geométrica do monopólio, de libertar as massas, nem sequer de aliviar perceptivelmente a carga das suas misérias».
É com base na exemplificação concreta dos limites de transformações no quadro do sistema capitalista que Marx conclui: «Conquistar poder político tornou-se, portanto, o grande dever das classes operárias» e, para isso, a par dos «esforços simultâneos [em vários países] para a reorganização política do partido dos operários» é necessária a sua cooperação, pois «a experiência passada mostrou como a falta de cuidado por este laço de fraternidade, que deve existir entre os operários de diferentes países e incitá-los a permanecer firmemente ao lado uns dos outros em toda a sua luta pela emancipação, será castigada pela derrota comum dos seus esforços incoerentes.
Este pensamento incitou os operários de diferentes países, congregados em 28 de Setembro de 1864 numa reunião pública em St. Martin's Hall, a fundar a Associação Internacional»(3). Esta a grande mensagem da Associação Internacional dos Trabalhadores.
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A grande criação da AIT foi a Comuna de Paris, o «assalto aos céus» das massas trabalhadoras parisienses e experiência pioneira de poder proletário, cujas realizações, apesar do seu curto tempo de existência, exerceram uma extraordinária influência no movimento operário internacional, incluindo em Portugal.
São conhecidos os alertas e as reservas iniciais de Marx em relação a uma insurreição para a qual considerava não estarem reunidas as condições. Isso não o impediu, porém, uma vez a insurreição desencadeada, de apoiar com toda a energia a audácia dos communards e os grandes objectivos da sua luta, desenvolvendo uma intensa actividade junto dos membros da Internacional que participaram na Comuna.
A Comuna foi derrotada e afogada em sangue pela acção conjugada das tropas da burguesia francesa traidora refugiada em Versailles conduzidas por Thiers e das tropas prussianas de Bismark que cercavam Paris, mas a força do exemplo de coragem e devoção revolucionária dos seus protagonistas continua bem vivo.
Ao mesmo tempo que mobilizava a AIT para socorrer os revolucionários parisienses que tinham conseguido escapar à repressão, Marx, como anteriormente havia feito em relação às revoluções de 1848, lançou-se imediatamente no trabalho de análise dos acontecimentos da Comuna, mostrando uma vez mais que de todo e qualquer afrontamento de classe, vitorioso ou derrotado, é sempre possível extrair experiências e lições para o prosseguimento da luta libertadora.
A sua obra A Guerra Civil em França(4), redigida como mensagem do Conselho Geral da AIT aos membros da Associação na Europa e Estados Unidos, é uma obra-prima da aplicação do marxismo ao estudo de acontecimentos históricos, de «análise concreta da situação concreta», que Lénine considerava a «alma do marxismo». Passando pelo crivo do exame crítico os aspectos positivos e criadores da acção da Comuna assim como as suas insuficiências e erros, Marx tirou valiosas conclusões relativas nomeadamente ao partido independente da classe operária (os marxistas estavam em minoria entre os dirigentes da Comuna, onde blanquistas e proudhonianos tinham mais influência), ao Estado proletário (de que a Comuna foi a primeira experiência), à política de alianças do proletariado (subestimação da aliança com os camponeses), ao controlo da Banca e demais sectores chave da economia (o erro de não nacionalizar o Banco de França) e outras matérias relativas à táctica e estratégia revolucionárias. Confirmando com exuberância que o marxismo não é um dogma e que se desenvolve e enriquece numa relação dialéctica com a prática.
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Na história da AIT, o Congresso de Haia, que teve lugar de 2 a 7 de Setembro de 1872, desempenha um papel particularmente relevante. Reunido sob a influência da epopeia da Comuna nele foram tomadas decisões da maior importância do ponto de vista ideológico e organizativo. Como resultado da actividade secreta e desagregadora promovida pela Aliança Internacional da Democracia Socialista, Bakúnine e os seus companheiros anarquistas foram expulsos, o que constituiu uma extraordinária vitória de Marx e do marxismo no seio da AIT.
Outra decisão foi a de transferir o Conselho Geral para os Estados Unidos por considerações ligadas com a repressão dos «internacionais» na Europa que se seguiu à derrota da Comuna e pelas possibilidades abertas pelo rápido crescimento da classe operária naquele país. Mas a decisão porventura mais importante diz respeito à resolução sobre o parágrafo 7 dos Estatutos da AIT, que representa a derrota ideológica das correntes pequeno-burguesas antimarxistas, sublinhando que a «constituição do proletariado em partido político é indispensável para assegurar o triunfo da Revolução social e do seu objectivo supremo: a abolição das classes»(5).
Pode considerar-se que quando foi dissolvida, em 1876, no Congresso de Filadélfia, a AIT havia cumprido a sua missão histórica de estreitar laços internacionalistas, difundir a teoria do socialismo científico, criar condições para o surgimento de partidos comunistas de massas no plano nacional, de que o principal exemplo foi a criação em 1869, em Eisenach, do Partido Operário Social-Democrata alemão, dirigido por Bebel e Wilhelm Liebknecht.
A AIT foi a primeira das três Internacionais que o movimento operário e comunista conheceu. Em 1889, já após a morte de Marx, é fundada por Engels a II Internacional e, em 19 de Março de 1919, sob o impacto da Revolução de Outubro, Lénine cria a III Internacional, ou Internacional Comunista, que desempenhou um papel insubstituível no combate ao revisionismo com que Bernstein e outros dirigentes oportunistas conduziram a II Internacional à degenerescência e na criação de partidos de novo tipo, leninistas, inspirados na experiência do Partido Bolchevique, capazes de dirigir a luta revolucionária da classe operária.
Foi nesse quadro que o PCP nasceu em 6 de Março de 1921 e que, depois dos primeiros passos indecisos de aprendizagem, se tornou, a partir da reorganização de Abril de 1929, na vanguarda reconhecida da classe operária portuguesa e na grande força patriótica e internacionalista que se orgulha de ser.
Ao finalizar as celebrações do II Centenário do nascimento de Karl Marx, é oportuno lembrar e valorizar a decisiva contribuição de Marx, muito no plano teórico como da acção prática, para a construção do movimento comunista e revolucionário internacional.
1. Marx/F. Engels, Obras Escolhidas em três volumes, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t. 2, 1983, pp. 5-13.
2. Marx/F. Engels, Obras Escolhidas em três volumes, ed. cit., t. 1, 1982, pp. 406-412.
3. Marx/F. Engels, Obras Escolhidas em três volumes, ed. cit., t. 2, pp. 11-12.
4. K. Marx/F. Engels, Obras Escolhidas em três volumes, ed. cit., t. 2, pp. 195-266.
5. Marx/F. Engels, Obras Escolhidas em três volumes, ed. cit., t. 2, p. 317.