Afonso Gregório, um militante comunista a quem o fascismo não quebrou a firmeza
CENTENÁRIO Caso fosse vivo, Afonso Gregório teria feito cem anos no passado dia 20 de Outubro. Permanece, porém, o seu «exemplo para os operários e trabalhadores», como em 1996 sublinhou Blanqui Teixeira, no funeral daquele militante comunista.
Afonso Gregório voltou sempre para o seu lugar na luta
Natural da Marinha Grande, onde nasceu em 1918, Afonso Gregório conheceu ainda na infância a exploração capitalista. Aos sete anos era já aprendiz na indústria vidreira, onde trabalharam, também, o irmão mais velho, José Gregório, destacado militante e dirigente do PCP, e o irmão mais novo, Joaquim Gregório. A militância comunista na clandestinidade imposta pela ditadura fascista, levou a que os três irmãos tivessem sido presos políticos na cadeia da Fortaleza de Peniche.
Confrontado com as brutais condições laborais nas fábricas de vidro e influenciado pela têmpera revolucionária do proletariado marinhense, que em 18 de Janeiro de 1934 ergueu na vila um bastião operário contra a fascização dos sindicatos, Afonso Gregório «mergulha» na clandestinidade com 28 anos, em 1946. Dá assim sequência a um percurso militante no PCP que se prolongaria, com inteira dedicação, coragem e firmeza, até ao fim da sua vida.
Afonso Gregório manteve-se na clandestinidade durante 13 anos ininterruptos, até 1959, quando foi preso pela PIDE e condenado a 9 anos e seis meses de cárcere, acrescidos das famigeradas «medidas de segurança». Era, na altura, membro do Comité Central eleito no V Congresso do Partido, realizado no Monte do Estoril, em 1957.
Torturado e mal tratado com violência persistentemente pelos esbirros fascistas (que posteriormente não só lhe começaram por negar os tratamentos de que carecia, como agravaram o seu estado justamente devido dos «tratamentos» que lhe ministraram, como, ainda, prolongaram a sua reclusão para lá da opinião de reputados médicos especialistas), Afonso Gregório ficou com a saúde irremediavelmente comprometida. Foi em resultado de uma intensa campanha nacional e internacional promovida pela então designada Comissão de Solidariedade aos Presos Políticos Portugueses, que viria a ser libertado, em Março de 1969.
A companheira de uma vida
Em 1954, Afonso Gregório conheceu aquela que foi a sua companheira de uma vida: Teodósia Vagarinho (1935-2016). Operária agrícola que começou desde tenra idade a acompanhar o pai na jorna pelos campos do Alentejo, na leitura e distribuição do Avante! e doutros documentos clandestinos, em Montemor-o-Novo, donde era natural, Teodósia Vagarinho ingressou na clandestinidade com 19 anos. Foi enquanto funcionária do PCP que conheceu Afonso Gregório,.
Durante os dez anos em que Afonso Gregório esteve preso nas cadeias fascistas, Teodósia Vagarinho notabilizou-se na defesa das casas clandestinas do PCP, sendo um facto comprovado por vários camaradas que com ela viveram e privaram, a sua extraordinária astúcia vigilante e a sua especial capacidade para criar condições propícias a que os vizinhos não desconfiassem da actividade política nas casas clandestinas de que era responsável.
Até ao fim
Libertado em 1969 quando os médicos não lhe prognosticavam mais do que seis meses de vida, Afonso Gregório partiu, em 1973, com Teodósia Vagarinho, para a União Soviética com o objectivo de receber tratamento. A ditadura portuguesa impediu que levassem o filho, José Manuel, o qual haviam deixado com os pais de Teodósia quando este tinha apenas quatro anos. Nem mesmo para a Bélgica, onde se fixaram depois de Moscovo e até ao 25 de Abril de 1974, foram autorizados a levar o filho.
Com a Revolução dos Cravos, após uma breve passagem pela Organização Concelhia de Cascais do PCP, Afonso Gregório desempenhou tarefas na primeira sede nacional do Partido, na Rua António Serpa, em Lisboa
Funcionário do PCP já na legalidade, após ter trabalhado na Organização Concelhia de Cascais do PCP, Afonso Gregório desempenhou tarefas de apoio à instalação da Escola do PCP, e, depois, no Centro de Trabalho Vitória, mas a saúde debilitada pelos torcionários fascistas durante o período de reclusão obrigaram-no a diminuir cada vez mais a actividade. Faleceu a 7 de Fevereiro de 1996.
No seu funeral, Blanqui Teixeira, na altura membro do Secretariado do Comité Central do PCP, lembrou que apesar da saúde enfraquecida, Afonso Gregório sempre «voltou para o seu lugar na luta e foi assim continuando até que a vida acabou», sendo, por isso, um «exemplo para os operários e trabalhadores, para todos os que querem passar pela vida solidários com os outros».