Há cem anos terminou a Primeira Guerra Mundial e o mundo anterior a ela
EFEMÉRIDE Às 11 horas da manhã de 11 de Novembro de 1918 entrou em vigor o Armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. Caladas as armas, ficarammilhões de mortos, feridos e traumatizados, vários países arrasados e quatro impérios desmembrados por derrotas militares e revoluções. A paz alcançada, que para Lénine não passou de «condições ditadas por bandidos», foi semente de novos conflitos.
O Armistício de Compiègne marca a rendição da Alemanha perante a coligação formada por França, Grã-Bretanha e Estados Unidos da América e por mais que em algumas regiões os combates se prolongassem pelas semanas e meses seguintes, a Guerra chegava simbolicamente ao seu fim. O mundo que emergia das cinzas já não era o mesmo de antes e um simples regresso a 1914 era totalmente impossível.
Regressadas da guerra, as massas operárias e populares – que de ambos os lados do conflito constituíram o essencial dos contingentes militares – lançam-se à conquista de direitos inéditos, de que a jornada de oito horas e o voto para as mulheres são apenas alguns significativos exemplos. O proletariado entrava definitivamente na cena política.
Em alguns países, as organizações e partidos operários assumiram posições revolucionárias, ao passo que noutros adoptaram posturas reformistas: em geral, reforçaram consideravelmente as suas posições, disputando o poder com os tradicionais partidos burgueses. A Europa conhecia, nos primeiros anos do pós-guerra, uma forte vaga de lutas operárias e populares, que assumiu carácter revolucionário na Rússia, Finlândia, Áustria, Alemanha e Hungria, mas que abalou todo o continente.
Diferente de 1914 era, igualmente, o mapa político saído da Primeira Guerra Mundial: quatro impérios desapareceram, vários países surgiram e, na gigante Rússia, o proletariado organizado em classe dominante iniciava um exaltante processo de construção do socialismo. A Rússia abandonava o campo imperialista e o exemplo dos bolcheviques russos inspirava os trabalhadores de todo o mundo, pois pela primeira vez na História um povo propunha-se pôr fim a todas as formas de exploração e opressão. Em 1919 surgiu a Internacional Comunista, decisiva para a criação, em todo o mundo, de partidos comunistas.
Batalhas e revoluções
À primeira vista, pode parecer estranho que a Alemanha se tenha rendido a britânicos, franceses e norte-americanos sem que um único soldado de qualquer um destes países tenha pisado solo alemão (cuja preservação, aliás, contrastava com a destruição verificada em países vizinhos, como a França e a Bélgica). Pese embora os graves reveses militares sofridos nos meses que antecederam o Armistício, o poderio bélico alemão estava longe de estar inutilizado.
O que foi realmente decisivo para o desfecho da contenda foi o bloqueio económico e, sobretudo, a revolução, que forçou a rendição das tropas (muitas das quais se encontravam já sublevadas), a abdicação do Kaiser e a abolição da monarquia. A evolução da jovem república de Weimar confirmaria a traição da social-democracia, evidente, já antes, na aprovação dos créditos de guerra no parlamento germânico: travou a evolução da revolução alemã para o socialismo e, em Janeiro de 1919, fica ligada à repressão do levantamento espartaquista e ao assassinato dos seus dirigentes, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo.
Já antes, a 3 de Novembro, o Armistício de Villa Giusti não se limitara a retirar o Império Austro-Húngaro da guerra, consagrando também o seu colapso, há muito anunciado pela afirmação nacional dos povos que o constituíam. Em lugar da monarquia dual surgiram não apenas o reino da Hungria (que afogou em sangue a República dos Conselhos, de Béla Kun) e a república austríaca, mas também novos países, como a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Segunda República da Polónia. Outra das Potências Centrais desaparecida com a guerra foi o Império Turco, dilacerado por revoltas e fustigado pela força militar de britânicos e franceses, que se apoderaram dos territórios conquistados aos Otomanos. Sob o comando de Kemal Ataturk, foi criada a República da Turquia.
O quarto império desmembrado, o russo,começou a guerra ao lado dos que acabariam por sair vencedores. O governo operário-camponês emanado da Revolução Socialista de Outubro, liderado por Lénine, retirou de imediato os seus soldados da guerra e propôs aos beligerantes uma «paz justa, sem indemnizações nem anexações», nos antípodas da que seria mais tarde consagrada no Tratado de Versalhes. A jovem república soviética resistiria às provações da destruição económica, da guerra civil e da agressão de 14 potências estrangeiras, dando provas da superioridade do seu sistema social.
Sementes de uma nova guerra
Nunca o carácter imperialista da Primeira Guerra Mundial foi tão evidente como após o seu desfecho: as condições impostas aos derrotados (principalmente à Alemanha) e a redistribuição dos despojos entre os vencedores revelaram a razão que assistia aos que, como Lénine, consideravam o conflito como uma guerra inter-imperialista de rapina.
O Tratado de Versalhes e os Acordos de Washington consagram a humilhação da Alemanha e a partilha do mundo entre as potências vencedoras, sobretudo Grã-Bretanha e França (que repartiram entre si colónias e territórios dos impérios centrais vencidos) e os Estados Unidos da América, que avançavam no Pacífico. Japão e Itália, que se encontravam do lado vencedor, não viram satisfeitas as suas reivindicações territoriais, o que explica muita da sua evolução posterior.
