Há 85 anos, Dimitrov impôs a primeira derrota ao nazismo

Gustavo Carneiro

Dimitrov deixou evidente que foram os próprios nazi-fascistas a incendiar o Parlamento

Há exactamente 85 anos decorria na Alemanha – primeiro em Leipzig e posteriormente em Berlim – o julgamento dos acusados pelo incêndio no Parlamento Alemão (Reichstag), ocorrido a 27 de Fevereiro de 1933, em particular os comunistas búlgaros Georgi Dimitrov, Vassili Tanev e Blagoi Popov e o holandês Marinus van der Lubbe. Se este último, debilitado física e psicologicamente, foi condenado à morte e executado, os três búlgaros foram ilibados, libertados e enviados para a União Soviética, que os acolheu como cidadãos seus, concedendo-lhes inclusivamente a nacionalidade.

Mas não eram estes os planos que os chefes do Partido Nacional-Socialista/NSDAP, chefiado por Hitler (que assumira o cargo de chanceler exactamente um mês antes do incêndio), tinham para Dimitrov, Tanev e Popov. Desde a acusação à condução do processo, passando pelas condições prisionais e pelos obstáculos colocados à defesa dos réus, tudo estava montado para fazer deste julgamento a consagração dos novos senhores da Alemanha e o motivo para a criminalização, ilegalização e perseguição dos comunistas e, por arrasto, de toda e qualquer oposição. A transmissão via rádio das sessões testemunhava a confiança extrema de Hitler e seus sequazes no desfecho favorável do processo.

A acusação assentava na apresentação do incêndio como sinal para um levantamento comunista. As provas eram incipientes e as testemunhas provinham essencialmente do seio das fileiras do NSDAP. O controlo apertado que já se fazia sentir sobre o sistema judicial, em acelerada fascização, e a forte campanha anticomunista que se desenvolvia nas ruas e na imprensa visavam assegurar o cumprimento do tenebroso plano. Com o que os nazi-fascistas não contaram foi com a enorme sagacidade, coragem e grandeza moral do dirigente da Internacional Comunista Georgi Dimitrov.

O fascismo no banco dos réus

O revolucionário búlgaro, que se viu obrigado a assumir a sua própria defesa (face à recusa do tribunal de aceitar os advogados por ele propostos), derrubou os alicerces da acusação e desmascarou, uma por uma, as suas testemunhas. Mesmo quando elas foram nada mais nada menos do que dois dos mais destacados dirigentes nazis e ministros do Terceiro Reich, Herman Göring e Joseph Goebbels.

Do confronto com o tipógrafo e sindicalista nascido na localidade búlgara de Kovachevtsi, no qual perdeu completamente as estribeiras, Göring saiu totalmente desacreditado. Quanto ao ministro da Propaganda, nem mesmo recorrendo a toda a sua retórica foi capaz de levar a melhor perante Dimitrov.

Com argumentos sólidos e firmeza inabalável, o dirigente comunista deixou evidente aos olhos do mundo que aos nazis, e só a eles, beneficiava o incêndio do Reichstag, que o único golpe que se preparava era o de Hitler rumo ao poder absoluto, que Marinus van der Lubbe foi um joguete nas mãos dos verdadeiros criminosos.

Mas fez muito mais do que isso. Defendeu o ideal comunista, a União Soviética, a Internacional, as forças da paz e do socialismo. A síntese que fez em pleno tribunal da táctica dos comunistas representa ainda hoje um lema mobilizador para os revolucionários de todo o mundo: «Trabalho de massas, luta de massas, resistência de massas, frente única, nenhumas aventuras!».

Dimitrov inspirou outros comunistas a, perante os tribunais, passarem de réus a acusadores do fascismo. A defesa de Álvaro Cunhal de Maio de 1950, não sendo único, é dos mais notáveis exemplos.




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