A ordem mundial saída da guerra, que a Sociedade das Nações se propunha – sem sucesso – regular, criava equilíbrios dificilmente alteráveis por via pacífica. Não foi preciso esperar muitos anos, aliás, para que este status quo fosse desafiado: em 1931, o Japão invadiu a Manchúria, em 1935 a Etiópia foi absorvida pela Itália e dois anos depois o Japão invadia o restante território chinês. Por esta altura já o nazi-fascismo alemão alargava o seu espaço vital no continente europeu, contando com o apoio que, a partir de dado momento, importantes sectores financeiros e industriais canalizaram para Hitler e o seu projecto militarista e expansionista de «renascimento alemão».
O fascismo – nas suas expressões italiana, alemã, húngara, espanhola ou portuguesa – foi a resposta das forças conservadoras e reaccionárias à poderosa onda revolucionária que varreu a Europa nos anos que se seguiram ao Armistício e à violenta crise de 1929.
Afirmação subserviente
de um país subalterno
A participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial tem na batalha de La Lys, em Abril de 1918, um retrato (dramaticamente) perfeito: integrado nos exércitos britânicos, dos quais foi «carne para canhão», o Corpo Expedicionário Português perdeu aí – entre mortos, feridos e prisioneiros – perto de 7500 homens, mais de um terço do total de efectivos.
Nada pode ser mais revelador do que era o Portugal de então: um Estado independente e soberano na aparência, mas na verdade um «protectorado britânico». A submissão portuguesa ficara já evidente na decisão do governo republicano de, às ordens do império britânico, aprisionar barcos alemães estacionados em águas portuguesas, o que conduziu à declaração de guerra por parte do governo do Kaiser.
Um século depois, é difícil não estabelecer comparações entre o País de então e o de hoje, no que respeita à questão decisiva da política externa. Nessa altura como hoje, Portugal colocava-se de forma subserviente ao serviço das potências imperialistas dominantes: a Grã-Bretanha no início do século XX, hoje os Estados Unidos da América.
Os compromissos com o reforço da NATO e da componente militarista da União Europeia – patentes na participação em missões e exercícios bélicos, na presença em território nacional de bases e instalações militares e na aceitação de aumentar despesas com armamento – são opções erradas e contrárias à Constituição da República Portuguesa.
Defender a paz hoje
com as lições do passado
A História só é verdadeiramente útil se dela soubermos retirar lições e ensinamentos para o presente e o futuro. Esta afirmação é tão mais verdadeira quando se está perante um acontecimento tão marcante – e brutal – como a Primeira Guerra Mundial.
Por mais que a historiografia tenda a fixar o deflagrar do conflito no assassinato do arquiduque austro-húngaro Francisco Fernando, em Junho de 1914, as sucessivas declarações de guerra que se seguiram revelam uma densa teia de acordos e tratados militares que configuravam dois grandes blocos imperialistas: de um lado Grã-Bretanha, França e Império Russo; do outro, os impérios alemão, austro-húngaro e otomano. A Itália, muito embora estivesse ligada a este último bloco, acabou por entrar na guerra ao lado de franceses, britânicos e russos e as tropas norte-americanas chegaram aos campos de batalha apenas em 1917, contra os Impérios Centrais.
Apesar de ser, então, a economia europeia que mais crescia, a Alemanha não possuía grandes extensões coloniais, situação que pretendia a todo o custo alterar. Porém, como notava Lénine, desde finais do século XIX que a política colonial dos países capitalistas completara a «tomada das terras não ocupadas do nosso planeta». Daí por diante, qualquer redistribuição de territórios implicava não a conquista de terras «sem dono» mas a mudança desse mesmo «dono». Ou seja, o alargamento do império colonial germânico só seria possível à custa das potências coloniais dominantes: a França e, sobretudo, a Grã-Bretanha.
Na origem da guerra estiveram, portanto, disputas por colónias, rotas comerciais, mercados e fontes de matérias-primas. Hoje, como sublinhou o PCP no seu XX Congresso (realizado em finais de 2016), a «ofensiva agressiva do imperialismo continua a incidir particularmente nas regiões de grande concentração de recursos naturais, matérias-primas e rotas energéticas e em regiões-chave do ponto de vista geoestratégico». O Médio Oriente será o exemplo mais evidente, mas está muito longe de ser o único.
Os anos que antecederam a Guerra foram marcados pelo estabelecimento de alianças militares e por uma acelerada corrida aos armamentos, cada vez mais sofisticados e mortíferos. Já em 1912, em amplos sectores do movimento operário, e não só, generalizava-se a convicção de que se caminhava rapidamente para um conflito global. As proporções, essas, eram ainda inimagináveis.
Actualmente, só quem andar distraído é que pode negar a crescente militarização que marca o nosso tempo, patente nas diversas agressões bélicas em curso; na proliferação de bases, esquadras, contingentes e instalações militares dos EUA e demais membros da NATO em todos os continentes e oceanos; o desenvolvimento de novas armas, incluindo robóticas e espaciais; o cerco militar à Rússia e à China e o aumento da retórica belicista contra estados soberanos; o acentuado incremento das despesas militares.
Relativamente a este último aspecto é de notar que em 2017 os gastos militares mundiais atingiram a astronómica soma de 1700 biliões de dólares, dois terços dos quais da responsabilidade dos EUA (mais de 30% sozinhos), dos restantes membros da NATO e de outros aliados próximos. Entretanto, os Estados Unidos aprovaram já, para 2019, o maior orçamento militar da história.
No momento em que se assinala o fim da Primeira Guerra Mundial, é fundamental defender a paz hoje, congregando vontades na acção pelo desarmamento, a dissolução da NATO, a solidariedade com os povos e a concretização de uma política externa portuguesa alinhada não com os interesses de EUA, NATO e UE mas com os princípios consagrados na Constituição da República Portuguesa e na Carta das Nações Unidas.